chamada

Só agora percebi que já se passaram cinco anos da publicação do meu primeiro livro em prosa, chamado “Enquanto ele estava morto…”.

Nesse livro fininho, eu narro os nove dias em que passei procurando pelo meu irmão, após eu receber um telefonema da minha irmã, com a informação de sua morte num garimpo na Bahia. Paralelo à procura, eu revisito as minhas memórias de uma família desestabilizada: mãe abandonada pelo marido com seis filhos, sendo eu, o mais novo, com seis meses de idade.

O livro foi publicado graças a uma lei de incentivo à cultura de Vila Velha, no Espírito Santo, estado de onde vim, e teve a tiragem de 1.000 exemplares, esgotados há três anos.

Para comemorar os cinco anos de sua publicação, contarei cinco curiosidades sobre o livro.

1 – Estreia como ilustrador autoral

Amante dos quadrinhos como sou, sempre desenhei e trabalhei em jornais fazendo ilustrações editoriais, mas não me sentia seguro o bastante para desenhar minhas próprias histórias, naturalmente mais longas.

O problema é que me faltava referências visuais (fotografias) minhas para que um ilustrador me desenhasse na estevao31minha infância. O que acontecia com freqüência é que me desenhavam gordo e de óculos, características adquiridas e nunca mais abandonadas a partir dos 20 anos.

Como era difícil explicar as características de muitos dos meus parentes e amigos representados no livro, eu resolvi desenhá-lo. Pela primeira vez eu realizei um trabalho onde eu era responsável pelo texto e pela arte. Essa experiência viria se repetir no ano seguinte, com a criação da tirinha Os Passarinhos.

 

2 – O livro foi financiado pela prefeitura de Vila Velha (ES), mas foi finalizado em Niterói (RJ)

Eu havia decidido a me mudar quando recebi o resultado de que o meu trabalho havia sido escolhido. Comecei o processo de diagramação do livro, mas o prazo apertou e eu precisava entregar a casa alugada em Vitória/ES. As ilustrações foram feitas nas primeiras semanas no bairro de Santa Rosa, em Niterói e impresso na Gráfica A1, em Vitória.

 

Noé, meu irmão do meio!

Noé, meu irmão do meio!

3 – Foram apenas oito pessoas no lançamento, mas foi inesquecível

Uma das regras do recebimento do recurso de produção do livro é que o lançamento fosse realizado no município de Vila Velha. Depois de olhar os dias disponíveis da única livraria que eu conhecia no município, fiz o lançamento na tarde de quinta-feira no centro da cidade. A maior parte das pessoas que eu conhecia morava em Vitória ou na Serra, cidades vizinhas, e estavam trabalhando naquele momento.

Em uma hora de lançamento apareceu apenas um vereador, para comprovar que o livro foi lançado – e não comprou um exemplar. Meia hora depois apareceu um amigo e logo foi embora. Quando eu estava recolhendo as coisas para ir embora, apareceu meu irmão e sua família e a minha irmã mais velha, juntamente com meu sobrinho. Essas duas famílias não se viam a quase 20 anos, devido a uma briga.

Graças aquele lançamento, eles se viram e conversaram, deixando para trás uma parte amarga da nossa história.

 

4 – Segundo livro escrito, primeiro livro publicadoestevao10_small

Na minha carreira como quadrinhista até o momento que escrevi “Enquanto…”, eu já tinha escrito roteiros para mais de 500 páginas de quadrinhos, mas nunca havia publicado um livro em prosa. Apesar do livro onde conto as minhas agruras ter sido o primeiro publicado, ele foi o segundo a ser criado, em fevereiro de 2007, e levou um mês para ser escrito.

Porém, o thriller paranormal “A Corrente” começou a ser escrito em março de 2003, terminando um ano depois, sendo assim, meu primeiro trabalho em prosa, lançado apenas em 2009, um ano depois de “Enquanto ele estava morto…”

É verdade que em 2008 eu reescrevi boa parte de “A Corrente”, inclusive mudando o final,mas isso é conversa para outra hora.

 

5 – Le0altoitores ilustres

Quando eu anunciei o livro numa lista de discussão de roteiristas de TV, um senhor me pediu informações de como podia adquirir o livro.

