dezembro 2013


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Eu sempre tive um grande orgulho da Hortifruti, um mercado que nasceu em Colatina/ES, em 1989, segundo a história de seu site.

Meu primeiro contato com uma loja da Hortifruti foi na década de 1990, quando eu, moleque, ficava na frente da loja na Reta da Penha, na ilha de Vitória. Minha família passava por grandes apuros financeiros (uma mãe abandonada e quadro filhos e um sobrinho dividndo 3 cômodos).

Eu, a exemplo de meus amigos,  tentava vencer a timidez e  me oferecia para carregar as sacolas de feira em troca de trocados. Passava mal cada vez que tinha que pedir. O “não” acabava comigo, minha cara queimava, mas os trocados garantiam os pães.

O Hortifruti que conheci sempre foi um lugar “chique”. Diferente dos “sacolões”, a galera tinha dinheiro para gorjeta, imaginem! Coisa que eu só via em filme!

Anos se passaram e eu comecei a trabalhar em jornal, o dinheiro entrou um pouco e eu fui morar do lado de um Hortifruti, na Praia do Suá, ainda em Vitória/ES. O lugar era acolhedor, preços que eu podia pagar e empregados prestativos, comunicativos. Todos os pesos, tamanhos e cores. Nunca vi problema algum ali, assim como não vi também no de Botafogo, já aqui no Rio, quando comecei a dar aula de roteiro nas redondezas e tomava meu café da manhã ali.

Mas se tinha  algo que me orgulhava mais no Hortifruti eram as propagandas, super modernas. Como roteirista de histórias em quadrinhos, a sacada da MP Publicidade, uma agência capixaba, passava uma sofisticação na linguagem digna de prêmio. E acho que ganhou alguns.

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A agência usou de todas as referências populares para passar que a empresa é moderna e está em sincronia com seus clientes.

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O problema é que essa imagem de moderna e que compreende seus clientes cai por terra quando um dos seus funcionários da filial no Leblon é dispensado na véspera do natal por ter feito um corte mais “ousado”, com as laterais mais curtas do que o topo.

Depois de um dia de trabalho, o chefe o dispensa, dizendo que irá descontar o dia trabalhado ainda. O que estamos vendo aqui?

Um rapaz, pelo que diz a nota da coluna “Gente Boa” do jornal O GLOBO de hoje (28/12/13), chorava, desejando Feliz Natal ao pessoal.

Como esse rapaz chegou em casa para cear com a família falando que perdeu o dia de trabalho porque alguém se vê no direito de opinar sobre o seu corpo? Ele tem que seguir alguns padrões de etiqueta, palavreados, como atender? Isso é algo admissível.

Porém impor um corte de cabelo é algo extremamente discriminatório.

ATENÇÃO CONSUMIDORES: A partir de um momento que um funcionário, que é uma pessoa e, consequentemente, um consumidor, não é aceito na loja em que trabalhava por causa de um corte de cabelo, para mim isso é um claro sinal de que consumidores com cortes de cabelos similares também não são bem vistos lá. Na loja. No Hortifruti. No LEBLON.

Já tive orgulho de dizer que essa rede de lojas, nascida em Colatina, que fez história no Espírito Santo e na propaganda brasileira. Agora, ao ver no que esta “marca” se tornou no Rio, me dá nojo.

[EDITADO] Garoto foi dispensado, não demitido.

Venho falar de um argumento recorrente sobre os negros e uso um caso conhecido de todos para ilustrar.

Dia 30 de novembro de 2013 ocorreu um evento com carros de som no píer na Praia do Suá, atrás do Shopping Vitória. Segundo meu irmão, que é policial militar, a central recebeu orientações para reforçar a segurança em torno. Houve também uma denúncia de tiro no local, causando uma comoção geral e fuga para o Shopping Vitória.

Uns dizem que foi tiro, outros dizem que eram pessoas fugindo da polícia por causa de drogas. Não importa o motivo, e sim o que ocorreu depois: um grupo entrou para o shopping para fugir/se abrigar/ e causou pânico geral.

As informações desencontradas vão que os “vândalos” ao entrarem derrubaram lixeiras a cenas do filme Carandiru, mas vou me ater a um ponto de vista, de um amigo meu que trabalha na segurança do Shopping.

“Éramos poucos e eu estava lá fora. Assim que a galera entrou, fomos abaixando as portas e afastando o pessoal que queria entrar a base de cassetete e taser (arma de choque). Dei chute em muita gente.”

Quando argumentei com ele sobre o tratamento, que se houve racismo, ele, pardo como eu, falou:

“O problema do negro é que ele sempre se diminui. Diz que tudo acontece com ele por causa da sua cor. Ele mesmo é seu próprio problema, não tem ambição. O negro é mais racista do que o branco.”

