abril 2014


lupita

Eu preciso dizer umas palavrinhas sobre o que tem saído na rede esses dias, até porque uma coisa está batendo na outra e fica parecendo que é tudo uma coisa só. E é.

Lupita Nyong’o é considerada a mulher mais bonita do ano segundo a revista “People”. O dançarino Douglas DG leva um tiro, enquanto fugia de um tiroteio da PM.

E tem a surpreendente resposta de Daniel Alves ao ato de racismo do torcedor do Villareal.

Uma mulher negra é considerada bonita e encontrei comentários na rede como “Não é a mais bonita, mas eu traçava”. Outro respondeu “Prefiro virar padre”.

Não existe uma resposta certa para “quem é a mulher mais bonita do mundo?”, ou do ano, do século. A pergunta mais justa a fazer seria “precisamos eleger uma mulher como a mais bonita do ano?”

A pergunta foi feita, uma negra ganhou pelo conjunto de qualidades, além da relevância em seu papel como mulher negra no cinema. Aplaudem uns, reclamam outros. O mundo não está um pouco mais negro, apenas tirou um pouco da poeira da vitrine que nos esconde.

Num artigo do André Forastieri, ele questionou na parte de comentários a falta de jornalistas negros nas redações. Eu respondi que existem brancos mais preparados para entrar nas faculdades de comunicação por virem de escolas particulares ou cursinhos. Um indivíduo entrou na conversa dizendo que os negros não correm atrás, que gastam seus recursos com celulares, tênis e roupas.

Coincidentemente eu havia assistido um trecho de um documentário da GNT sobre a prostituição em Salvador. Eu vi a história de duas mulheres negras.

Uma veio de Feira de Santana, aos 14 anos e se prostitui desde então. Sonha reencontrar um gringo que viveu com ela por cinco meses.

A outra tem 35 se prostitui desde os 12. Diz que prefere os brancos a negros, porque negros querem machucar na hora “do amor”. Os brancos são mais amorosos.

Ao ser perguntava se preferia casar com um branco ou com um negro, ela disse:

– Com branco, né? Para “limpar” um pouco a família.

Esse pensamento não é exclusivo da prostituta.

Ninguém quer viver numa condição que a desfavorece. Minha família sempre me dizia “você não é negro, é moreninho”. E um padeiro, branco, me disse uma vez, num episódio desabonador: “preto é tudo igual, mesmo…”

 

O caso do DG é complicado. Dizem que ele andava com traficantes, freqüentava festas, outros dizem que ele tinha passagem pela polícia…
Mesmo que isso tudo fosse verdade, não seria menos triste a morte de um cara que desenvolve um trabalho artístico.

Deixa eu te contar: TODO MUNDO, senão MUITA GENTE que mora nas grandes cidades conhecem um traficante, um usuário, um lugar onde acontecem coisas ilícitas, mesmo que de vista. Em todos os lugares que morei vi amigos virarem usuários e trabalhar com o tráfico, assim como vi pessoas trabalharem em diversas áreas.

Ninguém deixa de conversar com uma pessoa pela sua opção, ainda mais num ambiente complexo como são comunidades, onde todo mundo se conhece. As pessoas respeitam suas opções e tentam tocar a sua vida como podem.

É uma questão de escolher, mas como convencer um cara que ganha uma grana R$ 500,00, Mil Reais por semana, a ganhar R$ 800,00 por mês, agüentando patrão te chamar neguim, ou te fazer a atração do local?

Como convencer uma garota do morro a estudar e trabalhar num banco ganhando R$ 1.750,00, segundo a Fenabran, sendo que ela pode ser mulher de um cara que ganha R$ uns 5.000,00 na favela? Ou

A vida de “otário” que levamos não seduz, da pessoa que vê o político roubando e se iludindo, dizendo que a culpa é deste ou de outro partido, quando a culpa é de todos os envolvidos.

Vi por muito tempo jornalistas chorando nos corredores, outros emendando um cigarro no outro por pressão. Quem morre primeiro, o jornalista ou o bandido? Certamente o bandido, mas ninguém vive bem.

Sobre o episódio do Daniel Silva: Eu nunca fui chamado, com todas as letras, de macaco. Isso não quer dizer que eu já não tenha sido tratado como um macaco. Mas o que me deixa mais chateado é que eu já agi como um. Diversas vezes.

Principalmente quando eu estava num lugar onde eu me sentia deslocado, ou devido a tanta coisa que enfiam em sua cabeça a vida inteira, você as vezes cede e acredita, mesmo que por um segundo, que não merece estar ali. Você acaba tentando ser interessante, falar do que faz, faz ao vivo o que pedem.

Um dia uma jornalista me pediu uma ilustração para a matéria dela. Como a história era interessante, a ilustração rendeu, a ponto da repórter dizer:

– Nossa, que bonito! Vou te dar um bombom!

Eu a olhei e disse:

– Obrigado, mas sabe que sou pago para faze isso, né? Sou um funcionário, como você…

Preto e gordo, dá a impressão que é pago com chocolate mesmo, né? Me senti um daqueles macaquinhos, fazendo macaquices em troca de alimento.

O outro episódio foi num evento de quadrinhos, onde saí para beber com uns amigos e conhecidos de internet. Quando o cara viu um negro, gordo, com barba e boné, falou:

– Ed Motta!

