Capixabismo


chamada

Só agora percebi que já se passaram cinco anos da publicação do meu primeiro livro em prosa, chamado “Enquanto ele estava morto…”.

Nesse livro fininho, eu narro os nove dias em que passei procurando pelo meu irmão, após eu receber um telefonema da minha irmã, com a informação de sua morte num garimpo na Bahia. Paralelo à procura, eu revisito as minhas memórias de uma família desestabilizada: mãe abandonada pelo marido com seis filhos, sendo eu, o mais novo, com seis meses de idade.

O livro foi publicado graças a uma lei de incentivo à cultura de Vila Velha, no Espírito Santo, estado de onde vim, e teve a tiragem de 1.000 exemplares, esgotados há três anos.

Para comemorar os cinco anos de sua publicação, contarei cinco curiosidades sobre o livro.

1 – Estreia como ilustrador autoral

Amante dos quadrinhos como sou, sempre desenhei e trabalhei em jornais fazendo ilustrações editoriais, mas não me sentia seguro o bastante para desenhar minhas próprias histórias, naturalmente mais longas.

O problema é que me faltava referências visuais (fotografias) minhas para que um ilustrador me desenhasse na estevao31minha infância. O que acontecia com freqüência é que me desenhavam gordo e de óculos, características adquiridas e nunca mais abandonadas a partir dos 20 anos.

Como era difícil explicar as características de muitos dos meus parentes e amigos representados no livro, eu resolvi desenhá-lo. Pela primeira vez eu realizei um trabalho onde eu era responsável pelo texto e pela arte. Essa experiência viria se repetir no ano seguinte, com a criação da tirinha Os Passarinhos.

 

2 – O livro foi financiado pela prefeitura de Vila Velha (ES), mas foi finalizado em Niterói (RJ)

Eu havia decidido a me mudar quando recebi o resultado de que o meu trabalho havia sido escolhido. Comecei o processo de diagramação do livro, mas o prazo apertou e eu precisava entregar a casa alugada em Vitória/ES. As ilustrações foram feitas nas primeiras semanas no bairro de Santa Rosa, em Niterói e impresso na Gráfica A1, em Vitória.

 

Noé, meu irmão do meio!

Noé, meu irmão do meio!

3 – Foram apenas oito pessoas no lançamento, mas foi inesquecível

Uma das regras do recebimento do recurso de produção do livro é que o lançamento fosse realizado no município de Vila Velha. Depois de olhar os dias disponíveis da única livraria que eu conhecia no município, fiz o lançamento na tarde de quinta-feira no centro da cidade. A maior parte das pessoas que eu conhecia morava em Vitória ou na Serra, cidades vizinhas, e estavam trabalhando naquele momento.

Em uma hora de lançamento apareceu apenas um vereador, para comprovar que o livro foi lançado – e não comprou um exemplar. Meia hora depois apareceu um amigo e logo foi embora. Quando eu estava recolhendo as coisas para ir embora, apareceu meu irmão e sua família e a minha irmã mais velha, juntamente com meu sobrinho. Essas duas famílias não se viam a quase 20 anos, devido a uma briga.

Graças aquele lançamento, eles se viram e conversaram, deixando para trás uma parte amarga da nossa história.

 

4 – Segundo livro escrito, primeiro livro publicadoestevao10_small

Na minha carreira como quadrinhista até o momento que escrevi “Enquanto…”, eu já tinha escrito roteiros para mais de 500 páginas de quadrinhos, mas nunca havia publicado um livro em prosa. Apesar do livro onde conto as minhas agruras ter sido o primeiro publicado, ele foi o segundo a ser criado, em fevereiro de 2007, e levou um mês para ser escrito.

Porém, o thriller paranormal “A Corrente” começou a ser escrito em março de 2003, terminando um ano depois, sendo assim, meu primeiro trabalho em prosa, lançado apenas em 2009, um ano depois de “Enquanto ele estava morto…”

É verdade que em 2008 eu reescrevi boa parte de “A Corrente”, inclusive mudando o final,mas isso é conversa para outra hora.

 

5 – Le0altoitores ilustres

Quando eu anunciei o livro numa lista de discussão de roteiristas de TV, um senhor me pediu informações de como podia adquirir o livro.

Eu, sem titubear, pedi seu endereço e enviei o livro. Dias depois, ao perguntar se o livro havia chegado, recebi a seguinte mensagem, da qual retiro alguns trechos, editados por causa de spoliers:
“Caro Estevão.

Não só recebi, como li e gostei. Muito legal.

Muito interessante o leitor conhecer a personalidade dele, com seus contrastes à medida que a leitura progride.


Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos quando você prefere caminhar alguns quilômetros, para não pedir dinheiro a ele e ele não deixa que você se vá sem oferecê-lo. Parabéns. Tomara que seu livro tenha bastante sucesso.