Não é a primeira vez que ouço essas palavras, com algumas modificações. “Os negros são mais racistas”, “negro não corre atrás”, “negro se autodeprecia” e “negro não tem ambição”.

Tem razão. Negro não tem ambição. Geralmente, eles se contentam em poder pagar a sua televisão de 40 polegadas em dezenas de prestações, desesperado em perder seu crédito no caso de atraso.

Eles se contentam em pegar o ônibus lotado e às vezes riem de alguma dondoca indignada que precisou entrar no ônibus.

Eles constroem suas próprias casas, fazem um puxadinho para os filhos, e a primeira coisa que pensam quando estão trabalhando é “conseguir comprar uma casa para a sua mãe”.

Alguns deles se metem com o tráfico, porque é muito triste ver o tênis que ele gostaria de ter custar tanto que a parcela de sua TV.

Muitos deles gostam do funk porque fala de sua realidade. “Ele quer ser feliz andando tranquilamente na favela onde ele nasceu.”

Outros gostam do samba porque também fala de sua realidade. “Batucada boa, cerveja gelada, e mulher bonita, quem é que não gosta?”

Sua ambição é ter uma moto. Ter um carro. Um som potente para o seu carro. Uma garota. Dinheiro bastante para fazer um churrasco final de semana. Quer pedir pizza. Quer McDonalds.

Ele quer ensino pro moleque dele não passar pelos perrengues que ele passou. Não tem escola pública? Ele quer por o menino numa escola com um precinho acessível.

Quer o menino com roupa legal para os amiguinhos não os tratarem mal.

Outros querem a faculdade. Acham que assim vão conseguir melhorar de vida. Muitos entram por cota. Muitos conciliam trabalho e estudos. Poucos se formam.

E a negra? Puxa, ela quer seu celular com internet. Ela quer ter roupa legal, para tirar foto, compartilhar e arrasar.

Ela quer o dela. Quer trabalhar, quem sabe ter o seu próprio negócio? Ela quer namorar, quer um cara que faria tudo para ela. Quer vida de princesa. Vida de princesa é ter sua TV, não faltar os móveis, não faltar nada na geladeira. Uma piscina de fibra de vidro no quintal.

Ela quer sair, quer curtir, quer viver. Quer postar seus vídeos dançando na internet. Quer milhões de acessos. Sem fazer mal a ninguém, quer ser conhecida. Ela quer mandar um alô para as recalcadas.

Algumas são recalcadas. Querem se dar bem, querem marido, querem quem banque. Elas não estão erradas, quem quer, corre atrás.

Ela quer estudar. Quer faculdade, curso técnico, quer ser doutora, quer fazer serviço social, quer voltar à favela, quer montar uma ONG, quer dar uma vida diferente da sua para a criançada.

Seria uma injustiça dizer que é “só isso” que querem os negros e as negras deste país. Eles mais.

Não posso dizer também que é um mundo de bem intencionados. Os chefes de tráficos nos morros, em sua grande parte, são negros ou mestiços.

Uma vez o Júnior, da dupla Sandy & Júnior, disse uma frase no Programa Livre (ou no Altas Horas), em que afirmava que os traficantes têm uma inteligência acima da média (eles são geniais, nas palavras dele), por pensarem ações, em formas de se comunicar com as pessoas, e que essa inteligência deveria estar sendo usada em favor da comunidade.

Mas pensamos: como um negro pode ajudar a sociedade, se ela está organizada para que os negros não cheguem a postos em que fazem realmente diferença na vida da população?

Quantas empresas temos gerenciadas por negros?

Quantas cidades temos cujo o prefeito é negro ou pardo?

Quantos vereadores negros temos? E quantos desses vereadores poderão chegar a serem deputados? Senadores?

O quanto um negro precisa ser corrompido para chegar ao poder?

Quantos secretários municipais, estaduais, quantos ministros negros temos?

Onde você consegue achar negros? Professores de escolas e diretores (conheci um!), cargos de baixa patente da Polícia Militar, garis… Quando algum médico negro aparece, como os cubanos, são “acusados” de terem caras de empregadas.

Aí, eu te pergunto: Quem decide o preço da passagem? Quem comanda o BNDES? Quem causa rombo nos cofres públicos? Quantos nomes existem no mensalão? Quantas empresas são pegas com gatos de energia, quantos restaurantes chiques têm comida com prazo de validade vencida em seus congeladores, quantas empreiteiras usam material de segunda em suas construções, quantas empresas fraudam licitações, quantas empresas entregam remédios estragados para a população carente?

E quantas delas são de um proprietário negro?

Então, pense um pouco: o que você chama de ambição? Querer mais do que é necessário? Porque o os valores que vemos serem desviados seria o bastante para uma família viver bem por gerações. E mesmo assim eles não param.