Carioquices


Um das coisas que mais me dão medo é que o meu talento – ou o que escolhi para fazer da vida – não me sustente.

Mesmo quando trabalhava fazendo desenhos no computador, em jornais, me perguntava: Se uma guerra ou uma crise econômica acontecer, serei um dos primeiros a não ser aproveitado num mundo onde os talentos manuais são mais procurados.

Na reconstrução de uma nação, padeiros, pedreiros, marceneiros, serralheiros, costureiros, e pintores, além de diversas outras profissões manuais, serão mais úteis do que personal trainers, ilustradores, “profissional da internet”, etc.

Então, desde já, digo que nenhuma profissão artesanal devia ser tratada com desprezo, ou pior: como adequada a uma classe.

E é assim que são tratadas. Estou juntando aqui algumas informações que soltei em pequenos desabafos no Facebook.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

O primeiro já foi transformado até em post, durante o lançamento do meu álbum em quadrinhos em Vitória/ES, no começo do ano. Mesmo estando vestido diferente dos demais vendedores (boa parte deles negros), sentado à frente dos meus livros e de ter sido anunciado pelo evento que eu estaria ali assinando meus trabalhos, três pessoas se dirigiram a mim, me perguntando preço de livros… dos outros. Acharam que eu era vendedor da loja.

“Mas você está achando ruim ter sido comparado a um vendedor de loja?”

Sim e não. Me senti chateado porque as pessoas que me perguntavam ignoravam o fato de eu não estar vestido com os funcionários da LIVRARIA LOGOS, estar de gravata, blusa social de manga longa sentado à uma mesa com meus trabalhos e, por simples associação, acharam que eu estava ali trabalhando vendendo livros. Bem, eu estava sim, mas os meus…

Em um outro episódio, deja vu: Feira Capixaba de Literatura, coisa de cinco meses depois. Lá estava eu, novamente num estande da Livraria Logos, desta vez com uma blusa roxa, assinando meus livros. Uma garota, branca, com seus 20 anos, me perguntou o preço de um livro que ela carregava do outro lado do estande.

– Eu não sei, querida… Estou aqui apenas assinando meus livros.

– Eu achei que você era vendedor!

– Digamos que eu “estou” vendedor – respondi. – Estou vendendo meus livros. Mas o que faz você pensar que eu sou vendedor da loja? Estou vestido de roxo, numa mesa com meus trabalhos, assinando autógrafos…

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Eu na Feira Capixaba: meu “crachá” me transformou em funcionário.

– É o seu crachá. – Ela se referia à credencial que eu usava,  assim como as dos vendedores. Assim como também as senhoras da Academia Feminina Espirito-santense de Letras, que assinavam seus livros no mesmo horário. A única similaridade que eu compartilhava apenas com os vendedores era a minha cor.

Podemos dizer que esses “enganos” partiram do povo, acostumado a classe baixa, em sua maioria negros e mestiços, na área de prestação de serviços braçais ou área de vendas. Uma vez condicionado a isso, é difícil desassociar-se dessa imagem.

Até porque é uma imagem real. Temos muito mais enfermeiros(as) negros(as) do que médicos(as) negros(as).

O cargo de auxiliar de serviços gerais, geralmente é ocupado por negros.

Já reparam no gari da sua rua? É negro? As duas senhoras que trabalham na minha são.

Os caras que recolhem meu lixo? Negros!

O serviço braçal, manual, a base da cadeia produtiva, ainda é negra, tal como no começo de tudo.

Então, é natural o povo achar que, a sua cor dá uma “pista” do seu lugar na sociedade e assim, lhe fazer a pergunta:

– Sabe me dizer quanto que tá isso?

Para não dizer que é um problema local (até agora dei exemplos do Espírito Santo), eu fui convidado para um evento sobre quadrinhos na Saraiva do Botafogo Praia Shopping e, enquanto esperava minha fala, fui olhar a sessão de quadrinhos. Uma senhora me questionou o preço de um livro.

— Minha senhora, eu não sei, mas quando eu quero saber, eu levo naquele leitorzinho ali, ó? – e apontei para o lado.