 

Abraços

Roberto Farias”
Eu não havia ligado o nome a pessoa, mas Roberto Farias é irmão de Reginaldo Faria e um dos grandes cineastas de nosso país, e entre os filmes que dirigiu, estão alguns da série “Roberto Carlos” (em Ritmo de Aventura, e o Diamante Cor de Rosa, a 300 Quilômetros por Hora), Os Trapalhões e o Auto da Compadecida, Pra Frente Brasil… Foi havia sido uma honra ver alguém tão interessado em dar um retorno sobre a leitura, mas foi o máximo saber que a pessoa em questão tinha feito tanta coisa dentro de uma área que admiro demais.

O outro grande leitor foi uma pessoa que citei no livro. Lázaro Ramos.

Em uma passagem do problema que me meti, devidamente narrado no livro, já estava imaginando que, estevao17daquela experiência traumática, faria um livro, e que esse livro viraria um filme. Enquanto eu andava pelas ruas de Vitória imaginando como eu resolveria a situação, eu imaginava Lázaro Ramos me interpretando, tornando a história um pouco mais leve e, quem sabe, com um final feliz.

Ao deixar o livro em sua produtora, recebi a seguinte declaração via e-mail:

“Estevão,

Foi um prazer ler seu livro e seus quadrinhos.

Ser citado num livro é uma honra que não achei que teria.

Parabéns por sua escrita, sua história e seus desenhos.

 

Muito obrigado e precisando é só chamar.

Lázaro Ramos”

 

Não preciso de mais nada, não é?

 

Depois de cinco anos, cá estou pensando em reapresentar o livro às editoras, uma vez que ele foi impresso com uma distribuição independente.

Vai que alguma editora se interesse, né?

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Sabem aquela expressão “você é de casa?”

Nunca funcionou tão bem quanto agora. Apesar do meu contato com redação de jornal ter começado no Notícia Agora, que pertence à Rede Gazeta de Comunicação, para onde eu produzi 386 páginas de quadrinhos, foi no jornal A Tribuna que eu trabalhei de fato e ativamente com a notícia.

Eu produzia infográficos, dando forma e cor à alta do dólar, queda e aumento de popularidade de políticos, esclarecia para o leitor como ocorreu certo acidente, como funcionaria o trânsito graças àquela festa ou manifestação… Vivia no departamento de arte (Zota e eu), junto com a galera do tratamento de imagem (Sérgio, Luís, Lúcia, Augusto e Renan…), com os armários dos fotógrafos, com o chargista Pater… O ambiente era ótimo, longe das pessoas que escreviam.

recomendaEu tinha uma gana por escrever no jornal, deixar, de vez em quando, de ser um dos “meninos da arte”. Qualquer redação vão chamar a galera da arte assim. Um com 70, outro com 48, outro com 23, mais de duzentos anos somados transformados em garotos.

É ótimo, pensando agora, mas o complexo de vira-lata me fazia pensar que achavam que valíamos menos por desenhar, por tratar fotos, por não seduzir as pessoas pelas palavras. Eu entrei nA Tribuna em novembro de 2003. Mais de dez anos depois, tenho aparecido nesse jornal como um filho orgulhoso que manda uma carta para casa, dizendo que está longe, mas que está tudo bem. Aqui estão duas “cartas para casa”. Vejam aí!

A primeira é uma notinha na coluna “No Tom”, que saiu no dia 06/07, onde recomendo um CD… peculiar. Clique na imagem para ampliar!

Já a segunda é um artigo para o AT2 Livre, dando a minha opinião sobre a missão do autor de histórias em quadrinhos.

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Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Na última sexta (16/05) estive na Feira Capixaba de Literatura, que aconteceu na Praça do Papa, em Vitória/ES,  para debater sobre literatura infantil. Na companhia da professora da UFES Maria José de Paula e com mediação de Paulo Sodré, agreguei ao tema o fato do professor ser um facilitador do acesso das crianças aos livros, por eles conhecerem gêneros literários e assim oferecerem mais opções para as crianças.

Na plateia, integrantes da Academia Espírito Santense de Letras e da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, alunos da rede pública, educadores, alunas da Maria José e uns dois convidados meus.

Claro que intimida estar num lugar com um bocado de gente gabaritada em literatura olhando o que eu tinha para falar, mas também foi gratificante ver que essas mesmas pessoas estavam interessadas em me ouvir, seja como profissional ou sobre meus percalços também.

Numa determinada altura da conversa, o presidente da Academia Espirito Santense de Letras disse que “a melhor coisa que fiz foi sair do Estado”, porque lá não existem formas de se viver como escritor. Apesar de eu ter trocado o Espírito Santo pelo Rio de Janeiro por, entre outros motivos, querer me dedicar à escrita, eu acho a opinião dele é equivocada. Pelo menos, parcialmente.

Antes de mais nada, pela natureza do que faço, – que é escrever, desenhar e roteirizar – prefiro ser chamado de “autor”.

