julho 2014


chamada

Só agora percebi que já se passaram cinco anos da publicação do meu primeiro livro em prosa, chamado “Enquanto ele estava morto…”.

Nesse livro fininho, eu narro os nove dias em que passei procurando pelo meu irmão, após eu receber um telefonema da minha irmã, com a informação de sua morte num garimpo na Bahia. Paralelo à procura, eu revisito as minhas memórias de uma família desestabilizada: mãe abandonada pelo marido com seis filhos, sendo eu, o mais novo, com seis meses de idade.

O livro foi publicado graças a uma lei de incentivo à cultura de Vila Velha, no Espírito Santo, estado de onde vim, e teve a tiragem de 1.000 exemplares, esgotados há três anos.

Para comemorar os cinco anos de sua publicação, contarei cinco curiosidades sobre o livro.

1 – Estreia como ilustrador autoral

Amante dos quadrinhos como sou, sempre desenhei e trabalhei em jornais fazendo ilustrações editoriais, mas não me sentia seguro o bastante para desenhar minhas próprias histórias, naturalmente mais longas.

O problema é que me faltava referências visuais (fotografias) minhas para que um ilustrador me desenhasse na estevao31minha infância. O que acontecia com freqüência é que me desenhavam gordo e de óculos, características adquiridas e nunca mais abandonadas a partir dos 20 anos.

Como era difícil explicar as características de muitos dos meus parentes e amigos representados no livro, eu resolvi desenhá-lo. Pela primeira vez eu realizei um trabalho onde eu era responsável pelo texto e pela arte. Essa experiência viria se repetir no ano seguinte, com a criação da tirinha Os Passarinhos.

 

2 – O livro foi financiado pela prefeitura de Vila Velha (ES), mas foi finalizado em Niterói (RJ)

Eu havia decidido a me mudar quando recebi o resultado de que o meu trabalho havia sido escolhido. Comecei o processo de diagramação do livro, mas o prazo apertou e eu precisava entregar a casa alugada em Vitória/ES. As ilustrações foram feitas nas primeiras semanas no bairro de Santa Rosa, em Niterói e impresso na Gráfica A1, em Vitória.

 

Noé, meu irmão do meio!

Noé, meu irmão do meio!

3 – Foram apenas oito pessoas no lançamento, mas foi inesquecível

Uma das regras do recebimento do recurso de produção do livro é que o lançamento fosse realizado no município de Vila Velha. Depois de olhar os dias disponíveis da única livraria que eu conhecia no município, fiz o lançamento na tarde de quinta-feira no centro da cidade. A maior parte das pessoas que eu conhecia morava em Vitória ou na Serra, cidades vizinhas, e estavam trabalhando naquele momento.

Em uma hora de lançamento apareceu apenas um vereador, para comprovar que o livro foi lançado – e não comprou um exemplar. Meia hora depois apareceu um amigo e logo foi embora. Quando eu estava recolhendo as coisas para ir embora, apareceu meu irmão e sua família e a minha irmã mais velha, juntamente com meu sobrinho. Essas duas famílias não se viam a quase 20 anos, devido a uma briga.

Graças aquele lançamento, eles se viram e conversaram, deixando para trás uma parte amarga da nossa história.

 

4 – Segundo livro escrito, primeiro livro publicadoestevao10_small

Na minha carreira como quadrinhista até o momento que escrevi “Enquanto…”, eu já tinha escrito roteiros para mais de 500 páginas de quadrinhos, mas nunca havia publicado um livro em prosa. Apesar do livro onde conto as minhas agruras ter sido o primeiro publicado, ele foi o segundo a ser criado, em fevereiro de 2007, e levou um mês para ser escrito.

Porém, o thriller paranormal “A Corrente” começou a ser escrito em março de 2003, terminando um ano depois, sendo assim, meu primeiro trabalho em prosa, lançado apenas em 2009, um ano depois de “Enquanto ele estava morto…”

É verdade que em 2008 eu reescrevi boa parte de “A Corrente”, inclusive mudando o final,mas isso é conversa para outra hora.

 

5 – Le0altoitores ilustres

Quando eu anunciei o livro numa lista de discussão de roteiristas de TV, um senhor me pediu informações de como podia adquirir o livro.

Eu, sem titubear, pedi seu endereço e enviei o livro. Dias depois, ao perguntar se o livro havia chegado, recebi a seguinte mensagem, da qual retiro alguns trechos, editados por causa de spoliers:
“Caro Estevão.

Não só recebi, como li e gostei. Muito legal.

Muito interessante o leitor conhecer a personalidade dele, com seus contrastes à medida que a leitura progride.


Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos quando você prefere caminhar alguns quilômetros, para não pedir dinheiro a ele e ele não deixa que você se vá sem oferecê-lo. Parabéns. Tomara que seu livro tenha bastante sucesso.

 

Abraços

Roberto Farias”
Eu não havia ligado o nome a pessoa, mas Roberto Farias é irmão de Reginaldo Faria e um dos grandes cineastas de nosso país, e entre os filmes que dirigiu, estão alguns da série “Roberto Carlos” (em Ritmo de Aventura, e o Diamante Cor de Rosa, a 300 Quilômetros por Hora), Os Trapalhões e o Auto da Compadecida, Pra Frente Brasil… Foi havia sido uma honra ver alguém tão interessado em dar um retorno sobre a leitura, mas foi o máximo saber que a pessoa em questão tinha feito tanta coisa dentro de uma área que admiro demais.

O outro grande leitor foi uma pessoa que citei no livro. Lázaro Ramos.

Em uma passagem do problema que me meti, devidamente narrado no livro, já estava imaginando que, estevao17daquela experiência traumática, faria um livro, e que esse livro viraria um filme. Enquanto eu andava pelas ruas de Vitória imaginando como eu resolveria a situação, eu imaginava Lázaro Ramos me interpretando, tornando a história um pouco mais leve e, quem sabe, com um final feliz.

Ao deixar o livro em sua produtora, recebi a seguinte declaração via e-mail:

“Estevão,

Foi um prazer ler seu livro e seus quadrinhos.

Ser citado num livro é uma honra que não achei que teria.

Parabéns por sua escrita, sua história e seus desenhos.

 

Muito obrigado e precisando é só chamar.

Lázaro Ramos”

 

Não preciso de mais nada, não é?

 

Depois de cinco anos, cá estou pensando em reapresentar o livro às editoras, uma vez que ele foi impresso com uma distribuição independente.

Vai que alguma editora se interesse, né?

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Se existe uma forma de se tornar imortal é através da obra.

O reconhecimento pode ser algo buscado, conquistado ou às vezes, chega como um presente. Ser lembrado pelo que disse, pelo que escreveu, pelo que pintou, construiu, cantou, empreendeu, defendeu, lutou, quis, ou até pelo que optou não fazer.

Sempre houve uma ação, sempre coube o autor uma decisão. Só passa para a eternidade quem age.

Mas nem tudo vem com uma assinatura. Os pontos dados na testa de uma criança, o tijolo preso com o cimento, o asfalto posto nas ruas tem um autor. Aliás, vários autores. Esses duram o tempo de sua obra. A antes da velhice a pessoa talvez esqueça que a operou – talvez nunca saiba –, o tijolo é coberto pelo reboco, depois pela pintura e lá muitos anos depois não sabemos quem levantou aquela casa. Não falo o engenheiro, o arquiteto, falo daquele que usou sua habilidade para construir.

O asfalto já foi coberto e recoberto, e recoberto, por autores anônimos. O cimento da calçada não tem autor, tem apenas usurpadores, crianças que assinam como se fossem delas aquele pedaço de chão.

Não é fácil chegar à imortalidade. Também não sabemos se temos tantos interessados. E talvez quem tenha se tornado não queria. Apenas é.

Mas o importante é que eles existem. Tive dificuldades de entender, quando criança, que existiam pessoas com esse nome. Curiosamente, velhos de cabeça branca, que nos deixavam poucos anos depois de receberem o nome.

Como é isso? Dizem que a pessoa é imortal e depois dela morre?

Para mim parecia ritual de investigação de bruxas: Pega uma mulher, acorrenta ela e joga no lago. Se sobreviver, era bruxa. Se não…

Ser imortal me parece ser um pacto formal, onde dizem: “Você é importante demais para ser esquecido.”

Depois percebi que os imortais apontam a direção. Cada vez deixamos de contar com a direção física de um, nos apoiamos nas lembranças e obras, mas ainda assim, como pessoas que confiam apenas num mapa para chegar a algum lugar, por vezes ficamos sem norte. Mas com a ida de João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, podemos dizer que ficamos sem Nordeste.

Um das coisas que mais me dão medo é que o meu talento – ou o que escolhi para fazer da vida – não me sustente.

Mesmo quando trabalhava fazendo desenhos no computador, em jornais, me perguntava: Se uma guerra ou uma crise econômica acontecer, serei um dos primeiros a não ser aproveitado num mundo onde os talentos manuais são mais procurados.

