junho 2013


Cada texto neste blog lindo deveria ser sobre minhas impressões acerca do Rio de Janeiro, mas nem sempre as boas histórias acontecem de fato aqui. Esta aconteceu em São Paulo e é longa.
Eu peço a compreensão a vocês pelo assunto e pelas palavras que usarei aqui, porque muito da minha intimidade será mostrada e eu não gostaria de mudar minha fala para deixar este texto mais bonito.

No meio irreverente que é os quadrinhos, presume-se que todo o tipo de brincadeira é válida, e com alguns é isso mesmo.
Vez ou outra cumprimentamos:
– E aí, gay?
– Fala, viado!
– Fala, mulher!
– Fala, homossexual!
Muitas vezes é assim que nos referimos uns aos outros, “brincando” com os caras. Qualquer demonstração de preocupação um com o outro ou uma frase mais sentimental é sempre respondida com um “mas é um viado mesmo, né?”

Mas um dia eu estava num evento e falei para um colega de internet que eu não via há tempos:
– Poxa, que saudade de você, cara!
Imediatamente ele me respondeu:
– Ih, tá me estranhando,cara?

Comecei a refletir o que o cara falou e dali me veio a pergunta: Quadrinhos é coisa de homem? O universo dos quadrinhos é para “meninos”?
Lembro que as primeiras histórias em quadrinhos que li me foram passadas pelo meus irmãos. Uma tradição de homem. Minhas irmãs se interessavam por revistas com fotografias de bandas da moda o New Kids On The Block, Menudos, Paquitos, e por aí vai. Mas quadrinhos? Era coisa de menino.

E é estranho pensar nisso, porque para mim sempre pareceu que os garotos que liam quadrinhos geralmente eram associados a serem menos ativos, brincavam menos na rua e, muitas vezes, tinham soluções mais “cerebrais” para situações de ação. Eram chamados de nerds, mariquinhas… ou viados.

Havia uma diferença cultural sim, mas havia o preço de ser meio “esquisito”. Lembro que, para achar alguém que lesse quadrinhos e estivesse disposto a trocá-los, tinha que andar muito pelos bairros. E quem eu encontrava? Meninos.
Por toda a minha infância, nunca havia encontrado meninas que gostassem de quadrinhos, inclusive elas não entendiam o porquê continuávamos a gostar deles mesmo quando crescíamos.

mandrake_e LotharMuito mais tarde descobri que a minha mãe gostava dos quadrinhos do Lee Falk, o Fantasma e o Mandrake, antes de entrar para a igreja e acreditar que tudo era obra do demo. Ah, também tinha minha irmã, Estelita, que escreveu uma ótima história sobre um reino de gatos, com traços inspirados nas revistas do Conan. Com a sua ida para a igreja, o projeto também se perdeu. Essas foram as duas únicas “meninas” que vi gostando de quadrinhos por muito tempo.

Aí a paixão por quadrinhos virou algo mais do que só a leitura e acabou me levando a querer produzir minhas próprias histórias. Não se iluda, eu não era especial. Quase todos os garotos que eu conhecia que liam quadrinhos também queriam produzir seus próprios.

O que não é novidade nenhuma. Quem jogava futebol fantasiava encontrar um estádio lotado. Quem tocava seu violão já se imaginou na capa de disco. Mas aí vem a adolescência e o coração não suporta mais de uma paixão por vez. Assim vi amigos desistirem de bandas, desistirem de seus projetos de quadrinhos e partirem para a aventura que é amar alguém.

– Meninas, além de não gostarem de quadrinhos, acabam com as nossas parcerias — Pensei um dia.

Quando resolvi seguir com os quadrinhos, tive que fazê-los em meu tempo vago, procurando parcerias. Eu era um roteirista cheio de ideias e sem talento para o riscado. Minhas parcerias, por mais sólidas que fossem, não faziam uma história em quadrinhos ser desenhada mais depressa. Era complicado ocupar um desenhista num projeto de, sei lá, 90 páginas. Era tirar um ano de seu tempo vago para um projeto que talvez não fosse publicado.

– Fala, gay!
– Fala, viado!
– Alguma novidade?
– Nada, não consegui mexer nas páginas ainda.
– Mas é um viado mesmo, né? Não esquece essas páginas, pô!

Então, a vida seguia. Mas aí pensei, e se eu fizesse projetos de histórias curtas? Assim poderia trabalhar com desenhistas que fariam poucas páginas e o projeto andaria!
contos_tristesAssim nasceu Contos Tristes.
Um álbum com histórias e contos com “finais infelizes”, ilustrados por artistas convidados. O Orkut (lembra dele?) era um celeiro de artistas ávidos por mostrar seus trabalhos e foi lá que encontrei meus parceiros de traço, como Douglas Félix, Emerson Lopes e Mário César.

Volta graaaaande para poder falar desse cara. Mário César é especial para mim porque ele foi crucial para Contos Tristes.
O projeto ficou cerca de 3 anos em produção por causa de uma das histórias que nunca era finalizada, chamada “A Demente”.

