Trabalhos


chamada

Só agora percebi que já se passaram cinco anos da publicação do meu primeiro livro em prosa, chamado “Enquanto ele estava morto…”.

Nesse livro fininho, eu narro os nove dias em que passei procurando pelo meu irmão, após eu receber um telefonema da minha irmã, com a informação de sua morte num garimpo na Bahia. Paralelo à procura, eu revisito as minhas memórias de uma família desestabilizada: mãe abandonada pelo marido com seis filhos, sendo eu, o mais novo, com seis meses de idade.

O livro foi publicado graças a uma lei de incentivo à cultura de Vila Velha, no Espírito Santo, estado de onde vim, e teve a tiragem de 1.000 exemplares, esgotados há três anos.

Para comemorar os cinco anos de sua publicação, contarei cinco curiosidades sobre o livro.

1 – Estreia como ilustrador autoral

Amante dos quadrinhos como sou, sempre desenhei e trabalhei em jornais fazendo ilustrações editoriais, mas não me sentia seguro o bastante para desenhar minhas próprias histórias, naturalmente mais longas.

O problema é que me faltava referências visuais (fotografias) minhas para que um ilustrador me desenhasse na estevao31minha infância. O que acontecia com freqüência é que me desenhavam gordo e de óculos, características adquiridas e nunca mais abandonadas a partir dos 20 anos.

Como era difícil explicar as características de muitos dos meus parentes e amigos representados no livro, eu resolvi desenhá-lo. Pela primeira vez eu realizei um trabalho onde eu era responsável pelo texto e pela arte. Essa experiência viria se repetir no ano seguinte, com a criação da tirinha Os Passarinhos.

 

2 – O livro foi financiado pela prefeitura de Vila Velha (ES), mas foi finalizado em Niterói (RJ)

Eu havia decidido a me mudar quando recebi o resultado de que o meu trabalho havia sido escolhido. Comecei o processo de diagramação do livro, mas o prazo apertou e eu precisava entregar a casa alugada em Vitória/ES. As ilustrações foram feitas nas primeiras semanas no bairro de Santa Rosa, em Niterói e impresso na Gráfica A1, em Vitória.

 

Noé, meu irmão do meio!

Noé, meu irmão do meio!

3 – Foram apenas oito pessoas no lançamento, mas foi inesquecível

Uma das regras do recebimento do recurso de produção do livro é que o lançamento fosse realizado no município de Vila Velha. Depois de olhar os dias disponíveis da única livraria que eu conhecia no município, fiz o lançamento na tarde de quinta-feira no centro da cidade. A maior parte das pessoas que eu conhecia morava em Vitória ou na Serra, cidades vizinhas, e estavam trabalhando naquele momento.

Em uma hora de lançamento apareceu apenas um vereador, para comprovar que o livro foi lançado – e não comprou um exemplar. Meia hora depois apareceu um amigo e logo foi embora. Quando eu estava recolhendo as coisas para ir embora, apareceu meu irmão e sua família e a minha irmã mais velha, juntamente com meu sobrinho. Essas duas famílias não se viam a quase 20 anos, devido a uma briga.

Graças aquele lançamento, eles se viram e conversaram, deixando para trás uma parte amarga da nossa história.

 

4 – Segundo livro escrito, primeiro livro publicadoestevao10_small

Na minha carreira como quadrinhista até o momento que escrevi “Enquanto…”, eu já tinha escrito roteiros para mais de 500 páginas de quadrinhos, mas nunca havia publicado um livro em prosa. Apesar do livro onde conto as minhas agruras ter sido o primeiro publicado, ele foi o segundo a ser criado, em fevereiro de 2007, e levou um mês para ser escrito.

Porém, o thriller paranormal “A Corrente” começou a ser escrito em março de 2003, terminando um ano depois, sendo assim, meu primeiro trabalho em prosa, lançado apenas em 2009, um ano depois de “Enquanto ele estava morto…”

É verdade que em 2008 eu reescrevi boa parte de “A Corrente”, inclusive mudando o final,mas isso é conversa para outra hora.