Segundo, não foi a mudança espacial – sair do Espírito Santo e ir morar no Rio de Janeiro – que me fez ter mais oportunidades. A mudança foi uma revolução interna.

Pense assim: Um administrador de empresas no Brasil pega sua graninha e vai para os EUA tentar mudar de vida. Disposto a se manter lá a qualquer custo, pega um trabalho de garçom, vai limpar chão, cuidar de cães, entre outras coisas.

Para economizar, ele deixa de sair, consome o que lhe é mais barato, economiza o máximo… Tudo o que ele poderia ter feito no Brasil.

Na verdade, a mudança espacial é uma forma de tirar a pessoa de seu ambiente confortável, ligar o modo “sobrevivência” e aumentar a aposta. Foi o que fiz ao vir para o Rio. Aumentei a aposta, porque num ambiente cômodo como era, estar perto da família e ter um emprego estável desestimula o desafio. Qualquer desafio.

A realidade é que a vida de um escritor, assim como qualquer pessoa ligada a arte e esportes, é uma loteria. Não dá para imaginar para onde vai levar o fruto de seu trabalho e, na maior parte das vezes, esta sua maior expressão é relegada a segundo plano.

 

Você é jornalista E escritor.

É professor E escritor.

É advogado E escritor.

É auditor fiscal E escritor.

É aposentado-de-alguma-profissão E escritor.

Para o escritor ser “escritor” E alguma coisa – ou seja, sua profissão/vocação/condição vir em primeiro lugar – é preciso uma reunião de tantos elementos que é impossível descrevê-los como uma receita, dar em lista (que será sempre pobre, se pensarmos no número de possibilidades que a vida pode nos proporcionar), ou dar as dicas.

Ainda no tal evento, um colega me apresentou a outro: “Este é o Estevão, ‘cartunista’ (pois é, todos que fazem ilustrações vira cartunista para o pessoal), publica fora do Estado e do país, SÓ NÃO NOS DÁ O CAMINHO DAS PEDRAS…”

Como se eu soubesse… O que faz um indivíduo imaginar que eu sei uma fórmula para fazer qualquer autor ser publicado? Que as experiências que vivi servirão para ele?

Se eu pudesse dar uma dica, seria… não tem macete, povo.

Tudo que você fizer em prol de sua escrita é apenas um aumento de probabilidades, não um acerto em si.

O escritor André Vianco começou sua carreira literária pagando a impressão de seu primeiro livro.

O sucesso de vendas Eduardo Spohr mostrou a força da internet ao ter a tiragem independente de seu livro noticiado num podcast.

Gritar na feira, oferecendo seu livro, funcionou para que a Thalita Rebouças não passasse desapercebida no lançamento de seu primeiro livro numa Bienal.

Comprar bots (programas) para turbinar o número de curtidas da sua página no Facebook serviu para outros.

Ser melhor vendedor do que escritor do próprio trabalho também. Pensando nesta, seria o escritor vendedor E escritor?

Ler dezenas de livros, fazer cursos, ouvir palestras, ir a lançamentos, ter uma boa network, tudo isso pode ser considerado na equação que levará o livro de seu computador para uma editora, tanto quanto a qualidade de seu trabalho.

Sério. Qualidade literária também é um conceito relativo. Quem pode dizer que o texto é bom ou ruim? Um bocado de gente, eu sei! Para isso tempos doutores, linguistas, estudiosos habilitados a dizer que o texto é bem escrito, discorrer sobre a estrutura do texto, mas o que não agrada uns pode realmente ser publicado por outro em favor de muitas questões.

“Seu editor não gosta de mim, mas seu leitor gosta!” pode ser também um ponto a ser considerado para ser publicado, por que não? Ou você acha que editor também não é funcionário?

Talvez ele seja editor E escritor.

Venho falar de um argumento recorrente sobre os negros e uso um caso conhecido de todos para ilustrar.

Dia 30 de novembro de 2013 ocorreu um evento com carros de som no píer na Praia do Suá, atrás do Shopping Vitória. Segundo meu irmão, que é policial militar, a central recebeu orientações para reforçar a segurança em torno. Houve também uma denúncia de tiro no local, causando uma comoção geral e fuga para o Shopping Vitória.

Uns dizem que foi tiro, outros dizem que eram pessoas fugindo da polícia por causa de drogas. Não importa o motivo, e sim o que ocorreu depois: um grupo entrou para o shopping para fugir/se abrigar/ e causou pânico geral.

As informações desencontradas vão que os “vândalos” ao entrarem derrubaram lixeiras a cenas do filme Carandiru, mas vou me ater a um ponto de vista, de um amigo meu que trabalha na segurança do Shopping.

“Éramos poucos e eu estava lá fora. Assim que a galera entrou, fomos abaixando as portas e afastando o pessoal que queria entrar a base de cassetete e taser (arma de choque). Dei chute em muita gente.”

