agosto 2013


Eu preciso reconhecer que eu me saboto o quanto puder.

Apesar da plena confiança de que eu vou vencer na vida, alguma coisa me diz que não mereço.

Sou meu melhor incentivador, mas também sou meu maior inimigo. É que eu já ouvi tanta coisa, vi tanta coisa, vivi tanta coisa…

Desde pequeno, ouço coisas como “Ela é bonita demais para você”, “Você é um moreno bonito”, “Não é o que estamos procurando”, “Sua hora vai chegar”, “Só podia ser preto…”

A diferença grande em todas as fases da minha vida me mostravam o quanto a cor da pele pesa. Quando criança, estudando em escolas públicas, meus amigos brancos moravam na baixada e eu, na ladeira. O mais pobre branco que eu conhecia tinha uma casa de alvenaria, enquanto eu morava numa casa de madeira.

Os grupos musicais não tinham negros. Em compensação, eram maioria nos grupos de samba. Mesmo nas brincadeiras com os amigos, eu não estava numa banda porque Polegar, Dominó e Paquitos não tinham negros.

Jairzinho foi o grande representante negro, afinal, era um “moreninho bonitinho”.

Minha mãe, tentava diminuir a cobrança de ser negro em um bairro de Vitória com ladeiras e ruas, dizia que eu não era preto. Era moreninho. Logo depois dizia que precisava tomar um banho porque estava “cheirando a nêgo”.

Nós perpetuávamos o racismo. Como evangélicos, ligávamos os negros às religiões afros. Não nos misturávamos, não celebrávamos Cosme e Damião, não íamos ver o Ano Novo na praia para não encontrarmos os seguidores de Iemanjá.

Quando me apaixonei por uma garota branca, a família me achou metido, até disse que ela era bonita demais para mim.

Mas esqueceram (ou não sabiam) que as primeiras paixões da minha vida, com 9, 13 anos, eram lindas negras de sorrisos grandes e gengivas escuras.

E lembro do preconceito que era visitar uma delas, coisa que fiz por toda a minha infância, o olhar reprovador do pai dela. Por me sentir quem eu era, um negro pobre sem pai, achava que o problema era a minha cor, não o fato de eu ser um menino despertando para a adolescência e que pai nenhum gostaria perto da filha. Não era nada pessoal, mas eu me sabotei.

Quando eu ia ver filmes na casa de um amigo meu, as irmãs dele tinham nojo de mim por eu por a mão na bacia de pipoca e, ao comê-la, meus dedos encostavam na boca. Diziam que eu babava a pipoca, como todos eles faziam. Mas eles eram uma família de brancos, né?

Me sabotei no Centro de Artes da escola FAFI. Queria ser ator, mas com a minha cor só via escravos sofridos em remakes de novela. Vi um negro comendo terra, querendo voltar para a África. Vi gente falando errado. Vi uma negra num sítio, vi negros transando com Lucélia Santos num ferro velho.

Quis cantar, e vi Emílio Santiago, Gilberto Gil, Jair Rodrigues, Aguinaldo Timóteo, todos velhos até mesmo para aquela época. E quantos negros surgiram? No pagode, dezenas, décadas depois esquecidos. Mas em bandas de rock? Se não são apenas os músicos de apoio, como o pianista do Paralamas, ou o baixista da Legião Urbana, hoje um mendigo nas ruas do rio. Sobra-me o Funk, que só fez sucesso porque tinha um branco na capa do disco.

Nunca me achei bonito. “Sou ruim, e o cabelo ajuda”, eu dizia. Nunca fui opção de namoro. Sempre fui o conselheiro, sempre me expus demais. Sempre me sabotando.

Queria ser um artista, silencioso. Minha arte falaria por mim. Meus desenhos, quem sabe? Nunca os achei bons o bastante. Talvez escrever? Quantos negros escrevem? Bem, teve o Machado de Assis, e… Bem… com certeza existem outros escritores negros por aí, mas quantos desses conquistam espaço no mercado?

Fui carregador de refrigerantes para ganhar 40 reais por dia. Se eu ficasse sem comer, conseguiria economizar o tíquete de 5 reais e assim, “engordar” minha receita. Todos negros, com engradados de cerveja cruzando a tarde, parando em bares, esfolando os ombros.

O preconceito é tão forte que, quando me apaixonei por uma garota da igreja onde eu reunia, um outro amigo meu, também negro, não achava que a menina devia se relacionar comigo. Nós morávamos no mesmo beco, ele conhecia a minha família, meus hábitos. Não havia objeção alguma “senão” a minha cor.