A senhora agradeceu e, assim que voltei aos quadrinhos, uma pessoa me abordou, perguntando se eu havia achado algo.

Quando ele olhou para a minha cara de quem não sabia de nada, ele confirmou que não era eu o funcionário que ele tinha pedido algo.

Nesse dia, eu estava com a blusa preta, tal como o pessoal de lá. Culpado, né? Vai vestido de funcionário, o pessoal acredita…

 

Para ilustrar ainda mais o caso e não acharem que eu estou julgando com o coração, eu estive na Saraiva de Niterói, onde vi uma propaganda grande na vitrine da loja, voltada aos universitários. A mensagem dizia que lá na Saraiva tinham tudo o que eles precisavam.

Só que na imagem traziam três brancos (um ruivo, mas ainda sim…). Fui ao site e percebi que lá falava também de volta as aulas. Lá sim tinha um moreno. Peguei a imagem do site e fiz meu protesto.

saraiva

Peguei pesado?

É a minha interpretação sobre algo que vi no site da empresa, não? Aliás, eu cheguei a questionar para a vendedora da loja, se ela não achava absurdo o fato de não ter um negro entre os universitários da propaganda na entrada da loja. Ela, assim como os outros dois vendedores próximos a ela, também eram negros. Ela me olhou, deve ter me achado meio louco.

– Eu não sei nada disso. É coisa do marketing – respondeu. E não quis mais conversa.

Mas esses assuntos são de meses atrás. O que me fez trazê-los à tona? Duas coisas. Uma declaração da Taís Araújo numa entrevista para Rosana Jatobá, que reproduzo a pergunta e resposta em questão:

Rosana Jatobá – O Mandela ficou mundialmente conhecido por lutar contra o Apartheid, que era o regime de segregação racial na África do Sul. Você ao longo da sua carreira em algum momento você se sentiu marginalizada, vítima de algum tipo de preconceito?

Taís Araújo – O tempo inteiro, né. A gente vive no Brasil.O Brasil é um país preconceituoso, eu sofro preconceito da hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir. O preconceito não tá só em me tratar mal numa loja, tá em entrar em uma loja, por exemplo, olhar a minha volta e não ter ninguém igual a mim sentado comendo no restaurante. As pessoas que estão ali são iguais a mim estão ali me servindo só. Mas elas não tem a possibilidade de estarem ali sentadas. Não foi dada a elas a possibilidade de estudo, esse é o preconceito.

É assim que vejo também. A diferença é que não sou conhecido como a Taís e de vez em quando sou visto como funcionário do lugar. É um tipo de preconceito, como o que presenciei ontem, no dia em que terminei um curso (na verdade, um laboratório de roteiro) com o roteirista Celso Taddei e o diretor Márcio Trigo.

Olha esse cabelo e barba!

Olha esse cabelo e barba!

Eu estava no Humaitá, próxima à Botafogo (cariocas, me corrijam!), e peguei um táxi para chegar a um evento. Graças a dois meses de trabalho num ritmo frenético, eu não consegui passar no meu barbeiro de confiança para cortar meu cabelo e fazer a barba (coisa que faço desde quando descobri a irritação da pele após fazer a barba).

Quando entrei no taxi, disse ao taxista que ia fazer uma corrida curta para o Shopping Botafogo, e a partir daí começou um bate-papo sobre corridas curtas.

Eu falei que estava vindo de uma confraternização com os amigos e o taxista então me perguntou se eu trabalhava na Riourbe.

A Riourbe é uma empresa de pública de capital fechado da Prefeitura do Rio. Sua especialidade? Gerenciamento de obras públicas de infra-estrutura, urbanização, reformas, construções, conservação e manutenção preventiva de prédios públicos.

Já sacou, né?

Baseado simplesmente no fato de eu estar numa área nobre do Rio de Janeiro, o taxista pensou que eu era um trabalhador de obras.

Ou você quer acreditar que ele olhou para a minha cara e pensou:

– Esse cara é um engenheiro!

“Mas então você não quer ser confundido com um peão de obra, isso quer dizer que você é preconceituoso, se acha bom demais para ser um peão de obra!”