 

5 – Le0altoitores ilustres

Quando eu anunciei o livro numa lista de discussão de roteiristas de TV, um senhor me pediu informações de como podia adquirir o livro.

Eu, sem titubear, pedi seu endereço e enviei o livro. Dias depois, ao perguntar se o livro havia chegado, recebi a seguinte mensagem, da qual retiro alguns trechos, editados por causa de spoliers:
“Caro Estevão.

Não só recebi, como li e gostei. Muito legal.

Muito interessante o leitor conhecer a personalidade dele, com seus contrastes à medida que a leitura progride.


Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos quando você prefere caminhar alguns quilômetros, para não pedir dinheiro a ele e ele não deixa que você se vá sem oferecê-lo. Parabéns. Tomara que seu livro tenha bastante sucesso.

 

Abraços

Roberto Farias”
Eu não havia ligado o nome a pessoa, mas Roberto Farias é irmão de Reginaldo Faria e um dos grandes cineastas de nosso país, e entre os filmes que dirigiu, estão alguns da série “Roberto Carlos” (em Ritmo de Aventura, e o Diamante Cor de Rosa, a 300 Quilômetros por Hora), Os Trapalhões e o Auto da Compadecida, Pra Frente Brasil… Foi havia sido uma honra ver alguém tão interessado em dar um retorno sobre a leitura, mas foi o máximo saber que a pessoa em questão tinha feito tanta coisa dentro de uma área que admiro demais.

O outro grande leitor foi uma pessoa que citei no livro. Lázaro Ramos.

Em uma passagem do problema que me meti, devidamente narrado no livro, já estava imaginando que, estevao17daquela experiência traumática, faria um livro, e que esse livro viraria um filme. Enquanto eu andava pelas ruas de Vitória imaginando como eu resolveria a situação, eu imaginava Lázaro Ramos me interpretando, tornando a história um pouco mais leve e, quem sabe, com um final feliz.

Ao deixar o livro em sua produtora, recebi a seguinte declaração via e-mail:

“Estevão,

Foi um prazer ler seu livro e seus quadrinhos.

Ser citado num livro é uma honra que não achei que teria.

Parabéns por sua escrita, sua história e seus desenhos.

 

Muito obrigado e precisando é só chamar.

Lázaro Ramos”

 

Não preciso de mais nada, não é?

 

Depois de cinco anos, cá estou pensando em reapresentar o livro às editoras, uma vez que ele foi impresso com uma distribuição independente.

Vai que alguma editora se interesse, né?

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atribuna

Sabem aquela expressão “você é de casa?”

Nunca funcionou tão bem quanto agora. Apesar do meu contato com redação de jornal ter começado no Notícia Agora, que pertence à Rede Gazeta de Comunicação, para onde eu produzi 386 páginas de quadrinhos, foi no jornal A Tribuna que eu trabalhei de fato e ativamente com a notícia.

Eu produzia infográficos, dando forma e cor à alta do dólar, queda e aumento de popularidade de políticos, esclarecia para o leitor como ocorreu certo acidente, como funcionaria o trânsito graças àquela festa ou manifestação… Vivia no departamento de arte (Zota e eu), junto com a galera do tratamento de imagem (Sérgio, Luís, Lúcia, Augusto e Renan…), com os armários dos fotógrafos, com o chargista Pater… O ambiente era ótimo, longe das pessoas que escreviam.

recomendaEu tinha uma gana por escrever no jornal, deixar, de vez em quando, de ser um dos “meninos da arte”. Qualquer redação vão chamar a galera da arte assim. Um com 70, outro com 48, outro com 23, mais de duzentos anos somados transformados em garotos.

É ótimo, pensando agora, mas o complexo de vira-lata me fazia pensar que achavam que valíamos menos por desenhar, por tratar fotos, por não seduzir as pessoas pelas palavras. Eu entrei nA Tribuna em novembro de 2003. Mais de dez anos depois, tenho aparecido nesse jornal como um filho orgulhoso que manda uma carta para casa, dizendo que está longe, mas que está tudo bem. Aqui estão duas “cartas para casa”. Vejam aí!

