Ontem, dia 20 de novembro, foi o dia da Consciência Negra.

Sendo eu mais ou menos negro – não insisto no fato de ser negro, pois as pessoas dizem que a minha cor não é tão escura assim – eu digo o que tenho de consciência. Ou melhor: estou ciente.

Eu estou ciente que não posso ser sócio da cerveja Brahma, a não ser que eu seja um jogador de futebol aposentado.

Eu também estou ciente de que não existe um creme dental para mim e que raramente algum negro se interessará em ser dentista, ou em mostrar seus dentes num comercial.

Mas também estou ciente de que, se eu não usar um creme dental, perco meus dentes. Aí poderei usar dentadura. E poderei limpá-la? Claro que não…

Mas para quê se preocupar com um sorriso, se eu estou ciente que a pele negra não necessita de produtos, e nem se encaixa na “real beleza”?

E é até reconfortante estar ciente de que as negras não precisam se preocupar com “queda de cabelos”…

E que elas também não precisam se preocupar com o escurecimento das axilas…

Me reconforta saber que elas não consomem esmaltes…

E que os negros não consomem carne (não a Friboi)…

Eu também estou ciente de que negros não compram carros.

E que personagens de contos de fadas, chineses, patos, mágicos, coelhos, alemães, zumbis (brancos, claro) sim, mas negros, não… (e nem japoneses).

A lista é grande do que não faço, ou do que supostamente não deveria fazer, porque não sou considerado quando criam alguns tipos de produto. Claro que muitos dos comerciais veiculados no Brasil são americanos (como se lá não existissem negros), mas quem define o que mostrar na TV brasileira não leva em consideração que este país é construído sob as carcaças de negros que mantiveram e mantém a máquina funcionando desde o descobrimento.

Não existe racismo no Brasil. Ele não existe porque não é considerado crime ou insulto o que é feito a uma pessoa de cor. Quando não se enxerga a ofensa, se desconhece o motivo de pedir desculpas.

Eu tenho ciência de que este país majoritariamente negro sofre sem direito de dizer que sofre pela sua cor, e isso pode ser provado em qualquer área de comentários de qualquer artigo que fale sobre o Dia da Consciência negra. Bem, o dia se foi e voltaremos a nossa programação. E rodem os comerciais.

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