Quando argumentei com ele sobre o tratamento, que se houve racismo, ele, pardo como eu, falou:

“O problema do negro é que ele sempre se diminui. Diz que tudo acontece com ele por causa da sua cor. Ele mesmo é seu próprio problema, não tem ambição. O negro é mais racista do que o branco.”

Não é a primeira vez que ouço essas palavras, com algumas modificações. “Os negros são mais racistas”, “negro não corre atrás”, “negro se autodeprecia” e “negro não tem ambição”.

Tem razão. Negro não tem ambição. Geralmente, eles se contentam em poder pagar a sua televisão de 40 polegadas em dezenas de prestações, desesperado em perder seu crédito no caso de atraso.

Eles se contentam em pegar o ônibus lotado e às vezes riem de alguma dondoca indignada que precisou entrar no ônibus.

Eles constroem suas próprias casas, fazem um puxadinho para os filhos, e a primeira coisa que pensam quando estão trabalhando é “conseguir comprar uma casa para a sua mãe”.

Alguns deles se metem com o tráfico, porque é muito triste ver o tênis que ele gostaria de ter custar tanto que a parcela de sua TV.

Muitos deles gostam do funk porque fala de sua realidade. “Ele quer ser feliz andando tranquilamente na favela onde ele nasceu.”

Outros gostam do samba porque também fala de sua realidade. “Batucada boa, cerveja gelada, e mulher bonita, quem é que não gosta?”

Sua ambição é ter uma moto. Ter um carro. Um som potente para o seu carro. Uma garota. Dinheiro bastante para fazer um churrasco final de semana. Quer pedir pizza. Quer McDonalds.

Ele quer ensino pro moleque dele não passar pelos perrengues que ele passou. Não tem escola pública? Ele quer por o menino numa escola com um precinho acessível.

Quer o menino com roupa legal para os amiguinhos não os tratarem mal.

Outros querem a faculdade. Acham que assim vão conseguir melhorar de vida. Muitos entram por cota. Muitos conciliam trabalho e estudos. Poucos se formam.

E a negra? Puxa, ela quer seu celular com internet. Ela quer ter roupa legal, para tirar foto, compartilhar e arrasar.

Ela quer o dela. Quer trabalhar, quem sabe ter o seu próprio negócio? Ela quer namorar, quer um cara que faria tudo para ela. Quer vida de princesa. Vida de princesa é ter sua TV, não faltar os móveis, não faltar nada na geladeira. Uma piscina de fibra de vidro no quintal.

Ela quer sair, quer curtir, quer viver. Quer postar seus vídeos dançando na internet. Quer milhões de acessos. Sem fazer mal a ninguém, quer ser conhecida. Ela quer mandar um alô para as recalcadas.

Algumas são recalcadas. Querem se dar bem, querem marido, querem quem banque. Elas não estão erradas, quem quer, corre atrás.

Ela quer estudar. Quer faculdade, curso técnico, quer ser doutora, quer fazer serviço social, quer voltar à favela, quer montar uma ONG, quer dar uma vida diferente da sua para a criançada.

Seria uma injustiça dizer que é “só isso” que querem os negros e as negras deste país. Eles mais.

Não posso dizer também que é um mundo de bem intencionados. Os chefes de tráficos nos morros, em sua grande parte, são negros ou mestiços.

Uma vez o Júnior, da dupla Sandy & Júnior, disse uma frase no Programa Livre (ou no Altas Horas), em que afirmava que os traficantes têm uma inteligência acima da média (eles são geniais, nas palavras dele), por pensarem ações, em formas de se comunicar com as pessoas, e que essa inteligência deveria estar sendo usada em favor da comunidade.

Mas pensamos: como um negro pode ajudar a sociedade, se ela está organizada para que os negros não cheguem a postos em que fazem realmente diferença na vida da população?

Quantas empresas temos gerenciadas por negros?

Quantas cidades temos cujo o prefeito é negro ou pardo?

Quantos vereadores negros temos? E quantos desses vereadores poderão chegar a serem deputados? Senadores?

O quanto um negro precisa ser corrompido para chegar ao poder?

Quantos secretários municipais, estaduais, quantos ministros negros temos?

Onde você consegue achar negros? Professores de escolas e diretores (conheci um!), cargos de baixa patente da Polícia Militar, garis… Quando algum médico negro aparece, como os cubanos, são “acusados” de terem caras de empregadas.

Aí, eu te pergunto: Quem decide o preço da passagem? Quem comanda o BNDES? Quem causa rombo nos cofres públicos? Quantos nomes existem no mensalão? Quantas empresas são pegas com gatos de energia, quantos restaurantes chiques têm comida com prazo de validade vencida em seus congeladores, quantas empreiteiras usam material de segunda em suas construções, quantas empresas fraudam licitações, quantas empresas entregam remédios estragados para a população carente?

E quantas delas são de um proprietário negro?

