Sábado, dia dez de maio de 2014, teve um sabor diferente para mim.

Pela primeira vez, tive um texto meu publicado no jornal A Gazeta. Eu já havia trabalhado para o jornal, escrevendo histórias em quadrinhos para o segundo jornal da casa, o Notícia Agora, mas eram textos em balões e, por mais profundo que eu tentasse soar, não seria levado a sério.

Mas no sábado em questão, eu estava entre os “adultos”, meu texto não tinha figuras, não tinha fotos, nada que chamasse demasiadamente a atenção para o meu texto. Não usei os recursos visuais que dispus a vida inteira. Foram letras falando de minha vida e de como construí meus mundos.

A crônica que escrevi para o jornal Gazeta Online foi meio que uma “prestação de contas”.

Sete anos fora da minha cidade natal perseguindo um sonho e muitos de vocês já devem ter lido parte dessa história exaustivamente contada nos posts por aqui mesmo. Porém, em Vitória sou a pessoa que organizou 3 edições de uma feira de quadrinhos e publicou um bocado de quadrinhos no jornal Notícia Agora em 2000 e lançou um ou outro trabalho depois.

Esse texto foi uma forma de dizer “Ei, estamos por aí, ainda lutando, fazendo que muita gente achou que era perda de tempo”.

Pensando bem, eles não deixam de ter razão. Escrever, se dedicar às artes, num país onde as oportunidades são poucas, é perigoso, uma loteria, no máximo uma perda de tempo.

Mas é uma bela forma de perder tempo. Caso não esteja de saco cheio de ler sobre as minhas dificuldades, pode ler. Estava num jornal, sem desenho. Só letras.

10 05 2014 Pensar A Gazeta

 

Ps. Feliz dia das Mães.

Pessoal de Vitória, estarei por aí, para a Feira Literária Capixaba. Mais informações aqui!

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Os olhos de hoje distorcem o passado.

Eu sou uma pessoa que trago, inconscientemente por opção, a bagagem do meu passado triste.

Na época ele não era tão triste, mas olhando de agora, percebo que a visa só não era mais complicada porque minha cabeça não entendia a situação.

Eu morava com a minha mãe e mais cinco irmãos em Itararé, na ilha de Vitória/ES. Minha mãe fazia bicos e minhas irmãs, quando não moravam na casa de parentes para diminuir os custos em casa, viviam como domésticas, dormindo no serviço.

Não é difícil achar hoje uma família que passou necessidade, que não teve conforto na vida. No meu caso, eu não sabia o que era conforto. Se eu não sabia, como eu poderia sentir falta? A ignorância, ou a própria ausência de um momento máximo de felicidade me tornava uma pessoa que, em meu cotidiano, era feliz.

A raridade dos acontecimentos tornava pequenos momentos felizes. Minhas Havaianas eram usadas com grampos segurando as tiras, até fazer um furo nos calcanhares. Ganhar uma nova era um momento mágico.

E quando ganhei um Ridder? Eu era o garoto com bolhas nos pés mais feliz do mundo!

Eu ia ao barbeiro a cada três meses. As pessoas me reparavam, os amigos davam tapas, “estreando” o visual. Outros perguntavam se eu tinha ido parar na Febem. Era uma piada maldosa, mas reparavam no cabelo, né?

Talvez o momento mais crítico era a alimentação.

Pão era algo raro, mas vez ou outra tinha. Eu, assim como meus irmãos antes de mim, era responsável por trazer o pão para casa, fazendo um pequeno trabalho na vizinhança. Nós levávamos peças de biquinis para duas irmãs, que trabalhavam em casa. Uma costurava e a outra arrematava. Como moravam há cerca de 2 quadras, usavam crianças para levarem as peças de um lugar ao outro. Assim ganhávamos um troco, o equivalente a um real, mais ou menos, pelo trabalho.

Mas quando faltava o pão, a solução era fazer bolinhos de farinha. Trigo? Não, muito caro!

Minha mãe fazia um bolinho de farinha de mandioca, algo simples para enganar a fome: Farinha, água e sal (eu acho que um ovo), frito no óleo.

Era algo enjoativo, mas era comer isso ou um copo de café com farinha. Ou farinha com açúcar. Ou abacate com farinha e açúcar, quando conseguíamos um abacate na vizinhança.

No almoço era arroz, feijão (ralado, para render, misturado com farinha no prato, para dar consistência) e ovo. Na verdade, a minha mãe fazia milagres: pegava dois ovos, fazia uma omelete para cinco ou seis pessoas.

Raramente tivemos geladeira, então carne era raridade. A não ser a linguiça. Uma “perna” (peça) e meia devia render para a família inteira. Resultado? três fatias pequenas de linguiça para cada um.