A primeira é uma notinha na coluna “No Tom”, que saiu no dia 06/07, onde recomendo um CD… peculiar. Clique na imagem para ampliar!

Já a segunda é um artigo para o AT2 Livre, dando a minha opinião sobre a missão do autor de histórias em quadrinhos.

atlivre

contrato

 

Em casa, com roupinha velha, descalços e caneta com super-heróis em quadrinhos estampados. Foi assim Ana Cristina Rodrigues e eu assinamos o nosso contrato com a editora Claro Enigma, que faz parte da Companhia das Letras, para produzir um grande trabalho histórico-biográfico em quadrinhos.
Obrigado aos que torceram e quando der contaremos mais novidades!

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

Neguim acha que a vida é braba. Tem neguim que vê injustiça em todo o canto. E não é que neguim ta certo? Mas tem neguim pensando errado também.

Mas tem neguim que acha normal usar a palavra “neguim”, para designar um sujeito desinformado, malandro, o bobo, o cara que fatalmente vai se ferrar.

“Neguim” geralmente vem seguido das palavras “faz” e “merda”.

– O Brasil devia estar melhor, mas “neguim faz merda”…

– Neguim e branquim, respondo.

– Ah, cara! É modo de dizer, né?

O pior que não é modo de dizer. É modo de pensar.

Durante o polêmico e controverso protesto de Paulo Coelho, que diz ter se recusado a ir à feira internacional do livro em Frankfurt em solidariedade aos seus colegas autores mais vendidos no Brasil, reparei a falta de negros na lista de 70 nomes. Aliás, apenas um, Paulo Lins, autor de Cidade de Deus e um índio, Daniel Munduruku.

Mas os critérios utilizados para escolhas dos autores foram a relevância de suas obras.

Minha insatisfação é injustificada, porque eu não tenho sequer 10 nomes de autores negros e índios para sugerir para a lista, fechada desde março deste ano. Isso é reflexo da minha educação? Desinformação, talvez? Discordo!

Se me pedirem 20 nomes de jogadores de futebol negros eu te diria, mesmo não gostando de futebol (tá certo que eu iria demorar, mas consigo).

Eu usei Frankfurt nesta conversa apenas para pontuar a minha situação. No mesmo dia em que meus colegas escritores estavam em Frankfurt e outros colegas não estavam, eu estava na Bienal Capixaba do Livro, em Vitória, Espírito Santo, minha terra natal.

Eu não sei como dizer o quanto estou decepcionado com o que vi. Vitória, um lugar paradisíaco, já foi considerado o 3º lugar em qualidade de vida, tinha como “feira do livro” uma área coberta com toldo, que cobria parte do estacionamento do Shopping Vitória.

Havia apenas uma ou duas editoras por lá, o resto eram distribuidoras e livrarias.

O espaço, na maior parte do tempo vazio, chega a ser assustador. Eu sei que esses tipos de comentários sobre a terra natal parecem “ingratos”, mas o espaço da Bienal Capixaba é, proporcionalmente, do tamanho da área de alimentação da Bienal do Rio.

Um espaço que para mim funcionou foi o Espaço do Escritor Capixaba. Vendas a dinheiro apenas, mas quem quisesse expor seus materiais ali era apenas chegar, deixar seus livros, o preço e pronto. O espaço ficava com 10% do valor, a título de administração. Lindo.

Apesar do tamanho e da falta de pessoas, a sexta edição da Bienal Capixaba do Livro seria uma boa experiência, até o momento em que eu devia assinar meus livros “A Corrente”, “Hector & Afonso – Os Passarinhos” e “Os Passarinhos e Outros Bichos”.

Numa mesa dentro do estande da livraria Logos, lá estava eu: um negro sentado à mesa com livros expostos com o seu nome, blusa preta e uma gravata verde (sim, usei).

Apesar de todos os funcionários da Logos (a maioria negros) estarem devidamente identificados por uma camisa branca com a logo da livraria e credencial, recebi minha “primeira” visita:

– Posso sentar aqui? – Uma senhora chegou, conversando com uma pessoa.