Na reconstrução de uma nação, padeiros, pedreiros, marceneiros, serralheiros, costureiros, e pintores, além de diversas outras profissões manuais, serão mais úteis do que personal trainers, ilustradores, “profissional da internet”, etc.

Então, desde já, digo que nenhuma profissão artesanal devia ser tratada com desprezo, ou pior: como adequada a uma classe.

E é assim que são tratadas. Estou juntando aqui algumas informações que soltei em pequenos desabafos no Facebook.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

Eu e a galera do Social Zero no estande da Logos Livraria.

O primeiro já foi transformado até em post, durante o lançamento do meu álbum em quadrinhos em Vitória/ES, no começo do ano. Mesmo estando vestido diferente dos demais vendedores (boa parte deles negros), sentado à frente dos meus livros e de ter sido anunciado pelo evento que eu estaria ali assinando meus trabalhos, três pessoas se dirigiram a mim, me perguntando preço de livros… dos outros. Acharam que eu era vendedor da loja.

“Mas você está achando ruim ter sido comparado a um vendedor de loja?”

Sim e não. Me senti chateado porque as pessoas que me perguntavam ignoravam o fato de eu não estar vestido com os funcionários da LIVRARIA LOGOS, estar de gravata, blusa social de manga longa sentado à uma mesa com meus trabalhos e, por simples associação, acharam que eu estava ali trabalhando vendendo livros. Bem, eu estava sim, mas os meus…

Em um outro episódio, deja vu: Feira Capixaba de Literatura, coisa de cinco meses depois. Lá estava eu, novamente num estande da Livraria Logos, desta vez com uma blusa roxa, assinando meus livros. Uma garota, branca, com seus 20 anos, me perguntou o preço de um livro que ela carregava do outro lado do estande.

– Eu não sei, querida… Estou aqui apenas assinando meus livros.

– Eu achei que você era vendedor!

– Digamos que eu “estou” vendedor – respondi. – Estou vendendo meus livros. Mas o que faz você pensar que eu sou vendedor da loja? Estou vestido de roxo, numa mesa com meus trabalhos, assinando autógrafos…

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Eu na Feira Capixaba: meu “crachá” me transformou em funcionário.

– É o seu crachá. – Ela se referia à credencial que eu usava,  assim como as dos vendedores. Assim como também as senhoras da Academia Feminina Espirito-santense de Letras, que assinavam seus livros no mesmo horário. A única similaridade que eu compartilhava apenas com os vendedores era a minha cor.

Podemos dizer que esses “enganos” partiram do povo, acostumado a classe baixa, em sua maioria negros e mestiços, na área de prestação de serviços braçais ou área de vendas. Uma vez condicionado a isso, é difícil desassociar-se dessa imagem.

Até porque é uma imagem real. Temos muito mais enfermeiros(as) negros(as) do que médicos(as) negros(as).

O cargo de auxiliar de serviços gerais, geralmente é ocupado por negros.

Já reparam no gari da sua rua? É negro? As duas senhoras que trabalham na minha são.

Os caras que recolhem meu lixo? Negros!

O serviço braçal, manual, a base da cadeia produtiva, ainda é negra, tal como no começo de tudo.

Então, é natural o povo achar que, a sua cor dá uma “pista” do seu lugar na sociedade e assim, lhe fazer a pergunta:

– Sabe me dizer quanto que tá isso?

Para não dizer que é um problema local (até agora dei exemplos do Espírito Santo), eu fui convidado para um evento sobre quadrinhos na Saraiva do Botafogo Praia Shopping e, enquanto esperava minha fala, fui olhar a sessão de quadrinhos. Uma senhora me questionou o preço de um livro.

— Minha senhora, eu não sei, mas quando eu quero saber, eu levo naquele leitorzinho ali, ó? – e apontei para o lado.

A senhora agradeceu e, assim que voltei aos quadrinhos, uma pessoa me abordou, perguntando se eu havia achado algo.

Quando ele olhou para a minha cara de quem não sabia de nada, ele confirmou que não era eu o funcionário que ele tinha pedido algo.

Nesse dia, eu estava com a blusa preta, tal como o pessoal de lá. Culpado, né? Vai vestido de funcionário, o pessoal acredita…

 

Para ilustrar ainda mais o caso e não acharem que eu estou julgando com o coração, eu estive na Saraiva de Niterói, onde vi uma propaganda grande na vitrine da loja, voltada aos universitários. A mensagem dizia que lá na Saraiva tinham tudo o que eles precisavam.

Só que na imagem traziam três brancos (um ruivo, mas ainda sim…). Fui ao site e percebi que lá falava também de volta as aulas. Lá sim tinha um moreno. Peguei a imagem do site e fiz meu protesto.

