julho 2010


Olá, pessoal. Gostaria de compartilhar um conto com vocês, que acompanham este blog semiabandonado. Pior ainda com a comemoração que resolvi fazer em Os Passarinhos, fazendo uma tira por dia.

Este texto era para eu enviar para o concurso Contos do Rio, mas quando li o regulamento, constatei que não podia participar porque havia publicado um livro. Para não ficar perdido em meu hd, aqui está:

Carinhoso ao fim do mundo

Por Estevão Ribeiro

– Você vai ficar quanto tempo por aqui? – Perguntei ao homem sentado em frente ao metrô da Carioca.

– Até o fim do mundo, se deixarem. – Responde, com um sorriso amarelado. Eu perguntei se ele ficaria ali tempo o bastante para eu ir ao banco, pagar umas contas. A intenção é dar o troco pra ele, pelo bom trabalho realizado ali.

Aquele senhor, que não dá para saber se é escuro assim mesmo de nascença ou se tem a pele castigada por esse sol cruel do Rio, deixando evidentes os descuidos consigo mesmo.  A cabeleira, que mais parecia um arbusto seco e retorcido de sua cabeça, necessita de uma paciência invejável para manter, ou um desapego total da sua imagem.

Mas não posso dizer que aquele homem, que infelizmente não perguntei o nome, era desleixado. Era só olhar o cuidado que ele tinha com o seu saxofone.

– Foi presente do Jô! Sabe aquele apresentador “forte”? – Ele quis dizer “gordo”, assim como as amigas da minha mãe faziam quando me viam. – Ele está fortinho, né?

Não. GORDO. Eu estava gordo. Eu ainda estou gordo. E o Jô? TAMBÉM é gordo.

Desculpe a confusão, é difícil formular pensamentos ao som de “As rosas não falam”, tocada de forma gutural no sax. O cara sabe fazer aquele instrumento gritar como a Elza Soares, estranhamente apaixonante. Gostaria de conseguir tirar da pequena gaita que levo na bolsa um décimo do que aquele homem tira de seu instrumento. Eu a acaricio duas ou três vezes, contendo o impulso de tirá-la da bolsa e tocar seja lá o quê ali.

Mas o tempo era curto para mim, que ia ao banco. As contas não esperariam tanto quanto ao senhor do sax na Carioca. Dei as costas e substitui o maravilhoso som daquele instrumento pelo do rádio de meu celular. Entre uma música e outra, a notícia de uma nuvem formando no céu, que já cobria boa parte do Estado, em forma circular, vindo da Europa. Cada novo informe parecia ter o cuidado de mostrar que se tratava de um fenômeno desconhecido, mas que os maiores cientistas do país estavam empenhados em descobrir a origem daquilo.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi: Por que nossos pesquisadores estão empenhados em descobrir se essa nuvem veio da Europa e eles certamente podem nos dizer o que é?

Como se o locutor da rádio tivesse ouvido meus pensamentos, ele me põe a par da situação:

– Milhares de pessoas tentam fazer contato com a Europa, a procura de notícias, mas todas as comunicações foram interrompidas.

Eu olho para a mulher no caixa batendo no monitor. Parece que o sistema não está funcionando. Os rostos de interrogação se repetem nos outros caixas e a minha mente conspiratória começa a funcionar. Dentro de um banco não me parece ser um bom lugar para estar no momento de pânico e eu estava começando a entrar em um.

Passei pela porta giratória com dificuldade e encontrei uma rua cheia de pessoas assustadas olhando para o céu, ao longe, a nuvem se aproximando. Meu rádio parou de funcionar antes que terminasse a declaração do prefeito do Rio sobre a nuvem que se aproxima. – Fiquem em ambientes cobertos e fechados. – Dizia o homem. – Não vamos deixar acontecer aqui o que aconteceu nas maiores cidades do mund…

– E o que aconteceu? – Pergunto ao rádio mudo. Tento ligar para minha família, mas já prevendo a falta de sinal.

Os carros parados com cidadãos irritados dentro deles mostra que, o que afetou meu celular os afetou também. A paisagem ainda soa familiar. Pessoas de amarradas ao volante.