Eu, sem titubear, pedi seu endereço e enviei o livro. Dias depois, ao perguntar se o livro havia chegado, recebi a seguinte mensagem, da qual retiro alguns trechos, editados por causa de spoliers:
“Caro Estevão.

Não só recebi, como li e gostei. Muito legal.

Muito interessante o leitor conhecer a personalidade dele, com seus contrastes à medida que a leitura progride.


Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos quando você prefere caminhar alguns quilômetros, para não pedir dinheiro a ele e ele não deixa que você se vá sem oferecê-lo. Parabéns. Tomara que seu livro tenha bastante sucesso.

 

Abraços

Roberto Farias”
Eu não havia ligado o nome a pessoa, mas Roberto Farias é irmão de Reginaldo Faria e um dos grandes cineastas de nosso país, e entre os filmes que dirigiu, estão alguns da série “Roberto Carlos” (em Ritmo de Aventura, e o Diamante Cor de Rosa, a 300 Quilômetros por Hora), Os Trapalhões e o Auto da Compadecida, Pra Frente Brasil… Foi havia sido uma honra ver alguém tão interessado em dar um retorno sobre a leitura, mas foi o máximo saber que a pessoa em questão tinha feito tanta coisa dentro de uma área que admiro demais.

O outro grande leitor foi uma pessoa que citei no livro. Lázaro Ramos.

Em uma passagem do problema que me meti, devidamente narrado no livro, já estava imaginando que, estevao17daquela experiência traumática, faria um livro, e que esse livro viraria um filme. Enquanto eu andava pelas ruas de Vitória imaginando como eu resolveria a situação, eu imaginava Lázaro Ramos me interpretando, tornando a história um pouco mais leve e, quem sabe, com um final feliz.

Ao deixar o livro em sua produtora, recebi a seguinte declaração via e-mail:

“Estevão,

Foi um prazer ler seu livro e seus quadrinhos.

Ser citado num livro é uma honra que não achei que teria.

Parabéns por sua escrita, sua história e seus desenhos.

 

Muito obrigado e precisando é só chamar.

Lázaro Ramos”

 

Não preciso de mais nada, não é?

 

Depois de cinco anos, cá estou pensando em reapresentar o livro às editoras, uma vez que ele foi impresso com uma distribuição independente.

Vai que alguma editora se interesse, né?

O curta-metragem “Saia do meu quarto”, dirigido por pelo escritor multimídia André Vianco e roteirizado por mim, é uma adaptação em um dos capítulos de Rua M, 58, meu próximo romance.

O livro conta a história de um casal que vai visitar uma casa em Domingos Martins, interior do estado do Espírito Santo, mas é dissuadido pelo proprietário de um bar a desistir, através de histórias trágicas que ocorreram no local.

É o primeiro tratamento, ainda sem revisão então… Desculpem qualquer erro! 😉

 

Capítulo 5

SAIA DO MEU QUARTO

– Ei, você – aponta Teodoro para um senhor sentado próximo ao balcão – não é você que conhece a história daquela família que se mudou para há dois anos?

O homem não se mexe. Parece não querer muita conversa. Continua tomando uma cerveja com um pesar de quem não queria estar ali.

– Ah, vamos lá, rapaz! Não vai doer se você contar o que sabe daquele casarão maldito!

– Deixa ele, cara, – Bernardo tenta quebrar o longo e constrangedor silêncio entre os pedidos de Teodoro – não deve ser nada interessante.

A insistência de Teodoro ou o pouco caso de Bernardo convence o rapaz:

– O que eu tenho a falar não é interessante, pois ninguém com o mínimo de compaixão pode achar que o desmantelamento de uma família é uma boa história.

Os olhares de Bernardo e Cíntia os provava do contrário. E então ele resolveu contar.

 

***

 

Há cerca de dois anos, uma família que vivia naquela casa foi desfeita de forma misteriosa. Uma família perfeita. Pai, mãe e uma filha. Os rostos felizes de Leonardo, sua mulher Melissa e a pequena Carol ainda estavam emoldurados, eternizados no porta-retrato em cima da mesa de trabalho de Melissa.

