maio 2014


contrato

 

Em casa, com roupinha velha, descalços e caneta com super-heróis em quadrinhos estampados. Foi assim Ana Cristina Rodrigues e eu assinamos o nosso contrato com a editora Claro Enigma, que faz parte da Companhia das Letras, para produzir um grande trabalho histórico-biográfico em quadrinhos.
Obrigado aos que torceram e quando der contaremos mais novidades!

Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Na última sexta (16/05) estive na Feira Capixaba de Literatura, que aconteceu na Praça do Papa, em Vitória/ES,  para debater sobre literatura infantil. Na companhia da professora da UFES Maria José de Paula e com mediação de Paulo Sodré, agreguei ao tema o fato do professor ser um facilitador do acesso das crianças aos livros, por eles conhecerem gêneros literários e assim oferecerem mais opções para as crianças.

Na plateia, integrantes da Academia Espírito Santense de Letras e da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, alunos da rede pública, educadores, alunas da Maria José e uns dois convidados meus.

Claro que intimida estar num lugar com um bocado de gente gabaritada em literatura olhando o que eu tinha para falar, mas também foi gratificante ver que essas mesmas pessoas estavam interessadas em me ouvir, seja como profissional ou sobre meus percalços também.

Numa determinada altura da conversa, o presidente da Academia Espirito Santense de Letras disse que “a melhor coisa que fiz foi sair do Estado”, porque lá não existem formas de se viver como escritor. Apesar de eu ter trocado o Espírito Santo pelo Rio de Janeiro por, entre outros motivos, querer me dedicar à escrita, eu acho a opinião dele é equivocada. Pelo menos, parcialmente.

Antes de mais nada, pela natureza do que faço, – que é escrever, desenhar e roteirizar – prefiro ser chamado de “autor”.

Segundo, não foi a mudança espacial – sair do Espírito Santo e ir morar no Rio de Janeiro – que me fez ter mais oportunidades. A mudança foi uma revolução interna.

Pense assim: Um administrador de empresas no Brasil pega sua graninha e vai para os EUA tentar mudar de vida. Disposto a se manter lá a qualquer custo, pega um trabalho de garçom, vai limpar chão, cuidar de cães, entre outras coisas.

Para economizar, ele deixa de sair, consome o que lhe é mais barato, economiza o máximo… Tudo o que ele poderia ter feito no Brasil.

Na verdade, a mudança espacial é uma forma de tirar a pessoa de seu ambiente confortável, ligar o modo “sobrevivência” e aumentar a aposta. Foi o que fiz ao vir para o Rio. Aumentei a aposta, porque num ambiente cômodo como era, estar perto da família e ter um emprego estável desestimula o desafio. Qualquer desafio.

A realidade é que a vida de um escritor, assim como qualquer pessoa ligada a arte e esportes, é uma loteria. Não dá para imaginar para onde vai levar o fruto de seu trabalho e, na maior parte das vezes, esta sua maior expressão é relegada a segundo plano.

 

Você é jornalista E escritor.

É professor E escritor.

É advogado E escritor.

É auditor fiscal E escritor.

É aposentado-de-alguma-profissão E escritor.

Para o escritor ser “escritor” E alguma coisa – ou seja, sua profissão/vocação/condição vir em primeiro lugar – é preciso uma reunião de tantos elementos que é impossível descrevê-los como uma receita, dar em lista (que será sempre pobre, se pensarmos no número de possibilidades que a vida pode nos proporcionar), ou dar as dicas.

Ainda no tal evento, um colega me apresentou a outro: “Este é o Estevão, ‘cartunista’ (pois é, todos que fazem ilustrações vira cartunista para o pessoal), publica fora do Estado e do país, SÓ NÃO NOS DÁ O CAMINHO DAS PEDRAS…”

Como se eu soubesse… O que faz um indivíduo imaginar que eu sei uma fórmula para fazer qualquer autor ser publicado? Que as experiências que vivi servirão para ele?

Se eu pudesse dar uma dica, seria… não tem macete, povo.

Tudo que você fizer em prol de sua escrita é apenas um aumento de probabilidades, não um acerto em si.

O escritor André Vianco começou sua carreira literária pagando a impressão de seu primeiro livro.

O sucesso de vendas Eduardo Spohr mostrou a força da internet ao ter a tiragem independente de seu livro noticiado num podcast.

Gritar na feira, oferecendo seu livro, funcionou para que a Thalita Rebouças não passasse desapercebida no lançamento de seu primeiro livro numa Bienal.

Comprar bots (programas) para turbinar o número de curtidas da sua página no Facebook serviu para outros.

Ser melhor vendedor do que escritor do próprio trabalho também. Pensando nesta, seria o escritor vendedor E escritor?

Ler dezenas de livros, fazer cursos, ouvir palestras, ir a lançamentos, ter uma boa network, tudo isso pode ser considerado na equação que levará o livro de seu computador para uma editora, tanto quanto a qualidade de seu trabalho.

Sério. Qualidade literária também é um conceito relativo. Quem pode dizer que o texto é bom ou ruim? Um bocado de gente, eu sei! Para isso tempos doutores, linguistas, estudiosos habilitados a dizer que o texto é bem escrito, discorrer sobre a estrutura do texto, mas o que não agrada uns pode realmente ser publicado por outro em favor de muitas questões.