– Hã… – antes mesmo que eu pudesse responder, ela sentou-se à cadeira ao lado, escreveu um telefone para uma amiga atrás de um cartão, apoiada à mesa com meus livros.

– Não vou demorar nada.

– Tá, é que eu estou assinando meus livros.

– Ah, está? Eu sou escritora também!

Até aquele momento me pareceu que apenas escritores estavam na Bienal. Isso justifica as 45 cabeças andando dentro daquele toldo.

Ela me falou do trabalho que desenvolvia e deu o golpe:

– Que tal eu assinar seu livro e você assinar o meu?

Eu não lembro o que falei, mas acredito que tenha sido um não, porque ela pediu apenas para tirar uma foto comigo.

– Nós, autores, precisamos nos ajudar, né? – E foi embora.

Minutos depois:

– Você trabalha aqui? – Uma mulher com um livro na mão.

– Na verdade, não sou funcionário da loja… Mas estou trabalhando. Estou autografando meus livros.

– Então, você não pode me ajudar… – A mulher me deu as costas e seguiu à vida.

Aí chegou uma galera do blog Social Zero, que acompanha meu trabalho, e comprou uns livros, fez festa, tiraram fotos. Uma galera na batalha, como todo mundo que faz cultura, mas sem perder o sorriso.

Outras duas pessoas também me pediram informação sobre livros expostos em todas as prateleiras, além de um garoto que queria que eu soubesse onde estava o livro Diário de um banana. – O do filme, disse ele.

A conclusão louca que eu tiro disso é que as pessoas não estão reparando, não associam mais as informações, elas apenas fazem uma análise superficial do que parece ser.

Três funcionários negros trabalhando na loja, mais um sentado na frente de livros? Claro que é funcionário!

borrada

Aliás, não há nada de mal em ser funcionário, assim como não há nada de mal uma médica cubana ter “cara de doméstica”, como uma jornalista colocou no twitter.

Nós, autores de começo de carreira, somos vendedores também. Thalita Rebouças foi uma vendedora incansável dos seus livros no começo de carreira. Hoje apenas o seu nome é o bastante para encher lugares.

Mas o preconceito em ver ali um autor como um funcionário baseado em sua aparência é triste e reflexo de uma educação precária e perpetuação de um modelo de sociedade em que quer os negros em atividades que eles consideram “adequadas” à cor.

Ah, as vendas foram boas, viu? Tem neguim que sabe vender seu trabalho.

A Corrente a R$ 25,00 sem frete! É o preço final! vendas@ospassarinhos.com.br

A Corrente a R$ 25,00 sem frete! É o preço final! vendas@ospassarinhos.com.br

Desde quando eu avisei que ia disponibilizar meu livro A Corrente online em forma de “blogssérie” há cerca de um mês, três sites acabaram disponibilizando o livro online. O incrível é que um deles o fez um dia antes da estréia da série no blog MEDO B.
Nos três casos, eu pedi aos blogs que retirassem do ar, por três motivos:

1º – Se alguém vai disponibilizar o meu trabalho online e gratuitamente, que seja eu, nas minha condições, já que sou o autor. E eu decidi que ele vai sair um capítulo por semana (toda a sexta-feira) pelo blog Medo B.

2º – Esse papo de divulgar o autor é interessante, tanto que eu mesmo estou fazendo, mas eu acredito que as pessoas estejam adquirindo o hábito de ter tudo de graça, seja procurando o livro para baixar ou montando blogs para fazer resenhas  literárias. Todos vivem como quiser, mas eu também tenho direito de não participar disso.

3º – Hipocrisia. Quem põe o material online não está ajudando a ninguém a não ser a si mesmo, alimentando um ego, seja como um “Robin Hood” digital admirado pelas pessoas do parágrafo anterior ou simplesmente alguém atrás de curtidas no Facebook ou seguidores no Twitter. No último caso, o blog tinha até assinatura premium, onde as pessoas pagavam uma pequena quantia mensal e podia baixar todos os livros.
Uma desculpa “cabível” para isso seria a manutenção do servidor onde estariam todos os livros “ilegais”, mas se a pessoa quer ser altruísta, por que não banca ela mesma, não é?