A mulher que contemplava a foto da família era uma cópia desfigurada pelo choro e pela perda. O contraste era aparente e a taça de vinho ao lado da garrafa quase vazia era necessária para superar e seguir em frente. O período de luto devia passar, ela ainda tinha ainda que uma rocha para quem ficou.

Mas Melissa parecia quer morrido para o mundo. Ignorava tudo e todos, telefonemas e e-mails de parentes e de colegas de trabalhos. Até para as pessoas mais próximas.

– Mãe – disse Carol, chegando sorrateiramente.

Melissa ignorou a filha, de rosto angelical abraçada a um grande urso. Mas a menina insistiu: – Mãe… O papai está lá no meu quarto de novo!

Carol não tinha mais que sete anos, filha única, única sobrinha, única neta… Mimada por todos os lados. Tinha seus desejos atendidos da primeira vez que pedia algo. Mas o estado da sua mãe naqueles dias não a deixava contente.

A menina apertava o urso, descontando toda a frustração de não ser atendida pela querida mãe. Talvez ela tivesse um pouco de medo também, já que o pai dela estava em seu quarto, seu refúgio, seu pequeno castelo cor de rosa. Carol levou o polegar na boca, mastigando o dedo, esperando alguma reação de sua mãe, que soluçava copiosamente.

Ao ver que o quadro não mudaria, Carol bateu o pé, jogando seu urso no chão.

– Mãe, manda o papai sair do meu quarto! Eu quero dormir e ele está lá! Eu quero que ele saia do meu quarto agora!

Melissa se recompôs enxugando os olhos, colocando a foto de pé de volta na mesa de trabalho.

– Desculpa, filhinha. Eu não devia estar chorando assim.

– Tudo bem! Agora dá pra pedir o papai para sair do meu quarto?

Ela ainda acariciou a imagem da família feliz mais uma vez, antes de levantar se escorando nas paredes.

Quando viu Melissa sair pela porta da sala que dá acesso ao corredor, Carol pediu mais um capricho:

– Mãe, faz um chocolate para mim?

Carol, essa menina sempre conseguiu tudo mesmo! Estava lá a Melissa indo para a cozinha fazer o chocolate!

Melissa misturou o chocolate no copo de vidro, fazendo um barulho hipnótico para Carol, que observava com atenção o que a mãe fazia.

Mas o som intermitente feito por Melissa disputou espaço na casa com um gemido gutural. Melissa olhou para o corredor que dava acesso a sala e quartos com espanto. Carol apontou para a mãe com olhos arregalados e preocupados.

– Eu falei que papai tava no meu quarto.

Melissa andou cautelosamente pelo corredor mal iluminado com o copo chocolate nas mãos, seguida por Carol, acompanhada pelo urso que ela arrastava pelo pé, como uma medrosa fila indiana. Os calcanhares descalços de Melissa faziam o contato com o piso do corredor um som seco. Se houvesse um vizinho embaixo da casa, ao invés de um escuro porão, fechado há anos, ele já teria reclamado com a imobiliária.

– Não se preocupa, mãe! É o papai que está no meu quarto. O problema é que ele está daquele jeito de novo e só você consegue tirar ele de lá.

Melissa olhou para trás, assustada. Ela procurou um interruptor, mas percebe que a luz está queimada. Ela já falou tanto para Leonardo trocar a lâmpada, mas nas atuais condições era impossível para ele.

Carol acompanhou a mãe de perto o bastante para vê-la se aproximar da porta do quarto, encostar a cabeça na porta, como se tomasse coragem para enfrentar quem ali se encontrava. Melissa tocou na maçaneta gelada, que transfere todo o seu frio para a espinha da mãe apavorada com a situação que terá que enfrentar. Uma vez a mão na maçaneta, ela respirou fundo e a torceu.

Melissa abriu vagarosamente a porta, temendo o que encontraria por lá. Na medida em que a porta abria um pouco de luminosidade vinda de fora do quarto que escapava para o corredor sem luz, contribuindo para um clima fantasmagórico.

O gemido era facilmente ouvido e reconhecido: Leonardo mesclado às sombras, provocadas pela cortina. Quarto apagado, luz distante do poste da rua, silêncio interrompido ora pelo fungar de um homem perdido ou de um cão latindo na rua.

– Leonardo?

