tio

Imagino você, que entrou neste blog para rir um pouquinho, queira rir. Mas se olhar os posts anteriores, vão pensar que este pos té mais um daqueles deprês de aniversário… Bem, este post tem um pouco de tudo. Espero que aproveite.

Amanhã, dia 2 de abril, é o meu aniversário. Este post foi escrito no dia primeiro de abril, sob tiros nervosos do morro, que se encontra à direita do meu escritório, uma quadra acima da minha casa. É bom citar isso porque estou nervoso, nunca ouvi tantos tiros. Porém, vamos tentar contar a história.

Tem mais de 3 semanas que eu tenho feito caminhadas regulares, quatro dias por semana, com alguns exercícios que não me deixem morto o bastante para desistir. Morto. Péssima escolha de palavras quando se ouve tiros…

O mal de um cara que quer mandar embora de seu corpo 10, 20, 40 quilos adquiridos ao longo dos anos é pensar num resultado a curto prazo. Queimamos etapas, distendemos músculos, reclamamos do tempo e perdemos o ânimo. Aí, volta a promessa que, em alguma segunda-feira, vamos recomeçar.

Ontem foi a minha quarta segunda-feira seguida. Encaixo a minha caminhada entre as aulas de inglês e a natação do meu enteado, que acontecem de segunda a quinta, próximo ao Horto do Fonseca, num horário sem os atletas de plantão nem passeios de cães. Às vezes encontro um ou outro rosto conhecido, e ali andamos sem julgamento. Somos alguns corpos envergonhados e desengonçados correndo atrás do prejuízo no meio da tarde.

Mas tem uma coisa que, vez ou outra, atrapalha a paz: adolescentes. Seus hormônios em ebulição fazem do Horto um lugar para fugir das aulas e namorar. E desfilar nossos corpos em frente tanta juventude tem um preço. Risos contidos, olhos raivosos por testemunharmos às investidas ousadas dos garotos. O som do celular, geralmente um pancadão, com letras ditando e ensinando o traçado, mostram um pouquinho do que eles querem. O que elas também querem. E por ali eu passo, imaginando que, naquela idade, os foras que levei foi por professar amor, meu fascínio. Naquela idade eu não me achava digno de usar as melhores palavras para descrever o que meus hormônios queriam de fato, hoje dito escancarado, ensinado.

“Eu nasci no tempo errado”, vivia dizendo para mim mesmo. Mas o tempo que eu queria ter nascido eu também não me encaixaria.   Se sou um cidadão perdido no tempo, e cada via mais perdido em meus sonhos, decidi que nada me impediria de seguir meus planos. Quando um grupo de adolescentes utilizavam as estruturas de exercício de banco, resolvi iniciar uma conversa.

– Mocinha, com licença, posso me esticar aqui? A garota saiu das barras usadas para alongamento. Minha bermuda, gasta, tinha um buraco nos fundos. Os garotos estavam sentados na frente do aparelho.

– Olha, agora vocês vão ver algo não muito agradável. Estiquei a perna, mostrando os fundilhos furado. Claro que não se via nada, era um buraco na perna.

– AHHHH!!! – Os olhos dos moleques queimaram.

– Isso não doi? – Perguntou a garota, A menina me viu eu esticar a perna.

– Dói pacas, falei para a garota, para delírio geral. Eles continuaram conversando, me vendo fazer flexões. Não no chão, porque ainda estou pesado demais para apertar tanto o ritmo. Queimar etapas, lembra? Fiz 10 flexões numa barra a 30 metros do chão. Depois fiz mais 10. Depois mais 10. Mais 10. E mais. E mais…

– Ô tio, descansa uns 30 segundos. O senhor não tá descansando nem cinco, vai cansar e não adianta nada para os músculos.   Aí, meu mundo deu uma caída. Quando um rapazinho na rua te pede dinheiro te chamando de tio, é uma ofensa. O rapaz mostrou preocupação, quase num tom corretivo, como faço com a minha mãe, quando ela banca a experiente irresponsável.

Aceitei o conselho e a alcunha de tio. Quem tem um sobrinho casado não pode fugir do título, ainda mais tão próximo de completar 35 anos…

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