Então, pense um pouco: o que você chama de ambição? Querer mais do que é necessário? Porque o os valores que vemos serem desviados seria o bastante para uma família viver bem por gerações. E mesmo assim eles não param.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

Neguim acha que a vida é braba. Tem neguim que vê injustiça em todo o canto. E não é que neguim ta certo? Mas tem neguim pensando errado também.

Mas tem neguim que acha normal usar a palavra “neguim”, para designar um sujeito desinformado, malandro, o bobo, o cara que fatalmente vai se ferrar.

“Neguim” geralmente vem seguido das palavras “faz” e “merda”.

– O Brasil devia estar melhor, mas “neguim faz merda”…

– Neguim e branquim, respondo.

– Ah, cara! É modo de dizer, né?

O pior que não é modo de dizer. É modo de pensar.

Durante o polêmico e controverso protesto de Paulo Coelho, que diz ter se recusado a ir à feira internacional do livro em Frankfurt em solidariedade aos seus colegas autores mais vendidos no Brasil, reparei a falta de negros na lista de 70 nomes. Aliás, apenas um, Paulo Lins, autor de Cidade de Deus e um índio, Daniel Munduruku.

Mas os critérios utilizados para escolhas dos autores foram a relevância de suas obras.

Minha insatisfação é injustificada, porque eu não tenho sequer 10 nomes de autores negros e índios para sugerir para a lista, fechada desde março deste ano. Isso é reflexo da minha educação? Desinformação, talvez? Discordo!

Se me pedirem 20 nomes de jogadores de futebol negros eu te diria, mesmo não gostando de futebol (tá certo que eu iria demorar, mas consigo).

Eu usei Frankfurt nesta conversa apenas para pontuar a minha situação. No mesmo dia em que meus colegas escritores estavam em Frankfurt e outros colegas não estavam, eu estava na Bienal Capixaba do Livro, em Vitória, Espírito Santo, minha terra natal.

Eu não sei como dizer o quanto estou decepcionado com o que vi. Vitória, um lugar paradisíaco, já foi considerado o 3º lugar em qualidade de vida, tinha como “feira do livro” uma área coberta com toldo, que cobria parte do estacionamento do Shopping Vitória.

Havia apenas uma ou duas editoras por lá, o resto eram distribuidoras e livrarias.

O espaço, na maior parte do tempo vazio, chega a ser assustador. Eu sei que esses tipos de comentários sobre a terra natal parecem “ingratos”, mas o espaço da Bienal Capixaba é, proporcionalmente, do tamanho da área de alimentação da Bienal do Rio.

Um espaço que para mim funcionou foi o Espaço do Escritor Capixaba. Vendas a dinheiro apenas, mas quem quisesse expor seus materiais ali era apenas chegar, deixar seus livros, o preço e pronto. O espaço ficava com 10% do valor, a título de administração. Lindo.

Apesar do tamanho e da falta de pessoas, a sexta edição da Bienal Capixaba do Livro seria uma boa experiência, até o momento em que eu devia assinar meus livros “A Corrente”, “Hector & Afonso – Os Passarinhos” e “Os Passarinhos e Outros Bichos”.

Numa mesa dentro do estande da livraria Logos, lá estava eu: um negro sentado à mesa com livros expostos com o seu nome, blusa preta e uma gravata verde (sim, usei).

Apesar de todos os funcionários da Logos (a maioria negros) estarem devidamente identificados por uma camisa branca com a logo da livraria e credencial, recebi minha “primeira” visita:

– Posso sentar aqui? – Uma senhora chegou, conversando com uma pessoa.

– Hã… – antes mesmo que eu pudesse responder, ela sentou-se à cadeira ao lado, escreveu um telefone para uma amiga atrás de um cartão, apoiada à mesa com meus livros.

– Não vou demorar nada.

– Tá, é que eu estou assinando meus livros.

– Ah, está? Eu sou escritora também!

Até aquele momento me pareceu que apenas escritores estavam na Bienal. Isso justifica as 45 cabeças andando dentro daquele toldo.

Ela me falou do trabalho que desenvolvia e deu o golpe:

– Que tal eu assinar seu livro e você assinar o meu?

Eu não lembro o que falei, mas acredito que tenha sido um não, porque ela pediu apenas para tirar uma foto comigo.

– Nós, autores, precisamos nos ajudar, né? – E foi embora.

Minutos depois:

– Você trabalha aqui? – Uma mulher com um livro na mão.

– Na verdade, não sou funcionário da loja… Mas estou trabalhando. Estou autografando meus livros.

– Então, você não pode me ajudar… – A mulher me deu as costas e seguiu à vida.

Aí chegou uma galera do blog Social Zero, que acompanha meu trabalho, e comprou uns livros, fez festa, tiraram fotos. Uma galera na batalha, como todo mundo que faz cultura, mas sem perder o sorriso.

Outras duas pessoas também me pediram informação sobre livros expostos em todas as prateleiras, além de um garoto que queria que eu soubesse onde estava o livro Diário de um banana. – O do filme, disse ele.