A figura sentada na cama de Carol parecia chorar a décadas. Lágrimas, saliva e urina tomavam o chão. Ele não saia daquele quarto, cada vez mais consumido pela aura do local. Melissa olhava pálida a figura do marido naquele ambiente cheirando a morte.

Ela engoliu a seco e ensaiou um pouco de autoridade.

– Leonardo, saia daí.

– Eu não consigo deixar este lugar, Melissa.

Melissa se aproximou com cuidado. Ela se perguntava se aquela poça formada no chão era real. Mantendo uma distância segura do imprevisível Leonardo. Ela respirou fundo uma, duas vezes. Sua respiração virou quase um soluço descontrolado. Melissa precisava retomar o controle, precisava dizer as palavras certas.

– Mas é preciso, amor. Não tem nada aqui pra você, nem pra mim!

– Até parece que você não se importa! – disse Leonardo de olhos serrados, aumentando a quantidade de lágrimas escorrendo pelo rosto.

Carol não se atreveu a entrar no quarto, encostada na parede ao lado da porta, abraçada com o urso escutando a mãe falar. Melissa, alterada, falou alto, mostrando quem manda ali. Carol se contraiu, pegando as mãos do urso de pelúcia e colocando em seus ouvidos, na esperança de abafar a briga.

Dentro do quarto, Leonardo pareceu ter entendido Melissa. Ele olhou para um urso na cabeceira da cama de Carol, curiosamente parecido com o que a filhinha carregava. Leonardo parecia ignorar o que Melissa diz, se esforçando para conter as lágrimas.

– Não é justo você dizer isso. Eu estou apenas tentando seguir em frente e preciso que você faça o mesmo.

Leonardo olhou para a sua esposa e fez menção a tocar no urso. – Posso?

Melissa consentiu com a cabeça, quase chorando. Leonardo estendeu a mão para pegar o urso na cama. Suas mãos chegaram a ele com uma leveza e graça que parece atravessá-lo.

– Nãããão! Isso está errado! – gritou Carol, do corredor.

Leonardo e Melissa saíram do quarto, passando do lado da menina de olhos vermelhos, que abria as suas mãos em forma de garras, intencionada a acertar alguém.

Leonardo levou do quarto o urso, o abraçando fortemente, enquanto a menina os amaldiçoava com todo o ódio de uma garota mimada que não tinha mais os seus desejos atendidos.

– Eu ainda consigo ver ela abraçada com esse urso. – dizia Leonardo, tentando conter os soluços de seu choro.

– Ela adorava esse urso. Chamava ele de Gimbo, eu acho. Agora, toma seu chocolate.

Carol parou de gritar, ao ver que nunca seria ouvida, voltou para o seu quarto, o lugar onde passou os momentos felizes de sua vida.

Ao andar batendo os pés com raiva, ela fez algo rotineiro de quando ela era contrariada: bater a porta com força.

O som extremamente familiar despertou em Leonardo e Melissa a certeza de que não estavam sozinhos naquela casa.

 

– Nossa – se espanta Bernardo – e o que aconteceu com a menina?

O homem olha para o copo, como se não se importasse com a história que contara.

– Vagou pela casa tentando ter seus desejos atendidos. Talvez já tenha tomado coragem e seguiu em frente, mas a sua morte prematura pode dificultar muito a pessoa deixar os vivos… viverem. – Conclui o senhor, que ainda carrega a mesma obscuridade no olhar.

contrato

 

Em casa, com roupinha velha, descalços e caneta com super-heróis em quadrinhos estampados. Foi assim Ana Cristina Rodrigues e eu assinamos o nosso contrato com a editora Claro Enigma, que faz parte da Companhia das Letras, para produzir um grande trabalho histórico-biográfico em quadrinhos.
Obrigado aos que torceram e quando der contaremos mais novidades!

Sábado, dia dez de maio de 2014, teve um sabor diferente para mim.

Pela primeira vez, tive um texto meu publicado no jornal A Gazeta. Eu já havia trabalhado para o jornal, escrevendo histórias em quadrinhos para o segundo jornal da casa, o Notícia Agora, mas eram textos em balões e, por mais profundo que eu tentasse soar, não seria levado a sério.