Uma coisa que precisa ficar clara é que, na maioria das editoras pequenas, o autor não recebe adiantamento de direitos autorais pelas vendas de seus livros. Ou seja: o diagramador recebe, revisor também, o editor, o capista… todos que fazem parte do processo de produção recebem, seja por eles integrarem o quadro de funcionários da empresa ou porque são contratados por isso.

O autor só recebe quando o livro é vendido. E mesmo quando ele recebe um adiantamento pelos direitos autorais, ele só voltará a receber alguma coisa que a a venda dos livros ultrapassar o valor que deram a ele.

Vamos fazer uma conta?

Se Joãozinho recebe R$ 5.000,00 de direitos autorais referente a um livro de R$ 25,00 ao preço de capa e o universo conspirar para que os direitos autorais dele seja de 10% do preço de capa, ele ganhará R$ 2,50 por livro vendido.

Para que ele volte a ganhar algum dinheiro em cima daquele livro no qual trabalhou um tempão, ele precisa vender acima de 2 mil livros.

Antes que você pense que R$ 5.000,00 de adiantamento por um livro é muito, devemos lembrar que em muitos dos casos um livro não atinge esse volume de venda, e em outros casos, só vai atingir depois de um ou dois anos no mercado, ou talvez numa venda para algum programa de governo.

Um autor pode viver de seu trabalho assim?

Gostaria que você pensasse que, quando você baixa um livro, você não está ferrando uma cadeia produtiva. O mercado ganha e perde toda a hora. O autor não. Se ele ganha, ele consegue viver de seu trabalho. Se ele perde, ele vai fazer outra coisa para viver e sua literatura vira um passatempo, um sonho ocasional.

Para quem reclama que livro é caro, eu digo que estou fazendo a minha parte: o meu livro, que estava à venda pela editora Draco a R$ 33,90 + frete está a R$ 25,00 sem frete comigo. Quer conhecer meu trabalho? Acesse os primeiros capítulos de A Corrente no Medo B. Quer ler o livro completo? Compre comigo. O autor agradece.

ATUALIZAÇÃO [10/01/2014]

Aqui tem a versão pdf disponibilizada por mim! Pelo menos assim eu sei quantas pessoas viram e baixaram o livro.

Cada texto neste blog lindo deveria ser sobre minhas impressões acerca do Rio de Janeiro, mas nem sempre as boas histórias acontecem de fato aqui. Esta aconteceu em São Paulo e é longa.
Eu peço a compreensão a vocês pelo assunto e pelas palavras que usarei aqui, porque muito da minha intimidade será mostrada e eu não gostaria de mudar minha fala para deixar este texto mais bonito.

No meio irreverente que é os quadrinhos, presume-se que todo o tipo de brincadeira é válida, e com alguns é isso mesmo.
Vez ou outra cumprimentamos:
– E aí, gay?
– Fala, viado!
– Fala, mulher!
– Fala, homossexual!
Muitas vezes é assim que nos referimos uns aos outros, “brincando” com os caras. Qualquer demonstração de preocupação um com o outro ou uma frase mais sentimental é sempre respondida com um “mas é um viado mesmo, né?”

Mas um dia eu estava num evento e falei para um colega de internet que eu não via há tempos:
– Poxa, que saudade de você, cara!
Imediatamente ele me respondeu:
– Ih, tá me estranhando,cara?

Comecei a refletir o que o cara falou e dali me veio a pergunta: Quadrinhos é coisa de homem? O universo dos quadrinhos é para “meninos”?
Lembro que as primeiras histórias em quadrinhos que li me foram passadas pelo meus irmãos. Uma tradição de homem. Minhas irmãs se interessavam por revistas com fotografias de bandas da moda o New Kids On The Block, Menudos, Paquitos, e por aí vai. Mas quadrinhos? Era coisa de menino.