A conclusão louca que eu tiro disso é que as pessoas não estão reparando, não associam mais as informações, elas apenas fazem uma análise superficial do que parece ser.

Três funcionários negros trabalhando na loja, mais um sentado na frente de livros? Claro que é funcionário!

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Aliás, não há nada de mal em ser funcionário, assim como não há nada de mal uma médica cubana ter “cara de doméstica”, como uma jornalista colocou no twitter.

Nós, autores de começo de carreira, somos vendedores também. Thalita Rebouças foi uma vendedora incansável dos seus livros no começo de carreira. Hoje apenas o seu nome é o bastante para encher lugares.

Mas o preconceito em ver ali um autor como um funcionário baseado em sua aparência é triste e reflexo de uma educação precária e perpetuação de um modelo de sociedade em que quer os negros em atividades que eles consideram “adequadas” à cor.

Ah, as vendas foram boas, viu? Tem neguim que sabe vender seu trabalho.

Eu preciso reconhecer que eu me saboto o quanto puder.

Apesar da plena confiança de que eu vou vencer na vida, alguma coisa me diz que não mereço.

Sou meu melhor incentivador, mas também sou meu maior inimigo. É que eu já ouvi tanta coisa, vi tanta coisa, vivi tanta coisa…

Desde pequeno, ouço coisas como “Ela é bonita demais para você”, “Você é um moreno bonito”, “Não é o que estamos procurando”, “Sua hora vai chegar”, “Só podia ser preto…”

A diferença grande em todas as fases da minha vida me mostravam o quanto a cor da pele pesa. Quando criança, estudando em escolas públicas, meus amigos brancos moravam na baixada e eu, na ladeira. O mais pobre branco que eu conhecia tinha uma casa de alvenaria, enquanto eu morava numa casa de madeira.

Os grupos musicais não tinham negros. Em compensação, eram maioria nos grupos de samba. Mesmo nas brincadeiras com os amigos, eu não estava numa banda porque Polegar, Dominó e Paquitos não tinham negros.

Jairzinho foi o grande representante negro, afinal, era um “moreninho bonitinho”.

Minha mãe, tentava diminuir a cobrança de ser negro em um bairro de Vitória com ladeiras e ruas, dizia que eu não era preto. Era moreninho. Logo depois dizia que precisava tomar um banho porque estava “cheirando a nêgo”.

Nós perpetuávamos o racismo. Como evangélicos, ligávamos os negros às religiões afros. Não nos misturávamos, não celebrávamos Cosme e Damião, não íamos ver o Ano Novo na praia para não encontrarmos os seguidores de Iemanjá.

Quando me apaixonei por uma garota branca, a família me achou metido, até disse que ela era bonita demais para mim.

Mas esqueceram (ou não sabiam) que as primeiras paixões da minha vida, com 9, 13 anos, eram lindas negras de sorrisos grandes e gengivas escuras.

E lembro do preconceito que era visitar uma delas, coisa que fiz por toda a minha infância, o olhar reprovador do pai dela. Por me sentir quem eu era, um negro pobre sem pai, achava que o problema era a minha cor, não o fato de eu ser um menino despertando para a adolescência e que pai nenhum gostaria perto da filha. Não era nada pessoal, mas eu me sabotei.

Quando eu ia ver filmes na casa de um amigo meu, as irmãs dele tinham nojo de mim por eu por a mão na bacia de pipoca e, ao comê-la, meus dedos encostavam na boca. Diziam que eu babava a pipoca, como todos eles faziam. Mas eles eram uma família de brancos, né?

Me sabotei no Centro de Artes da escola FAFI. Queria ser ator, mas com a minha cor só via escravos sofridos em remakes de novela. Vi um negro comendo terra, querendo voltar para a África. Vi gente falando errado. Vi uma negra num sítio, vi negros transando com Lucélia Santos num ferro velho.

Quis cantar, e vi Emílio Santiago, Gilberto Gil, Jair Rodrigues, Aguinaldo Timóteo, todos velhos até mesmo para aquela época. E quantos negros surgiram? No pagode, dezenas, décadas depois esquecidos. Mas em bandas de rock? Se não são apenas os músicos de apoio, como o pianista do Paralamas, ou o baixista da Legião Urbana, hoje um mendigo nas ruas do rio. Sobra-me o Funk, que só fez sucesso porque tinha um branco na capa do disco.

Nunca me achei bonito. “Sou ruim, e o cabelo ajuda”, eu dizia. Nunca fui opção de namoro. Sempre fui o conselheiro, sempre me expus demais. Sempre me sabotando.

Queria ser um artista, silencioso. Minha arte falaria por mim. Meus desenhos, quem sabe? Nunca os achei bons o bastante. Talvez escrever? Quantos negros escrevem? Bem, teve o Machado de Assis, e… Bem… com certeza existem outros escritores negros por aí, mas quantos desses conquistam espaço no mercado?