Mas no sábado em questão, eu estava entre os “adultos”, meu texto não tinha figuras, não tinha fotos, nada que chamasse demasiadamente a atenção para o meu texto. Não usei os recursos visuais que dispus a vida inteira. Foram letras falando de minha vida e de como construí meus mundos.

A crônica que escrevi para o jornal Gazeta Online foi meio que uma “prestação de contas”.

Sete anos fora da minha cidade natal perseguindo um sonho e muitos de vocês já devem ter lido parte dessa história exaustivamente contada nos posts por aqui mesmo. Porém, em Vitória sou a pessoa que organizou 3 edições de uma feira de quadrinhos e publicou um bocado de quadrinhos no jornal Notícia Agora em 2000 e lançou um ou outro trabalho depois.

Esse texto foi uma forma de dizer “Ei, estamos por aí, ainda lutando, fazendo que muita gente achou que era perda de tempo”.

Pensando bem, eles não deixam de ter razão. Escrever, se dedicar às artes, num país onde as oportunidades são poucas, é perigoso, uma loteria, no máximo uma perda de tempo.

Mas é uma bela forma de perder tempo. Caso não esteja de saco cheio de ler sobre as minhas dificuldades, pode ler. Estava num jornal, sem desenho. Só letras.

10 05 2014 Pensar A Gazeta

 

Ps. Feliz dia das Mães.

Pessoal de Vitória, estarei por aí, para a Feira Literária Capixaba. Mais informações aqui!

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Hoje é o aniversário da mulher que me importou para o Rio de Janeiro. Num empreendimento ousado, ela me disse que a necessidade de convivência diária inviabilizaria a distância.

2013-12-13 17.45.22Ou você vem para cá ou terminamos. Então eu vim morar com Ana Cristina Rodrigues.

Desde então foi um desafio atrás do outro. Procurar trabalho, encaixar na vida a dois um garoto de seis

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anos. Encarar os preços exorbitantes do Rio, as pequenas distâncias feitas em horas por causa de trânsito, escrever, desenhar, provar que é possível viver de um projeto de vida. Tudo com ela ao lado, às vezes também na dianteira, muitas vezes também na retaguarda.

A Ana se cobra muito porque acredita que o que ela fez não foi o bastante.

Ela simplesmente ajudou muitos escritores, participou de grupos de discussão, leu originais de amigos, deixou de ganhar e de produzir seu próprio conteúdo para difundir o conteúdo alheio.

Tanto que virou presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, a primeira mulher a estar na frente de uma associação (e talvez um gênero literário) predominantemente masculino.

Antes do povo médio saber quem era George R. R. Martin e de posarem de grandes conhecedores de Úrsula Le Guin, Ana indicava e discutia sobre os autores.

ana_martinAntes de livros de fantasia atingirem o sucesso (ou pelo menos editoras) por aqui, ela os indicava para leitura.

Ana não quer provar que sabe mais. Numa discussão recente ela poderia ter dito que é Mestre em História Medieval pela UFF, mas basta saber que ela tem paixão pelo tema para não reduzir o que sabe a um título.

Ana produz muito e, se você não conhece seus mais de 30 contos publicados, é porque esse material está condenado a pequenas impressões sem ousadia, e talvez nunca chegue as tuas mãos.

anacronicasMuitos podem pensar na Ana Cristina como a pessoa que escreve comentários sarcásticos – porém verdadeiros – sobre os bastidores da literatura brasileira, ou das suas predileções por programas e filmes. Lhes convido a conhecer a Ana escritora, a Ana rara de se ver, porque entre uma tradução, o trabalho e a paixão de ser mãe e esposa, funcionária federal de uma instituição da biblioteca nacional e editora, esta Ana reprimida e relegada a segundo plano é a Ana que merece estar em todas as livrarias e é a Ana com quem troco idéias de histórias, de quem ouço e conheço os melhores mundos.

Parabéns para a minha esposa, escritora, historiadora, mãe e apaixonante Ana Cristina Rodrigues.

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Minha primeira experiência numa bienal foi em São Paulo, quando encarei 14 horas de ônibus na viagem mais longa que havia feito na minha vida até aquele momento. Eu tinha 25 anos e ainda morava em Vitória, no Espírito Santo.