Não é assim. Eu certamente ganho menos que um (bom) pedreiro ou um marceneiro. Eu escolhi minha profissão e ainda novo me disseram que eu não conseguiria. Muitos dos meus amigos trabalharam em obras – assim como eu – por falta de opção.

Mesmo sabendo que todos os prestadores de serviços gerais – pretos e brancos – são os que movem este país, são eles que mantém o mundo rodando, essas pessoas são tratadas com desrespeito.

E quando uma pessoa olha para mim e supõe, pela minha cor, que estou ali para servi-la, sem ter o cuidado de saber se eu estou sendo pago para isso, é algo que me deixa profundamente chateado.

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contrato

 

Em casa, com roupinha velha, descalços e caneta com super-heróis em quadrinhos estampados. Foi assim Ana Cristina Rodrigues e eu assinamos o nosso contrato com a editora Claro Enigma, que faz parte da Companhia das Letras, para produzir um grande trabalho histórico-biográfico em quadrinhos.
Obrigado aos que torceram e quando der contaremos mais novidades!

Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Na última sexta (16/05) estive na Feira Capixaba de Literatura, que aconteceu na Praça do Papa, em Vitória/ES,  para debater sobre literatura infantil. Na companhia da professora da UFES Maria José de Paula e com mediação de Paulo Sodré, agreguei ao tema o fato do professor ser um facilitador do acesso das crianças aos livros, por eles conhecerem gêneros literários e assim oferecerem mais opções para as crianças.

Na plateia, integrantes da Academia Espírito Santense de Letras e da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, alunos da rede pública, educadores, alunas da Maria José e uns dois convidados meus.

Claro que intimida estar num lugar com um bocado de gente gabaritada em literatura olhando o que eu tinha para falar, mas também foi gratificante ver que essas mesmas pessoas estavam interessadas em me ouvir, seja como profissional ou sobre meus percalços também.

Numa determinada altura da conversa, o presidente da Academia Espirito Santense de Letras disse que “a melhor coisa que fiz foi sair do Estado”, porque lá não existem formas de se viver como escritor. Apesar de eu ter trocado o Espírito Santo pelo Rio de Janeiro por, entre outros motivos, querer me dedicar à escrita, eu acho a opinião dele é equivocada. Pelo menos, parcialmente.

Antes de mais nada, pela natureza do que faço, – que é escrever, desenhar e roteirizar – prefiro ser chamado de “autor”.

Segundo, não foi a mudança espacial – sair do Espírito Santo e ir morar no Rio de Janeiro – que me fez ter mais oportunidades. A mudança foi uma revolução interna.

Pense assim: Um administrador de empresas no Brasil pega sua graninha e vai para os EUA tentar mudar de vida. Disposto a se manter lá a qualquer custo, pega um trabalho de garçom, vai limpar chão, cuidar de cães, entre outras coisas.

Para economizar, ele deixa de sair, consome o que lhe é mais barato, economiza o máximo… Tudo o que ele poderia ter feito no Brasil.

Na verdade, a mudança espacial é uma forma de tirar a pessoa de seu ambiente confortável, ligar o modo “sobrevivência” e aumentar a aposta. Foi o que fiz ao vir para o Rio. Aumentei a aposta, porque num ambiente cômodo como era, estar perto da família e ter um emprego estável desestimula o desafio. Qualquer desafio.

A realidade é que a vida de um escritor, assim como qualquer pessoa ligada a arte e esportes, é uma loteria. Não dá para imaginar para onde vai levar o fruto de seu trabalho e, na maior parte das vezes, esta sua maior expressão é relegada a segundo plano.

 

Você é jornalista E escritor.

É professor E escritor.

É advogado E escritor.

É auditor fiscal E escritor.

É aposentado-de-alguma-profissão E escritor.

Para o escritor ser “escritor” E alguma coisa – ou seja, sua profissão/vocação/condição vir em primeiro lugar – é preciso uma reunião de tantos elementos que é impossível descrevê-los como uma receita, dar em lista (que será sempre pobre, se pensarmos no número de possibilidades que a vida pode nos proporcionar), ou dar as dicas.

