Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Maria José, Paulo Sodré e eu na palestra sobre Literatura Infantil.

Na última sexta (16/05) estive na Feira Capixaba de Literatura, que aconteceu na Praça do Papa, em Vitória/ES,  para debater sobre literatura infantil. Na companhia da professora da UFES Maria José de Paula e com mediação de Paulo Sodré, agreguei ao tema o fato do professor ser um facilitador do acesso das crianças aos livros, por eles conhecerem gêneros literários e assim oferecerem mais opções para as crianças.

Na plateia, integrantes da Academia Espírito Santense de Letras e da Academia Feminina Espírito-santense de Letras, alunos da rede pública, educadores, alunas da Maria José e uns dois convidados meus.

Claro que intimida estar num lugar com um bocado de gente gabaritada em literatura olhando o que eu tinha para falar, mas também foi gratificante ver que essas mesmas pessoas estavam interessadas em me ouvir, seja como profissional ou sobre meus percalços também.

Numa determinada altura da conversa, o presidente da Academia Espirito Santense de Letras disse que “a melhor coisa que fiz foi sair do Estado”, porque lá não existem formas de se viver como escritor. Apesar de eu ter trocado o Espírito Santo pelo Rio de Janeiro por, entre outros motivos, querer me dedicar à escrita, eu acho a opinião dele é equivocada. Pelo menos, parcialmente.

Antes de mais nada, pela natureza do que faço, – que é escrever, desenhar e roteirizar – prefiro ser chamado de “autor”.

Segundo, não foi a mudança espacial – sair do Espírito Santo e ir morar no Rio de Janeiro – que me fez ter mais oportunidades. A mudança foi uma revolução interna.

Pense assim: Um administrador de empresas no Brasil pega sua graninha e vai para os EUA tentar mudar de vida. Disposto a se manter lá a qualquer custo, pega um trabalho de garçom, vai limpar chão, cuidar de cães, entre outras coisas.

Para economizar, ele deixa de sair, consome o que lhe é mais barato, economiza o máximo… Tudo o que ele poderia ter feito no Brasil.

Na verdade, a mudança espacial é uma forma de tirar a pessoa de seu ambiente confortável, ligar o modo “sobrevivência” e aumentar a aposta. Foi o que fiz ao vir para o Rio. Aumentei a aposta, porque num ambiente cômodo como era, estar perto da família e ter um emprego estável desestimula o desafio. Qualquer desafio.

A realidade é que a vida de um escritor, assim como qualquer pessoa ligada a arte e esportes, é uma loteria. Não dá para imaginar para onde vai levar o fruto de seu trabalho e, na maior parte das vezes, esta sua maior expressão é relegada a segundo plano.

 

Você é jornalista E escritor.

É professor E escritor.

É advogado E escritor.

É auditor fiscal E escritor.

É aposentado-de-alguma-profissão E escritor.

Para o escritor ser “escritor” E alguma coisa – ou seja, sua profissão/vocação/condição vir em primeiro lugar – é preciso uma reunião de tantos elementos que é impossível descrevê-los como uma receita, dar em lista (que será sempre pobre, se pensarmos no número de possibilidades que a vida pode nos proporcionar), ou dar as dicas.

Ainda no tal evento, um colega me apresentou a outro: “Este é o Estevão, ‘cartunista’ (pois é, todos que fazem ilustrações vira cartunista para o pessoal), publica fora do Estado e do país, SÓ NÃO NOS DÁ O CAMINHO DAS PEDRAS…”

Como se eu soubesse… O que faz um indivíduo imaginar que eu sei uma fórmula para fazer qualquer autor ser publicado? Que as experiências que vivi servirão para ele?

Se eu pudesse dar uma dica, seria… não tem macete, povo.

Tudo que você fizer em prol de sua escrita é apenas um aumento de probabilidades, não um acerto em si.

O escritor André Vianco começou sua carreira literária pagando a impressão de seu primeiro livro.

O sucesso de vendas Eduardo Spohr mostrou a força da internet ao ter a tiragem independente de seu livro noticiado num podcast.

Gritar na feira, oferecendo seu livro, funcionou para que a Thalita Rebouças não passasse desapercebida no lançamento de seu primeiro livro numa Bienal.

Comprar bots (programas) para turbinar o número de curtidas da sua página no Facebook serviu para outros.