O primeiro desafio foi vencer o enjôo. A labirintite não me deixava ir de Vitória à Serra, municípios vizinhos, imagine sair do Espírito Santo, cruzar o Rio e chegar em São Paulo. Foi um horror.

E o que eu estava fazendo indo a uma feira tão longe de casa? Fui levar os primeiros cinco capítulos de A Corrente, impressos como um zine. Fiz 50 cópias e distribuí para todas as editoras que eu via como promissoras: E era louco ver todas aquelas pessoas juntas num imenso pavilhão. Livros, livros e mais livros. E um cara totalmente perdido por lá. Mas adorei. No primeiro dia, eu paguei para entrar. R$ 8,00 uma entrada inteira por bancar o esperto. Uma fila havia sido aberta para quem tinha R$ 8,00 trocados. Fui lá e paguei, me sentindo o máximo.

Naquela época eu havia publicado o Tristão, meu personagem em quadrinhos em duas edições: pela Escala e um minigibi independente e encontrei no estande da Devir uns conhecidos de internet, todos com crachás. Senti uma inveja, porque eu os reconheci, mas não fui reconhecido.

Aí percebi como um pedaço de papel em volta do pescoço com o seu nome pode fazer diferença. No dia seguinte, fui no balcão e apresentei minha revistinha do Tristão (unica que tinha!) e ganhei minha credencial como autor. A própria menina da recepção me tratou diferente: – Ah, você faz quadrinhos? Que legal!

E desfilei com aquele pedaço de papel pendurado. E naquele universo de milhares de amantes da literatura, fui reconhecido por uma. Roberto Guedes, que estava no estande da Comix. Ah, e pelo próprio dono da Comix, o Jorge. Missão cumprida, credencial!

Então, desde 2004 a minha diversão estava sendo ir à Bienal de São Paulo e desfilar com meus quadrinhos (acabava lançando algo a cada 2 anos mesmo) e fazendo contatos, e cada vez mais pessoas me conheciam e reconheciam.

E em 2007, fui pela primeira vez à Bienal do Rio. Nessa viagem conheci a Ana e o resto é história: Hoje moro no Rio e tento sempre ir às duas Bienais: Rio e São Paulo.

Mas na de 2011, algo aconteceu. Quando fui lá, tentar a minha credencial, me disseram que não dariam mais credenciais aos autores (talvez pelo número crescente deles nos eventos), e receberíamos um pequeno ticket que daríamos na bilheteria e entraríamos de graça.

E aí começou o diálogo mais egocêntrico da minha vida:

– Oi.

– Oi, em que eu posso ajudar?

– É que eu sou autor e queria uma credencial.

– Não estamos dando mais credencial, é um ticket e você entrega lá na bilheteria.

– Mas aí eu não terei uma identificação?

– Não, mas vai entrar de graça.

– Mas não venho aqui para entrar de graça, menina. Eu gostaria de ter uma credencial.

– Não damos credenciais, senhor.

– Mas você não está entendendo: um dos poucos prazeres que tenho nesta época do ano é desfilar por esses corredores cheios de livros com uma credencial de autor. Isso me faz feliz, me mostra que também faço parte deste evento.

– Mas não damos credenciais, senhor.

– Mas você não entendeu. Eu não sou Mauricio de Sousa, eu não sou ZIraldo e muito menos a Thalita Rebouças. Ninguém ali irá me reconhecer porque meus trabalhos ainda não alcançaram a visibilidade que bote esta carinha linda em um jornal, na TV ou um cartaz de editora. Portanto, minha única alegria é quando encontro um fã perdido em meio a essa galera imensa e ele olha para a minha credencial e me diz: “Você é o autor de A Corrente, você é o autor de Os Passarinhos, você é o autor do Tristão”.

– Mas eu não posso fazer nada, meu senhor.

– Você pode sim, porque um dos poucos prazeres que eu tenho nesta época do ano…

E cada vez que a garota falava que não podia fazer nada, eu dizia:

– Você não está entendendo, um dos poucos prazeres…

Aí, ela me passou para uma outra pessoa, que me perguntou o problema.

– Um dos poucos prazeres…

E me passaram para a gerência da Fagga Eventos:

– Um dos poucos prazeres…

Então, me disseram:

– Ok, já entendi! Podemos te dar uma credencial de profissional do livro.