Quando trabalhei para a Escelsa, companhia elétrica do estado do Espírito Santo, fui acusado de roubar um cartela de tíquetes de um garoto que havia chegado de férias, apenas por estar na sala sozinho, aguardando a hora de ir embora. Nós ganhávamos meio salário mínimo (36 URVs na época), e nada menos que 200 URVs de tíquetes, que eu usava para as compras de casa, enquanto a minha mãe usava o pagamento dela para construir a casa (que o ano passado foi abandonada em péssimas condições, tomada por usuários de crack e vendida por uma ninharia).

Ninguém considerou que eu poderia ser inocente. Apenas me mandaram eu devolver os tíquetes roubados. Me mandaram cumprir um dia de serviço e depois, sair do emprego. Então descobriram que o tíquete não veio porque o cara estava de férias. Me pediram desculpas e eu, ingênuo (15 anos na época), fiquei feliz por não ter perdido o emprego, coisa que aconteceu meses depois. Era um perigo um injustiçado ficar ali na empresa, sendo influenciado pelos outros a processar uma das maiores empresas do estado.

Quando passei no curso de Artes Visuais da UFES, na minha turma tinha 3 negros entre 25 alunos.

O outro aluno que conheci era do outro curso, de Artes Plásticas. Poucos negros na área de artes, e não era difícil de entender porque. Materiais caros, aulas que de manhã e de tarde, difícil trabalhar em tempo integral e estudar. Eu mesmo pulei fora por causa disso.

Por muito tempo vi negros empilhando caixas no supermercado, sonhando em ser ensacoladores. Quem sabe um dia ser caixa. Já vi gente sonhando em ser açougueiro, ganhava-se muito sendo um.

Quando decidi que queria escrever para viver, fui para gráficas, onde a coisa sempre era assim: Os vendedores, brancos. Os designers, brancos. Recepção? Brancas. Impressores, caras rústicos, broncos, mas que mexiam em máquinas de mais de meio milhão de reais eram… brancos. Serviços gerais, empacotadores, carregadores? Negros.

Onde eu chegava, era uma exceção. Na redação do jornal A Tribuna tínhamos sim alguns negros, peças importantes de lá, mas de novidade? Motoristas. Escrevendo, pondo as suas opiniões no jornal? Tínhamos 2 em uma redação com 40 pessoas. Eu mesmo era infografista e o outro negro ficava no tratamento de imagens.

A maioria esmagadora de negros ficavam no fim da fila, dobrando e encadernando os jornais, na madrugada, pondo em kombis para distribuição.

Na festa dos jornalistas, uma sala imensa onde poucos sorrisos negros brilhavam. Exceção reconhecível.

Na seleção para a oficina de roteiros da Globo, brancos, brancos e mais brancos. O cara mais negro que existia lá era eu, e em seguida André Vianco, que precisava ficar um pouco mais no sol para ser reconhecido de fato como moreno, entre 53 candidatos.

No Programa Globosat de Desenvolvimento de Roteiristas, eram 5 negros (3 homens e 2 mulheres) em um auditório com 250 roteiristas.

Este é o país em que eu fui criado e vivo. Eu trabalho na manutenção do meu sonho diariamente, mas cada dia mais eu vejo que tem gente contra, e não é contra mim, é contra todo um grupo.

Pessoas que deveriam ser cultas, pessoas presumidamente com conhecimento. Estudantes de Direito, de Medicina, pensadores, escritores… Dizem que nordestinos não prestam, xingam médicos cubanos de escravos, MEU DEUS ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO!

Eu tenho a impressão de que MERECI passar por tudo que passei só por ser NEGRO. Que não mereço me destacar, que não tenho direito de querer uma vida melhor, que devo morrer sem atendimento médico, que não posso ter acesso a educação de qualidade, que devo “voltar para a África”.

EU NUNCA ESTIVE NA ÁFRICA!

Eu não sei, eu não quero fazer parte deste país, eu não quero ser atendido por um médico rancoroso, que recebeu um carro do seu pai por passar na faculdade pública, que ROUBOU a vaga de alguém sem condições de fazer um cursinho. Eu não quero a minha vida nas mãos de pessoas que querem mais é que seus colegas estrangeiros cometam erros, que matem cidadãos. E A DROGA DO JURAMENTO QUE FIZERAM AO SE FORMAR?

{Atualização}

No vídeo acima, a médica loira, (pelo sotaque, nordestina), chama o funcionário negro de “cachorro” e “morto de fome”.  Eu não achei o vídeo de uma matéria feita depois, mas o funcionário chegou a alegar que ela disse que, se um dia dependesse dela para alguma emergência, ele morreria.