E é estranho pensar nisso, porque para mim sempre pareceu que os garotos que liam quadrinhos geralmente eram associados a serem menos ativos, brincavam menos na rua e, muitas vezes, tinham soluções mais “cerebrais” para situações de ação. Eram chamados de nerds, mariquinhas… ou viados.

Havia uma diferença cultural sim, mas havia o preço de ser meio “esquisito”. Lembro que, para achar alguém que lesse quadrinhos e estivesse disposto a trocá-los, tinha que andar muito pelos bairros. E quem eu encontrava? Meninos.
Por toda a minha infância, nunca havia encontrado meninas que gostassem de quadrinhos, inclusive elas não entendiam o porquê continuávamos a gostar deles mesmo quando crescíamos.

mandrake_e LotharMuito mais tarde descobri que a minha mãe gostava dos quadrinhos do Lee Falk, o Fantasma e o Mandrake, antes de entrar para a igreja e acreditar que tudo era obra do demo. Ah, também tinha minha irmã, Estelita, que escreveu uma ótima história sobre um reino de gatos, com traços inspirados nas revistas do Conan. Com a sua ida para a igreja, o projeto também se perdeu. Essas foram as duas únicas “meninas” que vi gostando de quadrinhos por muito tempo.

Aí a paixão por quadrinhos virou algo mais do que só a leitura e acabou me levando a querer produzir minhas próprias histórias. Não se iluda, eu não era especial. Quase todos os garotos que eu conhecia que liam quadrinhos também queriam produzir seus próprios.

O que não é novidade nenhuma. Quem jogava futebol fantasiava encontrar um estádio lotado. Quem tocava seu violão já se imaginou na capa de disco. Mas aí vem a adolescência e o coração não suporta mais de uma paixão por vez. Assim vi amigos desistirem de bandas, desistirem de seus projetos de quadrinhos e partirem para a aventura que é amar alguém.

– Meninas, além de não gostarem de quadrinhos, acabam com as nossas parcerias — Pensei um dia.

Quando resolvi seguir com os quadrinhos, tive que fazê-los em meu tempo vago, procurando parcerias. Eu era um roteirista cheio de ideias e sem talento para o riscado. Minhas parcerias, por mais sólidas que fossem, não faziam uma história em quadrinhos ser desenhada mais depressa. Era complicado ocupar um desenhista num projeto de, sei lá, 90 páginas. Era tirar um ano de seu tempo vago para um projeto que talvez não fosse publicado.

– Fala, gay!
– Fala, viado!
– Alguma novidade?
– Nada, não consegui mexer nas páginas ainda.
– Mas é um viado mesmo, né? Não esquece essas páginas, pô!

Então, a vida seguia. Mas aí pensei, e se eu fizesse projetos de histórias curtas? Assim poderia trabalhar com desenhistas que fariam poucas páginas e o projeto andaria!
contos_tristesAssim nasceu Contos Tristes.
Um álbum com histórias e contos com “finais infelizes”, ilustrados por artistas convidados. O Orkut (lembra dele?) era um celeiro de artistas ávidos por mostrar seus trabalhos e foi lá que encontrei meus parceiros de traço, como Douglas Félix, Emerson Lopes e Mário César.

Volta graaaaande para poder falar desse cara. Mário César é especial para mim porque ele foi crucial para Contos Tristes.
O projeto ficou cerca de 3 anos em produção por causa de uma das histórias que nunca era finalizada, chamada “A Demente”.

Essa história de cinco páginas era amaldiçoada. Todos que se propuseram a desenhá-la foram para… hã… um lugar melhor.
A primeira a tentar fazer recebeu um convite para ser editora e largou o trabalho;
O segundo se casou;
E o terceiro foi morar na Itália.

45

A Demente, texto meu e arte de Mário.
A maldição acabou!

Então chegou Mário, que desenhou a história e quebrou a maldição!
pequenosheroisA parceria foi tão legal que começamos outro projeto juntos, Pequenos Heróis. Além de desenhar uma das histórias escritas por mim, Mário fez o projeto gráfico, diagramou e ajudou na seleção dos artistas, fazendo da obra ganhadora do Troféu HQMIX 2011 de melhor publicação infantil / juvenil de 2010.

