indignados

Numa conversa com meu amigo Thales Ramos, um ex-aluno do curso de roteiro para quadrinhos que aplico no Rio, surgiu uma pergunta:

– Você gostou de Habibi? – ele me perguntou;

– Me esforcei para gostar – respondi.

– Como assim?

– Tive que dar o braço a torcer.

ciadasletras_habibO papo continuou, mas a partir dessa frase, “…dar o braço a torcer”, eu explico o que (me) acontece: não vou dividir ou resumir o mundo literário a esses dois tipos de autores, mas certamente eles existem:

1 – O autor indignado

Ele ainda não foi “descoberto” por uma grande editora. Ele não é lido aos milhares, mas as poucas pessoas que acompanham o seu trabalho sabem do seu talento e que sucesso é uma questão de tempo (e sorte).

Esse ser humano acompanha o trabalho de todo o mundo (ou simplesmente os ignora) e os acham inferiores. Aí vem a indignação.

Por que eles conseguem mais oportunidades do que eu?
Como eles conseguem publicar e eu não?
Que texto merda é esse?
O que esse idiota faz numa editora grande?
O que essa cambada faz em grandes eventos?
Por que eles estão em Frankfurt?

Mas o pior do indignado é intolerância. A melhor desculpa é: “Não acho errado os caras estarem lá, o que eu não acho certo é eu não estar lá com eles.”

O que é uma mentira. Uma conquista em conjunto nunca será igual a uma conquista solitária. Se pudesse, o indignado não dividiria os louros, seria a atração única, seu livro estamparia todas as torres de venda e teria um exemplar dele em todos os departamentos. O indignado se revolta até quando não existe mais motivos. Quando for publicado, sempre se perguntará sobre os contratos alheios.

Ele vai depender do ódio ilusório de quem o cerca, achando que tem queixas. É falar um nome e a pessoa responder: “Esse fulano não gosta de mim”.

O indignado é o eterno mártir até no sucesso. Quando conseguir fãs, vai reclamar dos jornais que não o divulgam. Se os jornais o divulgam, vão reclamar das críticas. Se as críticas são boas, vão reclamar da editora, da falta de atenção, de não estar em todos os eventos.

Seu motor é movido pela indignação. É de um inimigo pessoal que sai seu vilão, é do seu sofrimento com ataques fantasiosos que saem suas tramas, é da sua editora que não lhe dá a atenção que se arma uma vingança pessoal, em busca de milhares de leitores e uma comprovação de que ele estava certo o tempo todo.

Sem ódio, sem indignação, esse autor desanda. Ele nunca será feliz por isso.

2 – O autor em construção

Ele caminha com passos firmes de que nada sabia desde o começo. Ele experimenta, olha em volta e percebe que nada sabe. E quanto mais ele pesquisa, percebe o quanto é pequeno.

O autor em construção tem tudo para indignar-se. Ao ler um livro de um “colega” (na maioria das vezes ele vai se referir aos mais velhos como “mestre”), ele vai descobrir que tudo o que pensara flerta com o que viu. Imagine o quão frustrante pode ser você querer completar o quebra-cabeças com uma peça que você acha que falta e descobre que aquela peça é, na verdade, uma ponte para um quebra-cabeças ainda maior. Maior que o tempo que você tem, maior do que a sua vida.

Ele vai construir sua carreira com diversos livros incompletos, pois a vida é maior do que está ali. E cada novo livro que ele tiver nas mãos será uma benção, um indicativo de caminho.

Cada evento onde ele vir seus mestres, ele vai ver como oportunidades de encontrá-los.
Ele se sentirá representado, mesmo que seu texto nada tenha a ver com o que foi levado a Frankfurt.
Cada editora que investir em um conteúdo nacional, lhe dará esperanças.
Cada texto ruim que ler, será uma oportunidade de ver há oportunidade para todos.

O autor em construção vai, até exageradamente, rebaixar seu potencial em vista de um talento. Novo ou antigo.

Ele sabe absorver o conhecimento oferecido. Mais do que isso, ele precisa disso. Ele precisa encontrar uma peça que falta, que o motiva a continuar procurando, motivando uma fome de saber e até uma espécie de indignação.

No final, ambos são indignados com suas condições.

Mas um culpa o mundo e outro, a si mesmo.

Já me indignei com o mundo, achava que ninguém me dava uma oportunidade (em alguns campos, ainda rola um resquício desse sentimento). Mas como diria Fábio Yabu, “O ônus da ideia é de quem a tem”.

Não posso culpar o mundo por não investir em mim. É preciso que eu mostre a todos por que é bom investir em mim.

E ao ver o Habibi, trabalho de Craig Thompson, eu notei que ainda falta muito para que meu trabalho atinja uma qualidade. E seria mais fácil dizer que o material é confuso, que a história é cabeça… seria tão fácil se indignar, achar que um material como aquele não mereceria uma vitrine como a Cia das Letras, que a publicou no Brasil.

E por ser tão fácil fazê-lo, tive que por de lado e aceitar que o trabalho é digno de aplauso. Que é bonito, denso e uma história que tem muito a colaborar com a busca pela qualidade na criação de histórias em quadrinhos.

É tão difícil chegar a um nível de qualidade na escrita. É fácil se indignar com a conspiração mundial ilusória à espreita na porta de casa.