Essa história de cinco páginas era amaldiçoada. Todos que se propuseram a desenhá-la foram para… hã… um lugar melhor.
A primeira a tentar fazer recebeu um convite para ser editora e largou o trabalho;
O segundo se casou;
E o terceiro foi morar na Itália.

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A Demente, texto meu e arte de Mário.
A maldição acabou!

Então chegou Mário, que desenhou a história e quebrou a maldição!
pequenosheroisA parceria foi tão legal que começamos outro projeto juntos, Pequenos Heróis. Além de desenhar uma das histórias escritas por mim, Mário fez o projeto gráfico, diagramou e ajudou na seleção dos artistas, fazendo da obra ganhadora do Troféu HQMIX 2011 de melhor publicação infantil / juvenil de 2010.

Paralelamente, eu produzi outras coisas e Mário também. Enquanto me dedico aos meus Passarinhos, livros de terror e mais recentemente a produção de uma graphic novel, Mário trabalha em sua série chamada Entrequadros.
entrequadros_1

Ele já tem 3 edições feitas e partiu para a quarta e talvez a mais importante até agora, porque abrange um assunto pouco tocado nos quadrinhos brasileiros: LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexual e Travestis).

Mas, mas, mas… quadrinho não é coisa de menino? Quadrinho é uma forma de expressão? Quadrinho não é negócio? Quadrinho não é arte? Quadrinho não é literatura?

Não, sim, talvez. A única certeza que quadrinho é quadrinho. Para quê que ele serve, vai de cada um. Quadrinho antes de ser uma revista na banca, na livraria ou na tela de um computador, era tinta impressa em papel por uma máquina, riscos num scanner ou feitos diretamente num computador, e antes disso eram ideias na cabeça de uma pessoa. Ideias para ganhar dinheiro, ou apenas desabafos.

catarse-capa-cirandaMário escreveu desabafos, memórias ou apenas algumas pontas soltas entre os quadros. Decida você ao ler Ciranda da Solidão – Entrequadros, se quiser e puder apoiar o projeto dele no Catarse, uma plataforma de apoio online, onde sua colaboração em dinheiro rende um exemplar do álbum, que precisa atingir uma meta para ser impresso. Cada um que colaborar com uma quantia, tem direito a um prêmio, que vai desde o álbum digital ou impresso e cartões e diversos brindes.

Temos poucas histórias em quadrinhos que abordem a temática LGBT com o respeito merecido, e ainda menos quando falamos do Brasil, onde muitas histórias o gay e a lésbica só é representado como alívio cômico.

Talvez por isso brinquemos tanto chamando uns aos outros de gay. E foi aí que me bateu uma dúvida angustiante.

Um dia Mário disse na internet algo que me fez comentar com a minha esposa:

– Acho que o Mário é gay.

A Ana, escolada, falou:

– Lógico que é gay. Pelos clipes que ele põe no twitter dele, é mais que óbvio, né Estevão?

Eu fiquei preocupado. Difícil explicar, mas fiquei com medo de ter cometido uma grande gafe, e pensei:

“Se o Mário é quadrinhista e meu amigo há tempos, se ele fosse gay, eu saberia. E muitas são as chances de eu ter chamado ele de gay alguma vez em nossas conversas… Se bem que ele poderia muito bem ser gay, eu o conheço há anos, mas quantas vezes nos vimos? Quatro? Cinco? Mário? Gay?”

Me desesperei. “E se ele levou a mal?”

– Não, Ana! Mário não pode ser gay! Quantos quadrinhistas gays eu conheço? Nenhum! (Cartunistas, alguns, mas…) Quadrinhista é meio preconceituoso e quadrinhos é coisa de menino. Pelo menos era antes de eu começar nisso.

quadrinhos1

Na verdade, era antes de eu conhecer o mundo, antes de ver gays escrevendo histórias sobre gays em revistas do Lanterna Verde, Batgirl e Authority, só para citar alguns! E o que dizer de Laerte e a sua Muriel? No meu bairro talvez não tivesse, mas nem isso eu podia ter certeza. Em algum lugar na minha vizinhança devia ter alguém. Com certeza tinha.

Eu tinha duas preocupações:

Primeiro – Se Mário era gay, será que eu estava sendo um bom amigo, pois eu não lembrava se tinha chamado ele de viado alguma vez;

Segundo – Se eu perguntasse a Mário se ele era gay e ele não fosse, será que ele se ofenderia?

– Você não vai perguntar ao Mário se ele é gay! – Ana foi enfática – Não se pergunta a ninguém uma coisa assim!

– Mas, mas…

A pergunta ficou adormecida até o lançamento da Entrequadros na Blooks, em Botafogo. Saí do jornal e cheguei quase dez horas, a ponto de acompanhá-lo na saída da livraria para o cinema, onde ele ia ver um filme.

Segui com ele e a conversa foi animada, até chegarmos no cinema e eu lamentar:

– Nossa, você perdeu o horário de Fúria de Titãs…

– Não, mas eu vou ver Sex and the City 2 – respondeu.