Ainda no tal evento, um colega me apresentou a outro: “Este é o Estevão, ‘cartunista’ (pois é, todos que fazem ilustrações vira cartunista para o pessoal), publica fora do Estado e do país, SÓ NÃO NOS DÁ O CAMINHO DAS PEDRAS…”

Como se eu soubesse… O que faz um indivíduo imaginar que eu sei uma fórmula para fazer qualquer autor ser publicado? Que as experiências que vivi servirão para ele?

Se eu pudesse dar uma dica, seria… não tem macete, povo.

Tudo que você fizer em prol de sua escrita é apenas um aumento de probabilidades, não um acerto em si.

O escritor André Vianco começou sua carreira literária pagando a impressão de seu primeiro livro.

O sucesso de vendas Eduardo Spohr mostrou a força da internet ao ter a tiragem independente de seu livro noticiado num podcast.

Gritar na feira, oferecendo seu livro, funcionou para que a Thalita Rebouças não passasse desapercebida no lançamento de seu primeiro livro numa Bienal.

Comprar bots (programas) para turbinar o número de curtidas da sua página no Facebook serviu para outros.

Ser melhor vendedor do que escritor do próprio trabalho também. Pensando nesta, seria o escritor vendedor E escritor?

Ler dezenas de livros, fazer cursos, ouvir palestras, ir a lançamentos, ter uma boa network, tudo isso pode ser considerado na equação que levará o livro de seu computador para uma editora, tanto quanto a qualidade de seu trabalho.

Sério. Qualidade literária também é um conceito relativo. Quem pode dizer que o texto é bom ou ruim? Um bocado de gente, eu sei! Para isso tempos doutores, linguistas, estudiosos habilitados a dizer que o texto é bem escrito, discorrer sobre a estrutura do texto, mas o que não agrada uns pode realmente ser publicado por outro em favor de muitas questões.

“Seu editor não gosta de mim, mas seu leitor gosta!” pode ser também um ponto a ser considerado para ser publicado, por que não? Ou você acha que editor também não é funcionário?

Talvez ele seja editor E escritor.

ódio

Hoje voltei à infância. Não à boa infância, mas àquela odiosa, a que não me deixa esquecê-la em casos assim.

Moro numa área hostil, o que é relativamente comum no Rio de Janeiro. Se não te ameaçam com armas impondo a segurança, outros ameaçam com as mesmas armas impondo poder, e ainda temos uma terceira via, que são as pessoas abastadas que te olham com ameaça, desejando não ter que conviver com uma pessoa de classe diferente.

Acho que a maior parte da população já viveu alguma dessas ameaças. Eu já vivi e, hoje, ela teve uma carga especial, porque também me senti como o pessoal da terceira via.

Fui fazer compras num mercado local quando, na avenida principal, cinco garotos, em média com seus 15 anos, passaram por mim, do outro lado da pista.

Eles falaram algo, parecia ter sido para mim, chamando a minha atenção. Carros passando, barulho peculiar e qualquer mensagem que eles tivessem me passado se perdeu.

Quando olhei para o grupo novamente, desta vez consegui ouvir:

– Gordo escroto!

Parecia tão surreal que, em plano século XXI, adolescentes indo para escola, se achassem no direito de esculachar alguém, e eu ignorei. Mas como eu já havia olhado, um deles achou interessante dizer:

– Tá olhando o quê? – Sem parar, o grupo foi andando do outro lado.

Eles estavam longe era uma autopista, carros passando. Cinco negros, porte físico compatível. Cinco negros de boné para trás. Cinco negros fazendo um bonde. Meu primeiro sentimento foi um ódio de mim mesmo, por achar que eu merecia aquele comentário. Afinal, sou gordo!

Depois veio a vontade era peitar, chamar para a briga, vomitar um bocado de verdades, estatísticas da probabilidade de um dos cinco ser bem-sucedido em alguma coisa honesta, quis eles mortos, pela ilusória demonstração de poder daqueles garotos.

Aí, pensei que estarei em amanhã numa palestra sobre literatura infantil, falando sobre quadrinhos e livros infantis pensados para uso na escola.