 

{Fim da atualização}

Eu estou doente, enjoado, indignado, eu estou podre. Eu morro por dentro cada vez que vejo uma figura de branco desejando a morte do povo em nome do dinheiro.

Sei que o Governo está pisando no calo de todos agora, mas vocês já lucraram muito, deram as cartas por muito tempo. Como é estar do outro lado agora?

Xenófobos, racistas… Eu tenho vergonha de morar no mesmo país que vocês.

medicos

(Foto: Divulgação – Jarbas Oliveira/Folhapress)

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Coisas que só acontece no Espírito Santo. Já viram REMAKE de propaganda?

Pois bem. O comercial abaixo não tem 10% da emoção que havia no original, perdido em alguma fita por aí.

A empresa Pianna, que vende tratores no ES, tinha uma das melhores propagandas já feitas no Estado – ouso dizer do Brasil.

O clipe abordava a questão do êxodo rural. A cantora melancólica, pedindo para que o marido não saia do campo era de cortar o coração.

O clipe original era de 1983 e, talvez carregado pela nostalgia, seja uma das coisas mais marcantes da minha infância.

Este remake foi feito em 2010, dirigido por  Carlos Bauer Teixeira Sturzeneker, autor da letra:

 

“Ouvi um moço falando em ir pra cidade. Mas ele não sabe da grande dificuldade. Aqui se planta, aqui se colhe. Nossa mesa é tão farta. A cidade grande não tem a força da terra, o arroz, o feijão, o milho e o café. Quem é que vai plantar? Fica, moço, não vá. Deus deu a terra pra se plantar. Fica moço, não vá. Deus deu a terra pra se plantar.”

 

Não se mostrava um trator, não vendia o produto. Só dizia que a empresa acreditava no homem e na terra.

Segundo apuração de Ronald Mansur para o jornal A Gazeta, o Bauer vivia de oferecer ideias às empresas. Como o foco na época era o êxodo rural, ele escreveu a letra e apresentou ao dono da Pianna, que topou o projeto. Para saber um pouco mais, é só clicar aqui.

Para mim, esse comercial está impresso na minha memória de forma clara, a ponto de achar que o remake não fez jus. Mas isso é um coração saudoso falando. Quando vi pela segunda vez, para checar se não tinha mesmo um trator, tive a mesma sensação de quando via quando moleque.

Aí voltou tudo: café na caneca de ferro esmaltada, que queimava a boca e não deixava a gente segurar direito a alça, a polenta doce com coco ralado, os programas sertanejos nas rádios AM, dos quais falarei quando puder. E o comercial.

O remake me fez algo que eu não conseguia fazer na época, por puro desconhecimento do que acontecia comigo quando o via.

Na pequena tela do youtube, uma moça que interpretou outra moça, que interpretou uma moça do campo, me fez chorar.

Ps.: querem se comover de verdade? Vejam os relatos de quem viu o vídeo original, nos comentários do remake.

indignados

Numa conversa com meu amigo Thales Ramos, um ex-aluno do curso de roteiro para quadrinhos que aplico no Rio, surgiu uma pergunta:

– Você gostou de Habibi? – ele me perguntou;

– Me esforcei para gostar – respondi.

– Como assim?

– Tive que dar o braço a torcer.

ciadasletras_habibO papo continuou, mas a partir dessa frase, “…dar o braço a torcer”, eu explico o que (me) acontece: não vou dividir ou resumir o mundo literário a esses dois tipos de autores, mas certamente eles existem:

1 – O autor indignado

Ele ainda não foi “descoberto” por uma grande editora. Ele não é lido aos milhares, mas as poucas pessoas que acompanham o seu trabalho sabem do seu talento e que sucesso é uma questão de tempo (e sorte).

Esse ser humano acompanha o trabalho de todo o mundo (ou simplesmente os ignora) e os acham inferiores. Aí vem a indignação.

Por que eles conseguem mais oportunidades do que eu?
Como eles conseguem publicar e eu não?
Que texto merda é esse?
O que esse idiota faz numa editora grande?
O que essa cambada faz em grandes eventos?
Por que eles estão em Frankfurt?

Mas o pior do indignado é intolerância. A melhor desculpa é: “Não acho errado os caras estarem lá, o que eu não acho certo é eu não estar lá com eles.”