Corro para a entrada do metrô da Carioca, vejo que o problema persiste por lá. Centenas de pessoas subindo as escadas, reclamando que tiveram que andar pelos túneis e trilhos para chegar à estação. Um trem com problemas? Ainda familiar.

Mas com toda aquela movimentação, o senhor do sax não estava lá. Fui seguindo a multidão em direção ao Largo da Carioca, em passos apressados, fugindo da nuvem que avançava lentamente, cobrindo tudo o que a minha vista alcança.

No meio da multidão, ouço o som do sax novamente. Ele tinha ido para um lugar mais aberto, mas ainda estava. Penso se devo ficar por aqui, onde ele resolveu reverenciar o desconhecido. Sem poder me despedir da família e percebendo da inviabilidade de caminhar por mais de vinte quilômetros até minha casa, acho que ficar por aqui será a melhor pedida.

Assim pensado, tiro minha gaita da bolsa. O senhor me olha.

– Sabe tocar isso?

– Pouca coisa. – Respondo.

– Tipo o quê?

– Carinhoso, de Pixinguinha.

– E de João de Barro.

Eu acenei com a cabeça enquanto molhava os lábios e encaixava a gaita na boca.

Ele me responde com uma bela introdução, fazendo um sinal com a sobrancelha para que eu comece a tocar.

E assim fiz enquanto a nuvem se aproximava.

Ontem recebi uma notícia boa de uma livraria em Vitória.

As últimas edições de que tenho notícia de Contos Tristes foram vendidas. 53 exemplares vendidos para a Prefeitura de Vila Velha, para as bibliotecas locais (imagino).

Esta publicação, que demorou mais quase cinco anos para ser publicada, nasceu de um projeto híbrido de quadrinhos com literatura.

A idéia era fazer uma história troncal em prosa, onde um médico legista sem respeito pelos mortos está pronto para abrir uma garota. Só que ela acorda e apresenta a história de cada um dos mortos daquela sala. Estas histórias eram em quadrinhos curtas, umas em diálogos, outras em versos, mas todas em quadrinhos. Cada uma com um artista convidado.

Mas quando se mete num trabalho grande, com a participação de pessoas num esquema de cooperativa (ou seja, sem grana, apenas a garantia de publicação e uma quantia de exemplares), precisamos estar dispostos a esperar. Esperar muito.

As histórias em quadrinhos estavam prontas, a parte em prosa não saiu por causa do excesso de trabalhos na época.

Deixei Contos Tristes de lado até os artistas me entregarem o trabalho. Alguns demoraram semanas, outros meses, outros não entregaram. Assim, um projeto inciado em 2003 ficou incompleto até 2007.

Até que surgiu o Prêmio Capixaba de Literatura, com prêmios em diversas três categorias: Romance, Poesias & Crônicas e Infanto Juvenil.

Peguei o projeto, retomado quando encontrei Mário César (Entrequadros), que ilustrou a última história pendente (as outras foram resolvidas com contos em prosa, poemas e ilustrações) e o coloquei no Prêmio.

Resultado: 2º lugar na categoria infanto-juvenil. Prêmio: 500 exemplares por uma obra incompleta.

Mais tarde, uma indicação para o HQMIX como melhor álbum independente especial.

Agora que Contos Tristes esgotou (temos apenas alguns exemplares na Comix, HQMIX e TRAVESSA), penso se vale à pena republicar o trabalho como deveria ser: um livro intercalado por quadrinhos. Será que rola?

Enquanto não decido, fique com a última história a ser feita: A Demente.

Existe uma curiosidade sobre esta hq. Por algum tempo, ela foi “amaldiçoada”.

Três desenhistas pegaram para desenhar, mas todos a deixaram, impedidos por compromissos. O Mário foi o quarto, e logo depois Contos Tristes foi publicado.

Quatro anos e meio depois de eu ter começado um projeto onde não tinha espaço para finais felizes.

CONTOS TRISTES saiu no final de 2008, com 52 páginas, capa colorida, miolo p&b e muitas lágrimas.