Paralelamente, eu produzi outras coisas e Mário também. Enquanto me dedico aos meus Passarinhos, livros de terror e mais recentemente a produção de uma graphic novel, Mário trabalha em sua série chamada Entrequadros.
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Ele já tem 3 edições feitas e partiu para a quarta e talvez a mais importante até agora, porque abrange um assunto pouco tocado nos quadrinhos brasileiros: LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexual e Travestis).

Mas, mas, mas… quadrinho não é coisa de menino? Quadrinho é uma forma de expressão? Quadrinho não é negócio? Quadrinho não é arte? Quadrinho não é literatura?

Não, sim, talvez. A única certeza que quadrinho é quadrinho. Para quê que ele serve, vai de cada um. Quadrinho antes de ser uma revista na banca, na livraria ou na tela de um computador, era tinta impressa em papel por uma máquina, riscos num scanner ou feitos diretamente num computador, e antes disso eram ideias na cabeça de uma pessoa. Ideias para ganhar dinheiro, ou apenas desabafos.

catarse-capa-cirandaMário escreveu desabafos, memórias ou apenas algumas pontas soltas entre os quadros. Decida você ao ler Ciranda da Solidão – Entrequadros, se quiser e puder apoiar o projeto dele no Catarse, uma plataforma de apoio online, onde sua colaboração em dinheiro rende um exemplar do álbum, que precisa atingir uma meta para ser impresso. Cada um que colaborar com uma quantia, tem direito a um prêmio, que vai desde o álbum digital ou impresso e cartões e diversos brindes.

Temos poucas histórias em quadrinhos que abordem a temática LGBT com o respeito merecido, e ainda menos quando falamos do Brasil, onde muitas histórias o gay e a lésbica só é representado como alívio cômico.

Talvez por isso brinquemos tanto chamando uns aos outros de gay. E foi aí que me bateu uma dúvida angustiante.

Um dia Mário disse na internet algo que me fez comentar com a minha esposa:

– Acho que o Mário é gay.

A Ana, escolada, falou:

– Lógico que é gay. Pelos clipes que ele põe no twitter dele, é mais que óbvio, né Estevão?

Eu fiquei preocupado. Difícil explicar, mas fiquei com medo de ter cometido uma grande gafe, e pensei:

“Se o Mário é quadrinhista e meu amigo há tempos, se ele fosse gay, eu saberia. E muitas são as chances de eu ter chamado ele de gay alguma vez em nossas conversas… Se bem que ele poderia muito bem ser gay, eu o conheço há anos, mas quantas vezes nos vimos? Quatro? Cinco? Mário? Gay?”

Me desesperei. “E se ele levou a mal?”

– Não, Ana! Mário não pode ser gay! Quantos quadrinhistas gays eu conheço? Nenhum! (Cartunistas, alguns, mas…) Quadrinhista é meio preconceituoso e quadrinhos é coisa de menino. Pelo menos era antes de eu começar nisso.

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Na verdade, era antes de eu conhecer o mundo, antes de ver gays escrevendo histórias sobre gays em revistas do Lanterna Verde, Batgirl e Authority, só para citar alguns! E o que dizer de Laerte e a sua Muriel? No meu bairro talvez não tivesse, mas nem isso eu podia ter certeza. Em algum lugar na minha vizinhança devia ter alguém. Com certeza tinha.

Eu tinha duas preocupações:

Primeiro – Se Mário era gay, será que eu estava sendo um bom amigo, pois eu não lembrava se tinha chamado ele de viado alguma vez;

Segundo – Se eu perguntasse a Mário se ele era gay e ele não fosse, será que ele se ofenderia?

– Você não vai perguntar ao Mário se ele é gay! – Ana foi enfática – Não se pergunta a ninguém uma coisa assim!

– Mas, mas…

A pergunta ficou adormecida até o lançamento da Entrequadros na Blooks, em Botafogo. Saí do jornal e cheguei quase dez horas, a ponto de acompanhá-lo na saída da livraria para o cinema, onde ele ia ver um filme.