Fui carregador de refrigerantes para ganhar 40 reais por dia. Se eu ficasse sem comer, conseguiria economizar o tíquete de 5 reais e assim, “engordar” minha receita. Todos negros, com engradados de cerveja cruzando a tarde, parando em bares, esfolando os ombros.

O preconceito é tão forte que, quando me apaixonei por uma garota da igreja onde eu reunia, um outro amigo meu, também negro, não achava que a menina devia se relacionar comigo. Nós morávamos no mesmo beco, ele conhecia a minha família, meus hábitos. Não havia objeção alguma “senão” a minha cor.

Quando trabalhei para a Escelsa, companhia elétrica do estado do Espírito Santo, fui acusado de roubar um cartela de tíquetes de um garoto que havia chegado de férias, apenas por estar na sala sozinho, aguardando a hora de ir embora. Nós ganhávamos meio salário mínimo (36 URVs na época), e nada menos que 200 URVs de tíquetes, que eu usava para as compras de casa, enquanto a minha mãe usava o pagamento dela para construir a casa (que o ano passado foi abandonada em péssimas condições, tomada por usuários de crack e vendida por uma ninharia).

Ninguém considerou que eu poderia ser inocente. Apenas me mandaram eu devolver os tíquetes roubados. Me mandaram cumprir um dia de serviço e depois, sair do emprego. Então descobriram que o tíquete não veio porque o cara estava de férias. Me pediram desculpas e eu, ingênuo (15 anos na época), fiquei feliz por não ter perdido o emprego, coisa que aconteceu meses depois. Era um perigo um injustiçado ficar ali na empresa, sendo influenciado pelos outros a processar uma das maiores empresas do estado.

Quando passei no curso de Artes Visuais da UFES, na minha turma tinha 3 negros entre 25 alunos.

O outro aluno que conheci era do outro curso, de Artes Plásticas. Poucos negros na área de artes, e não era difícil de entender porque. Materiais caros, aulas que de manhã e de tarde, difícil trabalhar em tempo integral e estudar. Eu mesmo pulei fora por causa disso.

Por muito tempo vi negros empilhando caixas no supermercado, sonhando em ser ensacoladores. Quem sabe um dia ser caixa. Já vi gente sonhando em ser açougueiro, ganhava-se muito sendo um.

Quando decidi que queria escrever para viver, fui para gráficas, onde a coisa sempre era assim: Os vendedores, brancos. Os designers, brancos. Recepção? Brancas. Impressores, caras rústicos, broncos, mas que mexiam em máquinas de mais de meio milhão de reais eram… brancos. Serviços gerais, empacotadores, carregadores? Negros.

Onde eu chegava, era uma exceção. Na redação do jornal A Tribuna tínhamos sim alguns negros, peças importantes de lá, mas de novidade? Motoristas. Escrevendo, pondo as suas opiniões no jornal? Tínhamos 2 em uma redação com 40 pessoas. Eu mesmo era infografista e o outro negro ficava no tratamento de imagens.

A maioria esmagadora de negros ficavam no fim da fila, dobrando e encadernando os jornais, na madrugada, pondo em kombis para distribuição.

Na festa dos jornalistas, uma sala imensa onde poucos sorrisos negros brilhavam. Exceção reconhecível.

Na seleção para a oficina de roteiros da Globo, brancos, brancos e mais brancos. O cara mais negro que existia lá era eu, e em seguida André Vianco, que precisava ficar um pouco mais no sol para ser reconhecido de fato como moreno, entre 53 candidatos.

No Programa Globosat de Desenvolvimento de Roteiristas, eram 5 negros (3 homens e 2 mulheres) em um auditório com 250 roteiristas.

Este é o país em que eu fui criado e vivo. Eu trabalho na manutenção do meu sonho diariamente, mas cada dia mais eu vejo que tem gente contra, e não é contra mim, é contra todo um grupo.

Pessoas que deveriam ser cultas, pessoas presumidamente com conhecimento. Estudantes de Direito, de Medicina, pensadores, escritores… Dizem que nordestinos não prestam, xingam médicos cubanos de escravos, MEU DEUS ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO!

Eu tenho a impressão de que MERECI passar por tudo que passei só por ser NEGRO. Que não mereço me destacar, que não tenho direito de querer uma vida melhor, que devo morrer sem atendimento médico, que não posso ter acesso a educação de qualidade, que devo “voltar para a África”.

EU NUNCA ESTIVE NA ÁFRICA!

Eu não sei, eu não quero fazer parte deste país, eu não quero ser atendido por um médico rancoroso, que recebeu um carro do seu pai por passar na faculdade pública, que ROUBOU a vaga de alguém sem condições de fazer um cursinho. Eu não quero a minha vida nas mãos de pessoas que querem mais é que seus colegas estrangeiros cometam erros, que matem cidadãos. E A DROGA DO JURAMENTO QUE FIZERAM AO SE FORMAR?

