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Sabem aquela expressão “você é de casa?”

Nunca funcionou tão bem quanto agora. Apesar do meu contato com redação de jornal ter começado no Notícia Agora, que pertence à Rede Gazeta de Comunicação, para onde eu produzi 386 páginas de quadrinhos, foi no jornal A Tribuna que eu trabalhei de fato e ativamente com a notícia.

Eu produzia infográficos, dando forma e cor à alta do dólar, queda e aumento de popularidade de políticos, esclarecia para o leitor como ocorreu certo acidente, como funcionaria o trânsito graças àquela festa ou manifestação… Vivia no departamento de arte (Zota e eu), junto com a galera do tratamento de imagem (Sérgio, Luís, Lúcia, Augusto e Renan…), com os armários dos fotógrafos, com o chargista Pater… O ambiente era ótimo, longe das pessoas que escreviam.

recomendaEu tinha uma gana por escrever no jornal, deixar, de vez em quando, de ser um dos “meninos da arte”. Qualquer redação vão chamar a galera da arte assim. Um com 70, outro com 48, outro com 23, mais de duzentos anos somados transformados em garotos.

É ótimo, pensando agora, mas o complexo de vira-lata me fazia pensar que achavam que valíamos menos por desenhar, por tratar fotos, por não seduzir as pessoas pelas palavras. Eu entrei nA Tribuna em novembro de 2003. Mais de dez anos depois, tenho aparecido nesse jornal como um filho orgulhoso que manda uma carta para casa, dizendo que está longe, mas que está tudo bem. Aqui estão duas “cartas para casa”. Vejam aí!

A primeira é uma notinha na coluna “No Tom”, que saiu no dia 06/07, onde recomendo um CD… peculiar. Clique na imagem para ampliar!

Já a segunda é um artigo para o AT2 Livre, dando a minha opinião sobre a missão do autor de histórias em quadrinhos.

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Minha primeira experiência numa bienal foi em São Paulo, quando encarei 14 horas de ônibus na viagem mais longa que havia feito na minha vida até aquele momento. Eu tinha 25 anos e ainda morava em Vitória, no Espírito Santo.

O primeiro desafio foi vencer o enjôo. A labirintite não me deixava ir de Vitória à Serra, municípios vizinhos, imagine sair do Espírito Santo, cruzar o Rio e chegar em São Paulo. Foi um horror.

E o que eu estava fazendo indo a uma feira tão longe de casa? Fui levar os primeiros cinco capítulos de A Corrente, impressos como um zine. Fiz 50 cópias e distribuí para todas as editoras que eu via como promissoras: E era louco ver todas aquelas pessoas juntas num imenso pavilhão. Livros, livros e mais livros. E um cara totalmente perdido por lá. Mas adorei. No primeiro dia, eu paguei para entrar. R$ 8,00 uma entrada inteira por bancar o esperto. Uma fila havia sido aberta para quem tinha R$ 8,00 trocados. Fui lá e paguei, me sentindo o máximo.

Naquela época eu havia publicado o Tristão, meu personagem em quadrinhos em duas edições: pela Escala e um minigibi independente e encontrei no estande da Devir uns conhecidos de internet, todos com crachás. Senti uma inveja, porque eu os reconheci, mas não fui reconhecido.

Aí percebi como um pedaço de papel em volta do pescoço com o seu nome pode fazer diferença. No dia seguinte, fui no balcão e apresentei minha revistinha do Tristão (unica que tinha!) e ganhei minha credencial como autor. A própria menina da recepção me tratou diferente: – Ah, você faz quadrinhos? Que legal!

E desfilei com aquele pedaço de papel pendurado. E naquele universo de milhares de amantes da literatura, fui reconhecido por uma. Roberto Guedes, que estava no estande da Comix. Ah, e pelo próprio dono da Comix, o Jorge. Missão cumprida, credencial!

Então, desde 2004 a minha diversão estava sendo ir à Bienal de São Paulo e desfilar com meus quadrinhos (acabava lançando algo a cada 2 anos mesmo) e fazendo contatos, e cada vez mais pessoas me conheciam e reconheciam.

E em 2007, fui pela primeira vez à Bienal do Rio. Nessa viagem conheci a Ana e o resto é história: Hoje moro no Rio e tento sempre ir às duas Bienais: Rio e São Paulo.

Mas na de 2011, algo aconteceu. Quando fui lá, tentar a minha credencial, me disseram que não dariam mais credenciais aos autores (talvez pelo número crescente deles nos eventos), e receberíamos um pequeno ticket que daríamos na bilheteria e entraríamos de graça.

E aí começou o diálogo mais egocêntrico da minha vida:

– Oi.

– Oi, em que eu posso ajudar?

– É que eu sou autor e queria uma credencial.

– Não estamos dando mais credencial, é um ticket e você entrega lá na bilheteria.

– Mas aí eu não terei uma identificação?

– Não, mas vai entrar de graça.

– Mas não venho aqui para entrar de graça, menina. Eu gostaria de ter uma credencial.

– Não damos credenciais, senhor.

– Mas você não está entendendo: um dos poucos prazeres que tenho nesta época do ano é desfilar por esses corredores cheios de livros com uma credencial de autor. Isso me faz feliz, me mostra que também faço parte deste evento.

– Mas não damos credenciais, senhor.

– Mas você não entendeu. Eu não sou Mauricio de Sousa, eu não sou ZIraldo e muito menos a Thalita Rebouças. Ninguém ali irá me reconhecer porque meus trabalhos ainda não alcançaram a visibilidade que bote esta carinha linda em um jornal, na TV ou um cartaz de editora. Portanto, minha única alegria é quando encontro um fã perdido em meio a essa galera imensa e ele olha para a minha credencial e me diz: “Você é o autor de A Corrente, você é o autor de Os Passarinhos, você é o autor do Tristão”.

– Mas eu não posso fazer nada, meu senhor.

– Você pode sim, porque um dos poucos prazeres que eu tenho nesta época do ano…

E cada vez que a garota falava que não podia fazer nada, eu dizia:

– Você não está entendendo, um dos poucos prazeres…

Aí, ela me passou para uma outra pessoa, que me perguntou o problema.

– Um dos poucos prazeres…

E me passaram para a gerência da Fagga Eventos:

– Um dos poucos prazeres…

Então, me disseram:

– Ok, já entendi! Podemos te dar uma credencial de profissional do livro.

Desfilei com a minha credencial no primeiro dia de evento, com a palavra “Autor” debaixo do meu nome.

Quando alguns autores, que não conseguiram o mesmo, me perguntaram o que fiz para conseguir a credencial, eu disse:

– Um dos poucos prazeres que eu tenho…