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Peguei pesado?

É a minha interpretação sobre algo que vi no site da empresa, não? Aliás, eu cheguei a questionar para a vendedora da loja, se ela não achava absurdo o fato de não ter um negro entre os universitários da propaganda na entrada da loja. Ela, assim como os outros dois vendedores próximos a ela, também eram negros. Ela me olhou, deve ter me achado meio louco.

– Eu não sei nada disso. É coisa do marketing – respondeu. E não quis mais conversa.

Mas esses assuntos são de meses atrás. O que me fez trazê-los à tona? Duas coisas. Uma declaração da Taís Araújo numa entrevista para Rosana Jatobá, que reproduzo a pergunta e resposta em questão:

Rosana Jatobá – O Mandela ficou mundialmente conhecido por lutar contra o Apartheid, que era o regime de segregação racial na África do Sul. Você ao longo da sua carreira em algum momento você se sentiu marginalizada, vítima de algum tipo de preconceito?

Taís Araújo – O tempo inteiro, né. A gente vive no Brasil.O Brasil é um país preconceituoso, eu sofro preconceito da hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir. O preconceito não tá só em me tratar mal numa loja, tá em entrar em uma loja, por exemplo, olhar a minha volta e não ter ninguém igual a mim sentado comendo no restaurante. As pessoas que estão ali são iguais a mim estão ali me servindo só. Mas elas não tem a possibilidade de estarem ali sentadas. Não foi dada a elas a possibilidade de estudo, esse é o preconceito.

É assim que vejo também. A diferença é que não sou conhecido como a Taís e de vez em quando sou visto como funcionário do lugar. É um tipo de preconceito, como o que presenciei ontem, no dia em que terminei um curso (na verdade, um laboratório de roteiro) com o roteirista Celso Taddei e o diretor Márcio Trigo.

Olha esse cabelo e barba!

Olha esse cabelo e barba!

Eu estava no Humaitá, próxima à Botafogo (cariocas, me corrijam!), e peguei um táxi para chegar a um evento. Graças a dois meses de trabalho num ritmo frenético, eu não consegui passar no meu barbeiro de confiança para cortar meu cabelo e fazer a barba (coisa que faço desde quando descobri a irritação da pele após fazer a barba).

Quando entrei no taxi, disse ao taxista que ia fazer uma corrida curta para o Shopping Botafogo, e a partir daí começou um bate-papo sobre corridas curtas.

Eu falei que estava vindo de uma confraternização com os amigos e o taxista então me perguntou se eu trabalhava na Riourbe.

A Riourbe é uma empresa de pública de capital fechado da Prefeitura do Rio. Sua especialidade? Gerenciamento de obras públicas de infra-estrutura, urbanização, reformas, construções, conservação e manutenção preventiva de prédios públicos.

Já sacou, né?

Baseado simplesmente no fato de eu estar numa área nobre do Rio de Janeiro, o taxista pensou que eu era um trabalhador de obras.

Ou você quer acreditar que ele olhou para a minha cara e pensou:

– Esse cara é um engenheiro!

“Mas então você não quer ser confundido com um peão de obra, isso quer dizer que você é preconceituoso, se acha bom demais para ser um peão de obra!”

Não é assim. Eu certamente ganho menos que um (bom) pedreiro ou um marceneiro. Eu escolhi minha profissão e ainda novo me disseram que eu não conseguiria. Muitos dos meus amigos trabalharam em obras – assim como eu – por falta de opção.

Mesmo sabendo que todos os prestadores de serviços gerais – pretos e brancos – são os que movem este país, são eles que mantém o mundo rodando, essas pessoas são tratadas com desrespeito.

E quando uma pessoa olha para mim e supõe, pela minha cor, que estou ali para servi-la, sem ter o cuidado de saber se eu estou sendo pago para isso, é algo que me deixa profundamente chateado.

Eu tenho um cemitério na memória. Imagens que aparecem, me transportando para um lugar que não sei mais o nome, ou como chegar lá. Geralmente é acionado por um cheiro, uma música, uma expressão… me pega desarmado e me transporta, me joga no lugar por menos de um segundo e depois me pergunto: – Onde eu vivi isso?

Aos mais espiritualizados, vão dizer que um outro Estevão visitou esses lugares. Eles não estão errado. Era um Estevão de 14 anos, que entregava contas de energia para a empresa Escelsa.