Pensei que, quando eu estava na idade daqueles rapazes, eu buscava agir como a voz consciente em meio aos que adoravam fazer alguma coisa errada. A educação que recebi, junto com os quadrinhos que eu lia, cheios de senso de moral, de fazer o certo porque é certo, moldaram meu caráter.

Eu sou humano, cometia erros de julgamentos, mas sempre tentei fazer coisas da qual me orgulharia depois.

Não me orgulhei do ódio que tive daqueles garotos. E pensei no quanto as mulheres sofrem com os assédios diários. Sofri num momento o que muitas pessoas sofrem diariamente.

E quando cheguei ao supermercado, ao escolher logo a fila que não andava, vi diversas pessoas atrás de mim reclamando do caixa, de sua lentidão e do sistema que não lia os códigos de barras, do cartão que não passava, e enfim mudaram de fila.

A caixa não estava no seu melhor dia, sofrendo com o clima pesado da fila, e a minha cara também não era a melhor.

Eu estava pronto para despejar minha frustração de não ter peitado – e provavelmente apanhar – daqueles rapazes numa na pessoa mais indefesa que encontrei.

Engoli meu ódio, esperei muita gente que escolheu as filas laterais andarem. Eu segurei a onda. Ninguém ali percebeu meu gesto maravilhoso.

Só viam “um otário que estava na frente deles e que foi atendido depois”.

lupita

Eu preciso dizer umas palavrinhas sobre o que tem saído na rede esses dias, até porque uma coisa está batendo na outra e fica parecendo que é tudo uma coisa só. E é.

Lupita Nyong’o é considerada a mulher mais bonita do ano segundo a revista “People”. O dançarino Douglas DG leva um tiro, enquanto fugia de um tiroteio da PM.

E tem a surpreendente resposta de Daniel Alves ao ato de racismo do torcedor do Villareal.

Uma mulher negra é considerada bonita e encontrei comentários na rede como “Não é a mais bonita, mas eu traçava”. Outro respondeu “Prefiro virar padre”.

Não existe uma resposta certa para “quem é a mulher mais bonita do mundo?”, ou do ano, do século. A pergunta mais justa a fazer seria “precisamos eleger uma mulher como a mais bonita do ano?”

A pergunta foi feita, uma negra ganhou pelo conjunto de qualidades, além da relevância em seu papel como mulher negra no cinema. Aplaudem uns, reclamam outros. O mundo não está um pouco mais negro, apenas tirou um pouco da poeira da vitrine que nos esconde.

Num artigo do André Forastieri, ele questionou na parte de comentários a falta de jornalistas negros nas redações. Eu respondi que existem brancos mais preparados para entrar nas faculdades de comunicação por virem de escolas particulares ou cursinhos. Um indivíduo entrou na conversa dizendo que os negros não correm atrás, que gastam seus recursos com celulares, tênis e roupas.

Coincidentemente eu havia assistido um trecho de um documentário da GNT sobre a prostituição em Salvador. Eu vi a história de duas mulheres negras.

Uma veio de Feira de Santana, aos 14 anos e se prostitui desde então. Sonha reencontrar um gringo que viveu com ela por cinco meses.

A outra tem 35 se prostitui desde os 12. Diz que prefere os brancos a negros, porque negros querem machucar na hora “do amor”. Os brancos são mais amorosos.

Ao ser perguntava se preferia casar com um branco ou com um negro, ela disse:

– Com branco, né? Para “limpar” um pouco a família.

Esse pensamento não é exclusivo da prostituta.

Ninguém quer viver numa condição que a desfavorece. Minha família sempre me dizia “você não é negro, é moreninho”. E um padeiro, branco, me disse uma vez, num episódio desabonador: “preto é tudo igual, mesmo…”

 

O caso do DG é complicado. Dizem que ele andava com traficantes, freqüentava festas, outros dizem que ele tinha passagem pela polícia…
Mesmo que isso tudo fosse verdade, não seria menos triste a morte de um cara que desenvolve um trabalho artístico.

Deixa eu te contar: TODO MUNDO, senão MUITA GENTE que mora nas grandes cidades conhecem um traficante, um usuário, um lugar onde acontecem coisas ilícitas, mesmo que de vista. Em todos os lugares que morei vi amigos virarem usuários e trabalhar com o tráfico, assim como vi pessoas trabalharem em diversas áreas.