Ele não era nem o vigésimo quinto cara a fazer a brincadeira, mas para me enturmar, fiz uma vocalização do cantor. Banquei o mico de circo.

Foi o bastante para, cada vez olhava para mim naquela noite, ele falasse comigo:

– Faz o Ed Motta!

E eu, como um macaquinho, fiz mais umas duas vezes. Ele me pediu novamente e eu o olhei:

– Sério que vai ser isso a noite inteira? Já deu, né?

Não fiquei mais tão divertido. Ainda fiquei com raiva de mim por não ter feito aquilo antes.

Em muitos casos, o negro não consegue chegar a outras classes sem experiências traumáticas. Seja o preconceito durante o processo, o passado que lhe martela as faltas de recursos, ou o simples fato do exótico chamar mais atenção do que o talento.

Os negros que ascendem camadas podem ser: revanchistas sociais, preconceituosos contra brancos ou negros, ou ser a sensação do ambiente social e profissional. Ganha um apelido, grita, conta causos, dá show, faz a alegria da galera. Eu me encaixo na última categoria e continuo bancando o bobo alegre de vez em quando. Macaco, nunca mais.

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tio

Imagino você, que entrou neste blog para rir um pouquinho, queira rir. Mas se olhar os posts anteriores, vão pensar que este pos té mais um daqueles deprês de aniversário… Bem, este post tem um pouco de tudo. Espero que aproveite.

Amanhã, dia 2 de abril, é o meu aniversário. Este post foi escrito no dia primeiro de abril, sob tiros nervosos do morro, que se encontra à direita do meu escritório, uma quadra acima da minha casa. É bom citar isso porque estou nervoso, nunca ouvi tantos tiros. Porém, vamos tentar contar a história.

Tem mais de 3 semanas que eu tenho feito caminhadas regulares, quatro dias por semana, com alguns exercícios que não me deixem morto o bastante para desistir. Morto. Péssima escolha de palavras quando se ouve tiros…

O mal de um cara que quer mandar embora de seu corpo 10, 20, 40 quilos adquiridos ao longo dos anos é pensar num resultado a curto prazo. Queimamos etapas, distendemos músculos, reclamamos do tempo e perdemos o ânimo. Aí, volta a promessa que, em alguma segunda-feira, vamos recomeçar.

Ontem foi a minha quarta segunda-feira seguida. Encaixo a minha caminhada entre as aulas de inglês e a natação do meu enteado, que acontecem de segunda a quinta, próximo ao Horto do Fonseca, num horário sem os atletas de plantão nem passeios de cães. Às vezes encontro um ou outro rosto conhecido, e ali andamos sem julgamento. Somos alguns corpos envergonhados e desengonçados correndo atrás do prejuízo no meio da tarde.

Mas tem uma coisa que, vez ou outra, atrapalha a paz: adolescentes. Seus hormônios em ebulição fazem do Horto um lugar para fugir das aulas e namorar. E desfilar nossos corpos em frente tanta juventude tem um preço. Risos contidos, olhos raivosos por testemunharmos às investidas ousadas dos garotos. O som do celular, geralmente um pancadão, com letras ditando e ensinando o traçado, mostram um pouquinho do que eles querem. O que elas também querem. E por ali eu passo, imaginando que, naquela idade, os foras que levei foi por professar amor, meu fascínio. Naquela idade eu não me achava digno de usar as melhores palavras para descrever o que meus hormônios queriam de fato, hoje dito escancarado, ensinado.

“Eu nasci no tempo errado”, vivia dizendo para mim mesmo. Mas o tempo que eu queria ter nascido eu também não me encaixaria.   Se sou um cidadão perdido no tempo, e cada via mais perdido em meus sonhos, decidi que nada me impediria de seguir meus planos. Quando um grupo de adolescentes utilizavam as estruturas de exercício de banco, resolvi iniciar uma conversa.

– Mocinha, com licença, posso me esticar aqui? A garota saiu das barras usadas para alongamento. Minha bermuda, gasta, tinha um buraco nos fundos. Os garotos estavam sentados na frente do aparelho.

– Olha, agora vocês vão ver algo não muito agradável. Estiquei a perna, mostrando os fundilhos furado. Claro que não se via nada, era um buraco na perna.

– AHHHH!!! – Os olhos dos moleques queimaram.

– Isso não doi? – Perguntou a garota, A menina me viu eu esticar a perna.

– Dói pacas, falei para a garota, para delírio geral. Eles continuaram conversando, me vendo fazer flexões. Não no chão, porque ainda estou pesado demais para apertar tanto o ritmo. Queimar etapas, lembra? Fiz 10 flexões numa barra a 30 metros do chão. Depois fiz mais 10. Depois mais 10. Mais 10. E mais. E mais…

– Ô tio, descansa uns 30 segundos. O senhor não tá descansando nem cinco, vai cansar e não adianta nada para os músculos.   Aí, meu mundo deu uma caída. Quando um rapazinho na rua te pede dinheiro te chamando de tio, é uma ofensa. O rapaz mostrou preocupação, quase num tom corretivo, como faço com a minha mãe, quando ela banca a experiente irresponsável.

Aceitei o conselho e a alcunha de tio. Quem tem um sobrinho casado não pode fugir do título, ainda mais tão próximo de completar 35 anos…