Desfilei com a minha credencial no primeiro dia de evento, com a palavra “Autor” debaixo do meu nome.

Quando alguns autores, que não conseguiram o mesmo, me perguntaram o que fiz para conseguir a credencial, eu disse:

– Um dos poucos prazeres que eu tenho…

A Corrente a R$ 25,00 sem frete! É o preço final! vendas@ospassarinhos.com.br

A Corrente a R$ 25,00 sem frete! É o preço final! vendas@ospassarinhos.com.br

Desde quando eu avisei que ia disponibilizar meu livro A Corrente online em forma de “blogssérie” há cerca de um mês, três sites acabaram disponibilizando o livro online. O incrível é que um deles o fez um dia antes da estréia da série no blog MEDO B.
Nos três casos, eu pedi aos blogs que retirassem do ar, por três motivos:

1º – Se alguém vai disponibilizar o meu trabalho online e gratuitamente, que seja eu, nas minha condições, já que sou o autor. E eu decidi que ele vai sair um capítulo por semana (toda a sexta-feira) pelo blog Medo B.

2º – Esse papo de divulgar o autor é interessante, tanto que eu mesmo estou fazendo, mas eu acredito que as pessoas estejam adquirindo o hábito de ter tudo de graça, seja procurando o livro para baixar ou montando blogs para fazer resenhas  literárias. Todos vivem como quiser, mas eu também tenho direito de não participar disso.

3º – Hipocrisia. Quem põe o material online não está ajudando a ninguém a não ser a si mesmo, alimentando um ego, seja como um “Robin Hood” digital admirado pelas pessoas do parágrafo anterior ou simplesmente alguém atrás de curtidas no Facebook ou seguidores no Twitter. No último caso, o blog tinha até assinatura premium, onde as pessoas pagavam uma pequena quantia mensal e podia baixar todos os livros.
Uma desculpa “cabível” para isso seria a manutenção do servidor onde estariam todos os livros “ilegais”, mas se a pessoa quer ser altruísta, por que não banca ela mesma, não é?

Uma coisa que precisa ficar clara é que, na maioria das editoras pequenas, o autor não recebe adiantamento de direitos autorais pelas vendas de seus livros. Ou seja: o diagramador recebe, revisor também, o editor, o capista… todos que fazem parte do processo de produção recebem, seja por eles integrarem o quadro de funcionários da empresa ou porque são contratados por isso.

O autor só recebe quando o livro é vendido. E mesmo quando ele recebe um adiantamento pelos direitos autorais, ele só voltará a receber alguma coisa que a a venda dos livros ultrapassar o valor que deram a ele.

Vamos fazer uma conta?

Se Joãozinho recebe R$ 5.000,00 de direitos autorais referente a um livro de R$ 25,00 ao preço de capa e o universo conspirar para que os direitos autorais dele seja de 10% do preço de capa, ele ganhará R$ 2,50 por livro vendido.

Para que ele volte a ganhar algum dinheiro em cima daquele livro no qual trabalhou um tempão, ele precisa vender acima de 2 mil livros.

Antes que você pense que R$ 5.000,00 de adiantamento por um livro é muito, devemos lembrar que em muitos dos casos um livro não atinge esse volume de venda, e em outros casos, só vai atingir depois de um ou dois anos no mercado, ou talvez numa venda para algum programa de governo.

Um autor pode viver de seu trabalho assim?

Gostaria que você pensasse que, quando você baixa um livro, você não está ferrando uma cadeia produtiva. O mercado ganha e perde toda a hora. O autor não. Se ele ganha, ele consegue viver de seu trabalho. Se ele perde, ele vai fazer outra coisa para viver e sua literatura vira um passatempo, um sonho ocasional.

Para quem reclama que livro é caro, eu digo que estou fazendo a minha parte: o meu livro, que estava à venda pela editora Draco a R$ 33,90 + frete está a R$ 25,00 sem frete comigo. Quer conhecer meu trabalho? Acesse os primeiros capítulos de A Corrente no Medo B. Quer ler o livro completo? Compre comigo. O autor agradece.

ATUALIZAÇÃO [10/01/2014]

Aqui tem a versão pdf disponibilizada por mim! Pelo menos assim eu sei quantas pessoas viram e baixaram o livro.