Ninguém deixa de conversar com uma pessoa pela sua opção, ainda mais num ambiente complexo como são comunidades, onde todo mundo se conhece. As pessoas respeitam suas opções e tentam tocar a sua vida como podem.

É uma questão de escolher, mas como convencer um cara que ganha uma grana R$ 500,00, Mil Reais por semana, a ganhar R$ 800,00 por mês, agüentando patrão te chamar neguim, ou te fazer a atração do local?

Como convencer uma garota do morro a estudar e trabalhar num banco ganhando R$ 1.750,00, segundo a Fenabran, sendo que ela pode ser mulher de um cara que ganha R$ uns 5.000,00 na favela? Ou

A vida de “otário” que levamos não seduz, da pessoa que vê o político roubando e se iludindo, dizendo que a culpa é deste ou de outro partido, quando a culpa é de todos os envolvidos.

Vi por muito tempo jornalistas chorando nos corredores, outros emendando um cigarro no outro por pressão. Quem morre primeiro, o jornalista ou o bandido? Certamente o bandido, mas ninguém vive bem.

Sobre o episódio do Daniel Silva: Eu nunca fui chamado, com todas as letras, de macaco. Isso não quer dizer que eu já não tenha sido tratado como um macaco. Mas o que me deixa mais chateado é que eu já agi como um. Diversas vezes.

Principalmente quando eu estava num lugar onde eu me sentia deslocado, ou devido a tanta coisa que enfiam em sua cabeça a vida inteira, você as vezes cede e acredita, mesmo que por um segundo, que não merece estar ali. Você acaba tentando ser interessante, falar do que faz, faz ao vivo o que pedem.

Um dia uma jornalista me pediu uma ilustração para a matéria dela. Como a história era interessante, a ilustração rendeu, a ponto da repórter dizer:

– Nossa, que bonito! Vou te dar um bombom!

Eu a olhei e disse:

– Obrigado, mas sabe que sou pago para faze isso, né? Sou um funcionário, como você…

Preto e gordo, dá a impressão que é pago com chocolate mesmo, né? Me senti um daqueles macaquinhos, fazendo macaquices em troca de alimento.

O outro episódio foi num evento de quadrinhos, onde saí para beber com uns amigos e conhecidos de internet. Quando o cara viu um negro, gordo, com barba e boné, falou:

– Ed Motta!

Ele não era nem o vigésimo quinto cara a fazer a brincadeira, mas para me enturmar, fiz uma vocalização do cantor. Banquei o mico de circo.

Foi o bastante para, cada vez olhava para mim naquela noite, ele falasse comigo:

– Faz o Ed Motta!

E eu, como um macaquinho, fiz mais umas duas vezes. Ele me pediu novamente e eu o olhei:

– Sério que vai ser isso a noite inteira? Já deu, né?

Não fiquei mais tão divertido. Ainda fiquei com raiva de mim por não ter feito aquilo antes.

Em muitos casos, o negro não consegue chegar a outras classes sem experiências traumáticas. Seja o preconceito durante o processo, o passado que lhe martela as faltas de recursos, ou o simples fato do exótico chamar mais atenção do que o talento.

Os negros que ascendem camadas podem ser: revanchistas sociais, preconceituosos contra brancos ou negros, ou ser a sensação do ambiente social e profissional. Ganha um apelido, grita, conta causos, dá show, faz a alegria da galera. Eu me encaixo na última categoria e continuo bancando o bobo alegre de vez em quando. Macaco, nunca mais.

tio

Imagino você, que entrou neste blog para rir um pouquinho, queira rir. Mas se olhar os posts anteriores, vão pensar que este pos té mais um daqueles deprês de aniversário… Bem, este post tem um pouco de tudo. Espero que aproveite.

Amanhã, dia 2 de abril, é o meu aniversário. Este post foi escrito no dia primeiro de abril, sob tiros nervosos do morro, que se encontra à direita do meu escritório, uma quadra acima da minha casa. É bom citar isso porque estou nervoso, nunca ouvi tantos tiros. Porém, vamos tentar contar a história.