O que é uma mentira. Uma conquista em conjunto nunca será igual a uma conquista solitária. Se pudesse, o indignado não dividiria os louros, seria a atração única, seu livro estamparia todas as torres de venda e teria um exemplar dele em todos os departamentos. O indignado se revolta até quando não existe mais motivos. Quando for publicado, sempre se perguntará sobre os contratos alheios.

Ele vai depender do ódio ilusório de quem o cerca, achando que tem queixas. É falar um nome e a pessoa responder: “Esse fulano não gosta de mim”.

O indignado é o eterno mártir até no sucesso. Quando conseguir fãs, vai reclamar dos jornais que não o divulgam. Se os jornais o divulgam, vão reclamar das críticas. Se as críticas são boas, vão reclamar da editora, da falta de atenção, de não estar em todos os eventos.

Seu motor é movido pela indignação. É de um inimigo pessoal que sai seu vilão, é do seu sofrimento com ataques fantasiosos que saem suas tramas, é da sua editora que não lhe dá a atenção que se arma uma vingança pessoal, em busca de milhares de leitores e uma comprovação de que ele estava certo o tempo todo.

Sem ódio, sem indignação, esse autor desanda. Ele nunca será feliz por isso.

2 – O autor em construção

Ele caminha com passos firmes de que nada sabia desde o começo. Ele experimenta, olha em volta e percebe que nada sabe. E quanto mais ele pesquisa, percebe o quanto é pequeno.

O autor em construção tem tudo para indignar-se. Ao ler um livro de um “colega” (na maioria das vezes ele vai se referir aos mais velhos como “mestre”), ele vai descobrir que tudo o que pensara flerta com o que viu. Imagine o quão frustrante pode ser você querer completar o quebra-cabeças com uma peça que você acha que falta e descobre que aquela peça é, na verdade, uma ponte para um quebra-cabeças ainda maior. Maior que o tempo que você tem, maior do que a sua vida.

Ele vai construir sua carreira com diversos livros incompletos, pois a vida é maior do que está ali. E cada novo livro que ele tiver nas mãos será uma benção, um indicativo de caminho.

Cada evento onde ele vir seus mestres, ele vai ver como oportunidades de encontrá-los.
Ele se sentirá representado, mesmo que seu texto nada tenha a ver com o que foi levado a Frankfurt.
Cada editora que investir em um conteúdo nacional, lhe dará esperanças.
Cada texto ruim que ler, será uma oportunidade de ver há oportunidade para todos.

O autor em construção vai, até exageradamente, rebaixar seu potencial em vista de um talento. Novo ou antigo.

Ele sabe absorver o conhecimento oferecido. Mais do que isso, ele precisa disso. Ele precisa encontrar uma peça que falta, que o motiva a continuar procurando, motivando uma fome de saber e até uma espécie de indignação.

No final, ambos são indignados com suas condições.

Mas um culpa o mundo e outro, a si mesmo.

Já me indignei com o mundo, achava que ninguém me dava uma oportunidade (em alguns campos, ainda rola um resquício desse sentimento). Mas como diria Fábio Yabu, “O ônus da ideia é de quem a tem”.

Não posso culpar o mundo por não investir em mim. É preciso que eu mostre a todos por que é bom investir em mim.

E ao ver o Habibi, trabalho de Craig Thompson, eu notei que ainda falta muito para que meu trabalho atinja uma qualidade. E seria mais fácil dizer que o material é confuso, que a história é cabeça… seria tão fácil se indignar, achar que um material como aquele não mereceria uma vitrine como a Cia das Letras, que a publicou no Brasil.

E por ser tão fácil fazê-lo, tive que por de lado e aceitar que o trabalho é digno de aplauso. Que é bonito, denso e uma história que tem muito a colaborar com a busca pela qualidade na criação de histórias em quadrinhos.

É tão difícil chegar a um nível de qualidade na escrita. É fácil se indignar com a conspiração mundial ilusória à espreita na porta de casa.

Com as armadilhas armadas, eu só preciso ter cuidando onde vou pisar.

 

Notícias

A Corrente a R$ 2,26. Coloquei um “e-book versão do autor” de A Corrente na Amazon, pelo preço de R$ 2,26. É a sua oportunidade de ler o livro!

Os Passarinhos no Publishnews. Volteia publicar Os Passarinhos – Vida de Escritor inédito no site da Publishnews. Todo a sexta uma tira nova. Começamos uma série que vocês vão gostar!

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Minha primeira experiência numa bienal foi em São Paulo, quando encarei 14 horas de ônibus na viagem mais longa que havia feito na minha vida até aquele momento. Eu tinha 25 anos e ainda morava em Vitória, no Espírito Santo.