Com as armadilhas armadas, eu só preciso ter cuidando onde vou pisar.

 

Notícias

A Corrente a R$ 2,26. Coloquei um “e-book versão do autor” de A Corrente na Amazon, pelo preço de R$ 2,26. É a sua oportunidade de ler o livro!

Os Passarinhos no Publishnews. Volteia publicar Os Passarinhos – Vida de Escritor inédito no site da Publishnews. Todo a sexta uma tira nova. Começamos uma série que vocês vão gostar!

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Minha primeira experiência numa bienal foi em São Paulo, quando encarei 14 horas de ônibus na viagem mais longa que havia feito na minha vida até aquele momento. Eu tinha 25 anos e ainda morava em Vitória, no Espírito Santo.

O primeiro desafio foi vencer o enjôo. A labirintite não me deixava ir de Vitória à Serra, municípios vizinhos, imagine sair do Espírito Santo, cruzar o Rio e chegar em São Paulo. Foi um horror.

E o que eu estava fazendo indo a uma feira tão longe de casa? Fui levar os primeiros cinco capítulos de A Corrente, impressos como um zine. Fiz 50 cópias e distribuí para todas as editoras que eu via como promissoras: E era louco ver todas aquelas pessoas juntas num imenso pavilhão. Livros, livros e mais livros. E um cara totalmente perdido por lá. Mas adorei. No primeiro dia, eu paguei para entrar. R$ 8,00 uma entrada inteira por bancar o esperto. Uma fila havia sido aberta para quem tinha R$ 8,00 trocados. Fui lá e paguei, me sentindo o máximo.

Naquela época eu havia publicado o Tristão, meu personagem em quadrinhos em duas edições: pela Escala e um minigibi independente e encontrei no estande da Devir uns conhecidos de internet, todos com crachás. Senti uma inveja, porque eu os reconheci, mas não fui reconhecido.

Aí percebi como um pedaço de papel em volta do pescoço com o seu nome pode fazer diferença. No dia seguinte, fui no balcão e apresentei minha revistinha do Tristão (unica que tinha!) e ganhei minha credencial como autor. A própria menina da recepção me tratou diferente: – Ah, você faz quadrinhos? Que legal!

E desfilei com aquele pedaço de papel pendurado. E naquele universo de milhares de amantes da literatura, fui reconhecido por uma. Roberto Guedes, que estava no estande da Comix. Ah, e pelo próprio dono da Comix, o Jorge. Missão cumprida, credencial!

Então, desde 2004 a minha diversão estava sendo ir à Bienal de São Paulo e desfilar com meus quadrinhos (acabava lançando algo a cada 2 anos mesmo) e fazendo contatos, e cada vez mais pessoas me conheciam e reconheciam.

E em 2007, fui pela primeira vez à Bienal do Rio. Nessa viagem conheci a Ana e o resto é história: Hoje moro no Rio e tento sempre ir às duas Bienais: Rio e São Paulo.

Mas na de 2011, algo aconteceu. Quando fui lá, tentar a minha credencial, me disseram que não dariam mais credenciais aos autores (talvez pelo número crescente deles nos eventos), e receberíamos um pequeno ticket que daríamos na bilheteria e entraríamos de graça.

E aí começou o diálogo mais egocêntrico da minha vida:

– Oi.

– Oi, em que eu posso ajudar?

– É que eu sou autor e queria uma credencial.

– Não estamos dando mais credencial, é um ticket e você entrega lá na bilheteria.

– Mas aí eu não terei uma identificação?

– Não, mas vai entrar de graça.

– Mas não venho aqui para entrar de graça, menina. Eu gostaria de ter uma credencial.

– Não damos credenciais, senhor.

– Mas você não está entendendo: um dos poucos prazeres que tenho nesta época do ano é desfilar por esses corredores cheios de livros com uma credencial de autor. Isso me faz feliz, me mostra que também faço parte deste evento.

– Mas não damos credenciais, senhor.

– Mas você não entendeu. Eu não sou Mauricio de Sousa, eu não sou ZIraldo e muito menos a Thalita Rebouças. Ninguém ali irá me reconhecer porque meus trabalhos ainda não alcançaram a visibilidade que bote esta carinha linda em um jornal, na TV ou um cartaz de editora. Portanto, minha única alegria é quando encontro um fã perdido em meio a essa galera imensa e ele olha para a minha credencial e me diz: “Você é o autor de A Corrente, você é o autor de Os Passarinhos, você é o autor do Tristão”.

– Mas eu não posso fazer nada, meu senhor.

– Você pode sim, porque um dos poucos prazeres que eu tenho nesta época do ano…

E cada vez que a garota falava que não podia fazer nada, eu dizia:

– Você não está entendendo, um dos poucos prazeres…

Aí, ela me passou para uma outra pessoa, que me perguntou o problema.

– Um dos poucos prazeres…

E me passaram para a gerência da Fagga Eventos:

– Um dos poucos prazeres…

Então, me disseram:

– Ok, já entendi! Podemos te dar uma credencial de profissional do livro.

Desfilei com a minha credencial no primeiro dia de evento, com a palavra “Autor” debaixo do meu nome.

Quando alguns autores, que não conseguiram o mesmo, me perguntaram o que fiz para conseguir a credencial, eu disse:

– Um dos poucos prazeres que eu tenho…