A ideia foi interessante: pegar garotos entre 14 e 18 anos, treiná-los para entregar contas por meio período. Boa parte deles vieram de áreas carentes, como eu. O nome do programa era POEMA: Programa de Orientação Escelsa ao Menor Assistido. Sim, eu sei, nome péssimo. Mas voltemos ao cemitério.

Nos dois anos que fiquei no programa, entreguei contas por inúmeros bairros da Serra. Imagine que, mensalmente, fazíamos rotas de entregas de contas por bairros pobres, chiques, áreas rurais… É dessas paisagens que montei o cemitério.

Uma imagem recorrente é uma ladeira tomada pela erosão, com casas penduradas nas encostas, uma grande árvore próximo a ela. Estava nublado, era particularmente lindo e triste. Não me lembro em qual bairro.

E outras cenas seguem o roteiro. Aparecem, deixam dúvidas e somem. Um jogo de futebol entre velhos num campo sem grama. Um senhor vendendo sacolé de caipirinha. Não me lembro onde. O cão que deixou eu entrar na casa e depois ficou entre eu e o portão. Foi no bairro Barcelona ou Nova Carapina?

Um bairro industrial, onde quase ninguém estava em casa para receber as contas. Serra Dourada? Ouvir Daniela Mercury pela primeira vez, numa região praiana, entregando contas nos bares e nas casas de veraneio. Bicanga ou Carapebus?

Um caminho de terra e mato, ligando dois bairros, onde vez ou outra era possível encontrar um animal morto: Cão, vaca, cavalo, gato… Nova Carapina?

Encontrei uma amiga da escola, que havia mudado sem dar notícias. Foi em Feu Rosa? Ameaça dos moradores por não receberem as contas: no bairro Marajá ou Jardim Carapina?

As cenas acontecem, mas não se completam. Em compensação, algumas cenas são inesquecíveis: Afundar até o joelho no quintal aterrado em Jardim Carapina;

Seguir numa rua atééé o final da rua, ainda sem asfalto, do bairro Vila Nova de Colares. As ladeiras do bairro São Marcos. Demorar duas horas para entregar 200 contas num bairro chamado Divinópolis, ter que andar meia pela rodovia para chegar à um bairro chamado Belvedere, gastar 3 horas para entregar 50 casas, por causa da distância entre elas.

Jacaraípe e seus prédios. Andar com mais de 800 contas nas mãos, entregando 200 para casas e o resto em maços, aos condomínios. Era bem rápido.

Nova Almeida, região de veraneio, onde 70% das contas eram pagas em débito automático e os donos das casas apareciam só final de semana. Entregar era um desencargo de consciência.

As lembranças reduzem um pouco a intriga criada pela memória, que teima a me dar sensações que não identifico, talvez com algum propósito.

Bem, aqui temos um texto. Talvez uma missão cumprida.

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Sabem aquela expressão “você é de casa?”

Nunca funcionou tão bem quanto agora. Apesar do meu contato com redação de jornal ter começado no Notícia Agora, que pertence à Rede Gazeta de Comunicação, para onde eu produzi 386 páginas de quadrinhos, foi no jornal A Tribuna que eu trabalhei de fato e ativamente com a notícia.

Eu produzia infográficos, dando forma e cor à alta do dólar, queda e aumento de popularidade de políticos, esclarecia para o leitor como ocorreu certo acidente, como funcionaria o trânsito graças àquela festa ou manifestação… Vivia no departamento de arte (Zota e eu), junto com a galera do tratamento de imagem (Sérgio, Luís, Lúcia, Augusto e Renan…), com os armários dos fotógrafos, com o chargista Pater… O ambiente era ótimo, longe das pessoas que escreviam.

recomendaEu tinha uma gana por escrever no jornal, deixar, de vez em quando, de ser um dos “meninos da arte”. Qualquer redação vão chamar a galera da arte assim. Um com 70, outro com 48, outro com 23, mais de duzentos anos somados transformados em garotos.

É ótimo, pensando agora, mas o complexo de vira-lata me fazia pensar que achavam que valíamos menos por desenhar, por tratar fotos, por não seduzir as pessoas pelas palavras. Eu entrei nA Tribuna em novembro de 2003. Mais de dez anos depois, tenho aparecido nesse jornal como um filho orgulhoso que manda uma carta para casa, dizendo que está longe, mas que está tudo bem. Aqui estão duas “cartas para casa”. Vejam aí!

A primeira é uma notinha na coluna “No Tom”, que saiu no dia 06/07, onde recomendo um CD… peculiar. Clique na imagem para ampliar!

Já a segunda é um artigo para o AT2 Livre, dando a minha opinião sobre a missão do autor de histórias em quadrinhos.

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