{Atualização}

No vídeo acima, a médica loira, (pelo sotaque, nordestina), chama o funcionário negro de “cachorro” e “morto de fome”.  Eu não achei o vídeo de uma matéria feita depois, mas o funcionário chegou a alegar que ela disse que, se um dia dependesse dela para alguma emergência, ele morreria.

 

{Fim da atualização}

Eu estou doente, enjoado, indignado, eu estou podre. Eu morro por dentro cada vez que vejo uma figura de branco desejando a morte do povo em nome do dinheiro.

Sei que o Governo está pisando no calo de todos agora, mas vocês já lucraram muito, deram as cartas por muito tempo. Como é estar do outro lado agora?

Xenófobos, racistas… Eu tenho vergonha de morar no mesmo país que vocês.

medicos

(Foto: Divulgação – Jarbas Oliveira/Folhapress)

Começou assim, de forma simples:

– Farei uma torta capixaba para a sexta-feira santa!

A minha esposa olhou com naturalidade. Carioca da gema, eu em solo carioca…

– A mamãe sempre faz bacalhau com batatas.

– Ela pode até fazer, mas eu quero fazer uma torta capixaba também, ué!

– Tudo bem, só não coloca o tal de coentro! Vocês, capixabas, têm mania de colocar coentro em tudo!

– Tá. Mas vai ter que aceitar o sururu (mexilhão)!

– Então tem que ir no Mercado de Peixe. Não dá para confiar em mexilhão da rua.

– Ok.

Esperei ela e minha sogra no mercado. Chegamos lá e cometi o erro de principiante. Comprei o sururu e o camarão na primeira barraca. O que vi depois foi uma diferença de preços tremenda, nada que ferisse tanto o bolso, mas o orgulho, ah! O orgulho. Este sim estava ferido.

– Tem caranguejo desfiado – perguntei.

– Não, só siri.

O lance é que a torta capixaba, leva uma pá de coisas:

  • Cebola, alho, azeite doce, azeitona, limão, coentro, cebolinha verde, tomate a gosto;
  • ½kg de palmito natural previamente cozido;
  • 200gr de siri desfiado e cozido;
  • 200gr de caranguejo desfiado e cozido;
  • 200gr de camarão cozido;
  • 200gr de ostra cozida;
  • 200gr de sururu cozido;
  • 200gr de badejo desfiado e cozido;
  • 500gr de bacalhau desfiado e cozido.

– Eu acho ostra nojenta – disse a Ana.

– Então não vai entrar nem o coentro, nem a ostra, mas também não entra a azeitona…

– O quê?

– Isso mesmo! E nem o caranguejo, porque nessa #$%¨&* de lugar não tem!

– Duplica a quantidade de siri – minha sogra agindo.

– Ok… e a ostra?

– Podemos colocar lula – a Ana agindo em causa própria.

– Tá. Compremos o que der e vamos ver no que dá.

Saímos do mercado com duas sacolas grandes de frutos do mar. Tentamos pegar um táxi em vão e esperamos cerca de meia hora no Sol com os peixes. Não fui a pessoa mais amada do ônibus. Nem em casa, porque no dia seguinte a geladeira ficou fedida.

– E vamos para a cozinha!

Descascamos camarão, cozinhamos todos os frutos do mar, cortamos, desfiamos os peixes, bati seis ovos com claras em neve que deu a liga dos frutos do mar e a espuma característica da torta.

– E está pronto!

tortacapixaba

Olhem aí o resultado! Como também não pude usar cebola, a decoração ficou por conta do ovo cozido…

A família portuguesa, com certeza, olhou para o prato na panela de barro. Meus concunhados não comeram. Um porque é alérgico a camarão e o outro é cozinheiro… Minha cunhada apreciou meu esforço e, mesmo odiando camarão, pegou um pouquinho.

Miguel, meu enteado, fez a parte dele: comeu, elogiou, mas não quis mais um pedaço…

Meu sogro gostou. Minha esposa adorou. Minha sogra gostou.

Deu certo, né? Se bem que…

Meu sogro achou que fiz muita torta. Ora, era para uma família de dez e apenas quatro e meio comeram…

– Mas gostou mesmo? – perguntei a Sogra.

– Gostei. Acho que tinha muita coisa.

– Ah, bom… E você, Ana?

– Eu gostei, mas faltou algo… talvez coentro.

– COENTRO?

– É.

– Tá, vou confessar que a azeitona poderia ter feito a diferença…

– É verdade – disseram quase em coro.

– Acho que devemos fazer essa moqueca de novo, só que com menos coisa – minha sogra incentiva.

– É! Muito palmito e bacalhau – disse Ana.

– Palmito não, batatas! – estala os dedos a minha sogra.

– Bacalhau com batatas? – disse eu, ofendido.

– É, mas na panela da barro – disse ela, respeitosamente.

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