Segui com ele e a conversa foi animada, até chegarmos no cinema e eu lamentar:

– Nossa, você perdeu o horário de Fúria de Titãs…

– Não, mas eu vou ver Sex and the City 2 – respondeu.

Quando cheguei em casa, falei com Ana.

– Ana, acho que o Mário é gay.

Ela me deu a mesma resposta, me proibindo de perguntar.

Até que um dia, em São Paulo, fomos dar uma entrevista para o programa Fala + Joga, da TV PLAY, onde falamos de quadrinhos e demos uma sova na apresentadora nos games (NEERRRDDSSS!!!).

E no metrô, a caminho da casa dele, eu o parei e comecei a conversa mais embaraçosa da minha vida:

– Mário, preciso te perguntar uma coisa.

– Fala.

– Mas você tem que prometer não ficar com raiva de mim, independente da resposta.

– Fala, cara. Tá tranquilo!

Então eu pus a mão no ombro dele, olhei sério e perguntei.

– Você é gay?

Ele me respondeu calmo e instantâneo, sem dúvidas ou embaraço.

– Sou.

Eu abri um sorrisão de alegria e abracei meu amigo, que não entendeu nada!

Depois me expliquei, pedi desculpas se o chamei brincando de gay ou viado, mas logo lembrei que nunca o chamei assim. Sempre o chamei de bro (contração de brother), o que ele representa para mim no mundo dos quadrinhos.

É um irmão para mim.

Ontem recebi uma notícia boa de uma livraria em Vitória.

As últimas edições de que tenho notícia de Contos Tristes foram vendidas. 53 exemplares vendidos para a Prefeitura de Vila Velha, para as bibliotecas locais (imagino).

Esta publicação, que demorou mais quase cinco anos para ser publicada, nasceu de um projeto híbrido de quadrinhos com literatura.

A idéia era fazer uma história troncal em prosa, onde um médico legista sem respeito pelos mortos está pronto para abrir uma garota. Só que ela acorda e apresenta a história de cada um dos mortos daquela sala. Estas histórias eram em quadrinhos curtas, umas em diálogos, outras em versos, mas todas em quadrinhos. Cada uma com um artista convidado.

Mas quando se mete num trabalho grande, com a participação de pessoas num esquema de cooperativa (ou seja, sem grana, apenas a garantia de publicação e uma quantia de exemplares), precisamos estar dispostos a esperar. Esperar muito.

As histórias em quadrinhos estavam prontas, a parte em prosa não saiu por causa do excesso de trabalhos na época.

Deixei Contos Tristes de lado até os artistas me entregarem o trabalho. Alguns demoraram semanas, outros meses, outros não entregaram. Assim, um projeto inciado em 2003 ficou incompleto até 2007.

Até que surgiu o Prêmio Capixaba de Literatura, com prêmios em diversas três categorias: Romance, Poesias & Crônicas e Infanto Juvenil.

Peguei o projeto, retomado quando encontrei Mário César (Entrequadros), que ilustrou a última história pendente (as outras foram resolvidas com contos em prosa, poemas e ilustrações) e o coloquei no Prêmio.

Resultado: 2º lugar na categoria infanto-juvenil. Prêmio: 500 exemplares por uma obra incompleta.

Mais tarde, uma indicação para o HQMIX como melhor álbum independente especial.

Agora que Contos Tristes esgotou (temos apenas alguns exemplares na Comix, HQMIX e TRAVESSA), penso se vale à pena republicar o trabalho como deveria ser: um livro intercalado por quadrinhos. Será que rola?

Enquanto não decido, fique com a última história a ser feita: A Demente.

Existe uma curiosidade sobre esta hq. Por algum tempo, ela foi “amaldiçoada”.

Três desenhistas pegaram para desenhar, mas todos a deixaram, impedidos por compromissos. O Mário foi o quarto, e logo depois Contos Tristes foi publicado.

Quatro anos e meio depois de eu ter começado um projeto onde não tinha espaço para finais felizes.

CONTOS TRISTES saiu no final de 2008, com 52 páginas, capa colorida, miolo p&b e muitas lágrimas.

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