O primeiro desafio foi vencer o enjôo. A labirintite não me deixava ir de Vitória à Serra, municípios vizinhos, imagine sair do Espírito Santo, cruzar o Rio e chegar em São Paulo. Foi um horror.

E o que eu estava fazendo indo a uma feira tão longe de casa? Fui levar os primeiros cinco capítulos de A Corrente, impressos como um zine. Fiz 50 cópias e distribuí para todas as editoras que eu via como promissoras: E era louco ver todas aquelas pessoas juntas num imenso pavilhão. Livros, livros e mais livros. E um cara totalmente perdido por lá. Mas adorei. No primeiro dia, eu paguei para entrar. R$ 8,00 uma entrada inteira por bancar o esperto. Uma fila havia sido aberta para quem tinha R$ 8,00 trocados. Fui lá e paguei, me sentindo o máximo.

Naquela época eu havia publicado o Tristão, meu personagem em quadrinhos em duas edições: pela Escala e um minigibi independente e encontrei no estande da Devir uns conhecidos de internet, todos com crachás. Senti uma inveja, porque eu os reconheci, mas não fui reconhecido.

Aí percebi como um pedaço de papel em volta do pescoço com o seu nome pode fazer diferença. No dia seguinte, fui no balcão e apresentei minha revistinha do Tristão (unica que tinha!) e ganhei minha credencial como autor. A própria menina da recepção me tratou diferente: – Ah, você faz quadrinhos? Que legal!

E desfilei com aquele pedaço de papel pendurado. E naquele universo de milhares de amantes da literatura, fui reconhecido por uma. Roberto Guedes, que estava no estande da Comix. Ah, e pelo próprio dono da Comix, o Jorge. Missão cumprida, credencial!

Então, desde 2004 a minha diversão estava sendo ir à Bienal de São Paulo e desfilar com meus quadrinhos (acabava lançando algo a cada 2 anos mesmo) e fazendo contatos, e cada vez mais pessoas me conheciam e reconheciam.

E em 2007, fui pela primeira vez à Bienal do Rio. Nessa viagem conheci a Ana e o resto é história: Hoje moro no Rio e tento sempre ir às duas Bienais: Rio e São Paulo.

Mas na de 2011, algo aconteceu. Quando fui lá, tentar a minha credencial, me disseram que não dariam mais credenciais aos autores (talvez pelo número crescente deles nos eventos), e receberíamos um pequeno ticket que daríamos na bilheteria e entraríamos de graça.

E aí começou o diálogo mais egocêntrico da minha vida:

– Oi.

– Oi, em que eu posso ajudar?

– É que eu sou autor e queria uma credencial.

– Não estamos dando mais credencial, é um ticket e você entrega lá na bilheteria.

– Mas aí eu não terei uma identificação?

– Não, mas vai entrar de graça.

– Mas não venho aqui para entrar de graça, menina. Eu gostaria de ter uma credencial.

– Não damos credenciais, senhor.

– Mas você não está entendendo: um dos poucos prazeres que tenho nesta época do ano é desfilar por esses corredores cheios de livros com uma credencial de autor. Isso me faz feliz, me mostra que também faço parte deste evento.

– Mas não damos credenciais, senhor.

– Mas você não entendeu. Eu não sou Mauricio de Sousa, eu não sou ZIraldo e muito menos a Thalita Rebouças. Ninguém ali irá me reconhecer porque meus trabalhos ainda não alcançaram a visibilidade que bote esta carinha linda em um jornal, na TV ou um cartaz de editora. Portanto, minha única alegria é quando encontro um fã perdido em meio a essa galera imensa e ele olha para a minha credencial e me diz: “Você é o autor de A Corrente, você é o autor de Os Passarinhos, você é o autor do Tristão”.

– Mas eu não posso fazer nada, meu senhor.

– Você pode sim, porque um dos poucos prazeres que eu tenho nesta época do ano…

E cada vez que a garota falava que não podia fazer nada, eu dizia:

– Você não está entendendo, um dos poucos prazeres…

Aí, ela me passou para uma outra pessoa, que me perguntou o problema.

– Um dos poucos prazeres…

E me passaram para a gerência da Fagga Eventos:

– Um dos poucos prazeres…

Então, me disseram:

– Ok, já entendi! Podemos te dar uma credencial de profissional do livro.

Desfilei com a minha credencial no primeiro dia de evento, com a palavra “Autor” debaixo do meu nome.

Quando alguns autores, que não conseguiram o mesmo, me perguntaram o que fiz para conseguir a credencial, eu disse:

– Um dos poucos prazeres que eu tenho…