Ainda tinha um espertinho que tentava comer uma fatia antes, e a minha mãe dizia:

– Se comer agora, vou descontar na hora do almoço.

O suco, quando tinha, era de cajá, que pegávamos na casa de minha avó. O cajazeiro me salvou da fome algumas vezes. Outras vezes foram os vizinhos, que nos davam alguma coisa quando faltava.

Comer em casa não tinha graça. A comida era pouca e comíamos relativamente cedo, por já estar com fome do café da manhã. Quando eu ia para casa de algum amigo e a mãe dele me perguntava se eu já tinha almoçado, eu simplesmente dizia que sim, e ficava olhando o prato dos outros com um arrependimento aparente.

No começo do mês, tínhamos galinha, que durava uma semana. Passei a gostar muito de algo que eu fazia, por mim mesmo: pegar o caldo da galinha, misturar com farinha e desfiar o pequeno pedaço que me davam (geralmente pescoço e pé) no meio, com arroz. Eu chamava aquilo de arroz de doido.

Eu ainda chamo.

Os meus olhos de agora vêem a situação de pobreza extrema (nossa casa caiu e a família se dividiu para casa de parentes para nunca mais se juntar)  como algo triste, mas pensem que, aquele menino via tudo com uma felicidade simples. Muita vergonha, muitas dúvidas, de vez em quando.

Quando cresci um pouco mais e comecei a questionar o fato de eu não dispor das coisas que meus amigos tinham, eu procurei outra forma de ser feliz. Foi nessa época em que me mudei para Andorinhas, também na ilha.

Morei a uma quadra da maré, ainda uma família grande. Mãe, duas irmãs, um irmão e um sobrinho. A situação era crítica e logo meu irmão foi mandado embora de casa (aos 14 anos). A inocência havia acabado. A família diminuía, as coisas não melhoravam, e raramente eu conseguia ver a felicidade de perto.

Fiz parte da Banda Marcial Ceciliano Abel de Almeida, tocando surdo, depois um surdão. O pagamento era lanche nos eventos que tocávamos. Conheci o “cachorro-quente” nessa época. O tradicional pão com carne (carne moída no pão) era tradicional nesses eventos. Eu sempre escondia um desses para levar para a minha mãe.

Quando a situação ficou ainda pior e mudamos para às margens do mangue, ainda em Andorinhas, que paramos de passar fome: eu catava mariscos na maré baixa e pescava nas margens ou nas pontes em palafitas na maré alta.

Se os peixes não viessem, os mariscos faziam a festa.

Aos 13 anos, minha irmã me deu um dinheiro e eu comi pela primeira vez um hambúrguer. Aquela explosão de sabor, eu comia devagar, com pequenas mordidas, para fazer durar mais.

Mas quando eu passei perto de um ensaio de festa junina, um amigo pediu para dar uma mordida e ele comeu metade do hambúrguer.

Eu fiquei tão chateado que, quando ele passou de costas para mim de mãos dadas com os outros fazendo uma roda, eu o soquei nas costas. Muito forte, a ponto de ele nunca esquecer e me devolver esse mesmo soco meses depois, durante o ensaio da banda marcial. Eu achei que ia morrer quando não consegui respirar.

Andorinhas fica na margem oposta da Universidade Federal do Espírito Santo, e por causa disso muitos amigos meus iam comer no refeitório de lá. Eles conheciam até o que era servido nos dias da semana, e sempre me convidavam. Um dia, movido pela curiosidade e pela fome, aceitei. Enquanto cruzávamos o bairro em direção à UFES, ele me explicou como conseguia a comida.

Eles abordavam os garotos na fila, pedindo um ticket para entrar no refeitório. Eu achava que eles tinham algum esquema, conheciam alguém ou era como uma escola: você entrava numa fila e comia.

Quando eu vi que eu teria que pedir pela comida, foi que eu entendi a vida que me rondava. Eu não queria aquilo para mim, virar um pedinte na fila de um bandejão.

A partir daí minhas lembranças foram passadas a limpo. Tive uma vida de dificuldades ainda por muito tempo, e sim, comi naquele bandejão da UFES, no meu segundo dia do curso de Artes Visuais.

Hoje vejo muitas das causas do meu peso deve-se ao fato de que nunca aprendi a comer direito. Antes, eu só não tinha o que comer, ou poucas opções. Hoje, com algum recurso, eu acabo exagerando e encarando como falta grave deixar algo no prato. Isso resultou num aumento de 60kg, da minha adolescência para a fase adulta.

O que procuro agora é encontrar a combinação perfeita: não passar fome, mas não me privar alguns caprichos.

Parece simples, mas não é.