Tem mais de 3 semanas que eu tenho feito caminhadas regulares, quatro dias por semana, com alguns exercícios que não me deixem morto o bastante para desistir. Morto. Péssima escolha de palavras quando se ouve tiros…

O mal de um cara que quer mandar embora de seu corpo 10, 20, 40 quilos adquiridos ao longo dos anos é pensar num resultado a curto prazo. Queimamos etapas, distendemos músculos, reclamamos do tempo e perdemos o ânimo. Aí, volta a promessa que, em alguma segunda-feira, vamos recomeçar.

Ontem foi a minha quarta segunda-feira seguida. Encaixo a minha caminhada entre as aulas de inglês e a natação do meu enteado, que acontecem de segunda a quinta, próximo ao Horto do Fonseca, num horário sem os atletas de plantão nem passeios de cães. Às vezes encontro um ou outro rosto conhecido, e ali andamos sem julgamento. Somos alguns corpos envergonhados e desengonçados correndo atrás do prejuízo no meio da tarde.

Mas tem uma coisa que, vez ou outra, atrapalha a paz: adolescentes. Seus hormônios em ebulição fazem do Horto um lugar para fugir das aulas e namorar. E desfilar nossos corpos em frente tanta juventude tem um preço. Risos contidos, olhos raivosos por testemunharmos às investidas ousadas dos garotos. O som do celular, geralmente um pancadão, com letras ditando e ensinando o traçado, mostram um pouquinho do que eles querem. O que elas também querem. E por ali eu passo, imaginando que, naquela idade, os foras que levei foi por professar amor, meu fascínio. Naquela idade eu não me achava digno de usar as melhores palavras para descrever o que meus hormônios queriam de fato, hoje dito escancarado, ensinado.

“Eu nasci no tempo errado”, vivia dizendo para mim mesmo. Mas o tempo que eu queria ter nascido eu também não me encaixaria.   Se sou um cidadão perdido no tempo, e cada via mais perdido em meus sonhos, decidi que nada me impediria de seguir meus planos. Quando um grupo de adolescentes utilizavam as estruturas de exercício de banco, resolvi iniciar uma conversa.

– Mocinha, com licença, posso me esticar aqui? A garota saiu das barras usadas para alongamento. Minha bermuda, gasta, tinha um buraco nos fundos. Os garotos estavam sentados na frente do aparelho.

– Olha, agora vocês vão ver algo não muito agradável. Estiquei a perna, mostrando os fundilhos furado. Claro que não se via nada, era um buraco na perna.

– AHHHH!!! – Os olhos dos moleques queimaram.

– Isso não doi? – Perguntou a garota, A menina me viu eu esticar a perna.

– Dói pacas, falei para a garota, para delírio geral. Eles continuaram conversando, me vendo fazer flexões. Não no chão, porque ainda estou pesado demais para apertar tanto o ritmo. Queimar etapas, lembra? Fiz 10 flexões numa barra a 30 metros do chão. Depois fiz mais 10. Depois mais 10. Mais 10. E mais. E mais…

– Ô tio, descansa uns 30 segundos. O senhor não tá descansando nem cinco, vai cansar e não adianta nada para os músculos.   Aí, meu mundo deu uma caída. Quando um rapazinho na rua te pede dinheiro te chamando de tio, é uma ofensa. O rapaz mostrou preocupação, quase num tom corretivo, como faço com a minha mãe, quando ela banca a experiente irresponsável.

Aceitei o conselho e a alcunha de tio. Quem tem um sobrinho casado não pode fugir do título, ainda mais tão próximo de completar 35 anos…

Eu não aguento mais ver a imagem de Claudia sendo arrastada diversas vezes no noticiário.
Os policiais que cometeram a atrocidade serão soltos e todos que nos cercam tem armas. Hoje sou alvo de bandido e de polícia, como se a vida não fosse já complicada o bastante.
Mas ao pensar em Claudia da Silva Ferreira, saindo de casa cedo para comprar o pão, tal como faço no meu bairro, me pergunto.
E agora? Quem vai comprar o pão, se a provedora da família foi alvejada no caminho da padaria?

claudia ferreira da silva

 

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