“Seu editor não gosta de mim, mas seu leitor gosta!” pode ser também um ponto a ser considerado para ser publicado, por que não? Ou você acha que editor também não é funcionário?

Talvez ele seja editor E escritor.

ódio

Hoje voltei à infância. Não à boa infância, mas àquela odiosa, a que não me deixa esquecê-la em casos assim.

Moro numa área hostil, o que é relativamente comum no Rio de Janeiro. Se não te ameaçam com armas impondo a segurança, outros ameaçam com as mesmas armas impondo poder, e ainda temos uma terceira via, que são as pessoas abastadas que te olham com ameaça, desejando não ter que conviver com uma pessoa de classe diferente.

Acho que a maior parte da população já viveu alguma dessas ameaças. Eu já vivi e, hoje, ela teve uma carga especial, porque também me senti como o pessoal da terceira via.

Fui fazer compras num mercado local quando, na avenida principal, cinco garotos, em média com seus 15 anos, passaram por mim, do outro lado da pista.

Eles falaram algo, parecia ter sido para mim, chamando a minha atenção. Carros passando, barulho peculiar e qualquer mensagem que eles tivessem me passado se perdeu.

Quando olhei para o grupo novamente, desta vez consegui ouvir:

– Gordo escroto!

Parecia tão surreal que, em plano século XXI, adolescentes indo para escola, se achassem no direito de esculachar alguém, e eu ignorei. Mas como eu já havia olhado, um deles achou interessante dizer:

– Tá olhando o quê? – Sem parar, o grupo foi andando do outro lado.

Eles estavam longe era uma autopista, carros passando. Cinco negros, porte físico compatível. Cinco negros de boné para trás. Cinco negros fazendo um bonde. Meu primeiro sentimento foi um ódio de mim mesmo, por achar que eu merecia aquele comentário. Afinal, sou gordo!

Depois veio a vontade era peitar, chamar para a briga, vomitar um bocado de verdades, estatísticas da probabilidade de um dos cinco ser bem-sucedido em alguma coisa honesta, quis eles mortos, pela ilusória demonstração de poder daqueles garotos.

Aí, pensei que estarei em amanhã numa palestra sobre literatura infantil, falando sobre quadrinhos e livros infantis pensados para uso na escola.

Pensei que, quando eu estava na idade daqueles rapazes, eu buscava agir como a voz consciente em meio aos que adoravam fazer alguma coisa errada. A educação que recebi, junto com os quadrinhos que eu lia, cheios de senso de moral, de fazer o certo porque é certo, moldaram meu caráter.

Eu sou humano, cometia erros de julgamentos, mas sempre tentei fazer coisas da qual me orgulharia depois.

Não me orgulhei do ódio que tive daqueles garotos. E pensei no quanto as mulheres sofrem com os assédios diários. Sofri num momento o que muitas pessoas sofrem diariamente.

E quando cheguei ao supermercado, ao escolher logo a fila que não andava, vi diversas pessoas atrás de mim reclamando do caixa, de sua lentidão e do sistema que não lia os códigos de barras, do cartão que não passava, e enfim mudaram de fila.

A caixa não estava no seu melhor dia, sofrendo com o clima pesado da fila, e a minha cara também não era a melhor.

Eu estava pronto para despejar minha frustração de não ter peitado – e provavelmente apanhar – daqueles rapazes numa na pessoa mais indefesa que encontrei.

Engoli meu ódio, esperei muita gente que escolheu as filas laterais andarem. Eu segurei a onda. Ninguém ali percebeu meu gesto maravilhoso.

Só viam “um otário que estava na frente deles e que foi atendido depois”.

Sábado, dia dez de maio de 2014, teve um sabor diferente para mim.

Pela primeira vez, tive um texto meu publicado no jornal A Gazeta. Eu já havia trabalhado para o jornal, escrevendo histórias em quadrinhos para o segundo jornal da casa, o Notícia Agora, mas eram textos em balões e, por mais profundo que eu tentasse soar, não seria levado a sério.

Mas no sábado em questão, eu estava entre os “adultos”, meu texto não tinha figuras, não tinha fotos, nada que chamasse demasiadamente a atenção para o meu texto. Não usei os recursos visuais que dispus a vida inteira. Foram letras falando de minha vida e de como construí meus mundos.

A crônica que escrevi para o jornal Gazeta Online foi meio que uma “prestação de contas”.

Sete anos fora da minha cidade natal perseguindo um sonho e muitos de vocês já devem ter lido parte dessa história exaustivamente contada nos posts por aqui mesmo. Porém, em Vitória sou a pessoa que organizou 3 edições de uma feira de quadrinhos e publicou um bocado de quadrinhos no jornal Notícia Agora em 2000 e lançou um ou outro trabalho depois.

Esse texto foi uma forma de dizer “Ei, estamos por aí, ainda lutando, fazendo que muita gente achou que era perda de tempo”.

Pensando bem, eles não deixam de ter razão. Escrever, se dedicar às artes, num país onde as oportunidades são poucas, é perigoso, uma loteria, no máximo uma perda de tempo.

Mas é uma bela forma de perder tempo. Caso não esteja de saco cheio de ler sobre as minhas dificuldades, pode ler. Estava num jornal, sem desenho. Só letras.

10 05 2014 Pensar A Gazeta

 

Ps. Feliz dia das Mães.

Pessoal de Vitória, estarei por aí, para a Feira Literária Capixaba. Mais informações aqui!