Quando cheguei em casa, falei com Ana.

– Ana, acho que o Mário é gay.

Ela me deu a mesma resposta, me proibindo de perguntar.

Até que um dia, em São Paulo, fomos dar uma entrevista para o programa Fala + Joga, da TV PLAY, onde falamos de quadrinhos e demos uma sova na apresentadora nos games (NEERRRDDSSS!!!).

E no metrô, a caminho da casa dele, eu o parei e comecei a conversa mais embaraçosa da minha vida:

– Mário, preciso te perguntar uma coisa.

– Fala.

– Mas você tem que prometer não ficar com raiva de mim, independente da resposta.

– Fala, cara. Tá tranquilo!

Então eu pus a mão no ombro dele, olhei sério e perguntei.

– Você é gay?

Ele me respondeu calmo e instantâneo, sem dúvidas ou embaraço.

– Sou.

Eu abri um sorrisão de alegria e abracei meu amigo, que não entendeu nada!

Depois me expliquei, pedi desculpas se o chamei brincando de gay ou viado, mas logo lembrei que nunca o chamei assim. Sempre o chamei de bro (contração de brother), o que ele representa para mim no mundo dos quadrinhos.

É um irmão para mim.

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esquenta

Antes de começar um texto sobre racismo e as minhas posições eu preciso dizer por que o assunto me atinge.

Minha mãe desde cedo pregou que eu não sou negro, sou moreninho e por isso não devia levar em consideração qualquer piada ou restrição que existisse contra negros.

Mas na primeira besteira que fiz na rua (entortei uma cadeira do bar, aquelas de ferro, brincando com um amigo), eu ouvi do dono de uma padaria (branco, claro):

– Só podia ser preto.

Não adiantou eu ter pedido desculpas, ter desentortado a cadeira (bem, mais ou menos), o padeiro queria desabafar e soltou essa máxima que ainda hoje é possível ouvir essa barbaridade dessas sair da boca de alguns brasileiros.

Trauma registrado, vamos para o que interessa. Há uns dois anos ganhei ingressos para ver o Comédia Carioca e lá estava um comediante chamado Murilo Couto que, agora exercendo meu lado preconceituoso, se comportava no palco como um daqueles bullies que ficava no fundão da sala de aula, sacaneando outros moleques. Numa das suas piadas (poucas delas refletiam o stand up de verdade, que é analisar sua própria vida e costumes), ele falou que viu Péricles, na época no Exaltassamba, cantar sobre as noites de amor que viveu e a piada consistia em falar que ele só podia estar inventando, porque ele era gordo e feio…

Como eu falei, sou sensível ao assunto e na hora li nas entrelinhas um sussurro: preto!

Eu me senti duplamente ofendido, porque sou preto e gordo! Não, TRIPLAMENTE ofendido, porque sou preto, gordo e feio!!!

Por que cito o Murilo e o Péricles? Porque os dois estão bem empregados graças ao trabalho que desenvolvem: Um é roteirista e integrante da equipe do Agora É Tarde com Danilo Gentilli e o outro é integrante da equipe do Esquenta, da Regina Casé.

Mas o curioso é que, por mais que o programa do Danilo seja sobre piadas e muitas vezes os textos fazem piada sobre o comportamento do trabalhador, do gay, do negro, do político (por que não?) ou de uma celebridade, o programa é recebido com seus merecidos elogios, mas um programa como o Esquenta, que fala sobre a periferia, é tratado como algo ruim.

Um rapaz de um blog que não merece ser citado aqui diz que o Esquenta reforça estereótipos. Discordo, o programa não inventa a moda, só pega o que está acontecendo nas comunidades e levando para a TV.

O rapaz em questão é negro e diz que existem muitos negros poliglotas, apreciadores de música clássica, que gostam mais de livros do que de pessoas, e que nem sentem falta do feijão quando viajam.

Eu, com 34 anos nas costas e dois terços de minha vida morando em áreas pobres, preciso dizer que devo ter conhecido pouco menos de 10 negros que falam mais de duas línguas, talvez o mesmo tanto que leia mais de cinco livros por ano e sobre o feijão, é uma realidade econômica: o brasileiro está se alimentando mal, deixando de lado o arroz e feijão e caindo na massa ou fast food.

Isso não quer dizer que essas pessoas não querem aprender outras línguas, não se interessem pela leitura ou não gostem do bom e velho arroz e feijão. Para mim isso é apenas uma questão de oportunidade.

Assim como temos negros e negras que querem viver da dança e do futebol, temos brancos que, se pudessem, viveram disso também. Mas se você perguntar para as pessoas que dançam e cantam no auditório do Esquenta, eu tenho certeza que vai encontrar pessoas que querem ser médicos, taxistas, enfermeiros, empresários, lutadores, biólogos, professores universitários, ter uma loja de doces, uma padaria e, claro, ser cantor, apresentador ou dançarino.

Mas uma coisa todos eles sabem que são.

São negros e negras que finalmente estão se vendo na TV. Se não gostam do que vêem, façam melhor ou simplesmente desligue a TV.