Ser melhor vendedor do que escritor do próprio trabalho também. Pensando nesta, seria o escritor vendedor E escritor?

Ler dezenas de livros, fazer cursos, ouvir palestras, ir a lançamentos, ter uma boa network, tudo isso pode ser considerado na equação que levará o livro de seu computador para uma editora, tanto quanto a qualidade de seu trabalho.

Sério. Qualidade literária também é um conceito relativo. Quem pode dizer que o texto é bom ou ruim? Um bocado de gente, eu sei! Para isso tempos doutores, linguistas, estudiosos habilitados a dizer que o texto é bem escrito, discorrer sobre a estrutura do texto, mas o que não agrada uns pode realmente ser publicado por outro em favor de muitas questões.

“Seu editor não gosta de mim, mas seu leitor gosta!” pode ser também um ponto a ser considerado para ser publicado, por que não? Ou você acha que editor também não é funcionário?

Talvez ele seja editor E escritor.

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indignados

Numa conversa com meu amigo Thales Ramos, um ex-aluno do curso de roteiro para quadrinhos que aplico no Rio, surgiu uma pergunta:

– Você gostou de Habibi? – ele me perguntou;

– Me esforcei para gostar – respondi.

– Como assim?

– Tive que dar o braço a torcer.

ciadasletras_habibO papo continuou, mas a partir dessa frase, “…dar o braço a torcer”, eu explico o que (me) acontece: não vou dividir ou resumir o mundo literário a esses dois tipos de autores, mas certamente eles existem:

1 – O autor indignado

Ele ainda não foi “descoberto” por uma grande editora. Ele não é lido aos milhares, mas as poucas pessoas que acompanham o seu trabalho sabem do seu talento e que sucesso é uma questão de tempo (e sorte).

Esse ser humano acompanha o trabalho de todo o mundo (ou simplesmente os ignora) e os acham inferiores. Aí vem a indignação.

Por que eles conseguem mais oportunidades do que eu?
Como eles conseguem publicar e eu não?
Que texto merda é esse?
O que esse idiota faz numa editora grande?
O que essa cambada faz em grandes eventos?
Por que eles estão em Frankfurt?

Mas o pior do indignado é intolerância. A melhor desculpa é: “Não acho errado os caras estarem lá, o que eu não acho certo é eu não estar lá com eles.”

O que é uma mentira. Uma conquista em conjunto nunca será igual a uma conquista solitária. Se pudesse, o indignado não dividiria os louros, seria a atração única, seu livro estamparia todas as torres de venda e teria um exemplar dele em todos os departamentos. O indignado se revolta até quando não existe mais motivos. Quando for publicado, sempre se perguntará sobre os contratos alheios.

Ele vai depender do ódio ilusório de quem o cerca, achando que tem queixas. É falar um nome e a pessoa responder: “Esse fulano não gosta de mim”.

O indignado é o eterno mártir até no sucesso. Quando conseguir fãs, vai reclamar dos jornais que não o divulgam. Se os jornais o divulgam, vão reclamar das críticas. Se as críticas são boas, vão reclamar da editora, da falta de atenção, de não estar em todos os eventos.

Seu motor é movido pela indignação. É de um inimigo pessoal que sai seu vilão, é do seu sofrimento com ataques fantasiosos que saem suas tramas, é da sua editora que não lhe dá a atenção que se arma uma vingança pessoal, em busca de milhares de leitores e uma comprovação de que ele estava certo o tempo todo.

Sem ódio, sem indignação, esse autor desanda. Ele nunca será feliz por isso.

2 – O autor em construção

Ele caminha com passos firmes de que nada sabia desde o começo. Ele experimenta, olha em volta e percebe que nada sabe. E quanto mais ele pesquisa, percebe o quanto é pequeno.

O autor em construção tem tudo para indignar-se. Ao ler um livro de um “colega” (na maioria das vezes ele vai se referir aos mais velhos como “mestre”), ele vai descobrir que tudo o que pensara flerta com o que viu. Imagine o quão frustrante pode ser você querer completar o quebra-cabeças com uma peça que você acha que falta e descobre que aquela peça é, na verdade, uma ponte para um quebra-cabeças ainda maior. Maior que o tempo que você tem, maior do que a sua vida.

Ele vai construir sua carreira com diversos livros incompletos, pois a vida é maior do que está ali. E cada novo livro que ele tiver nas mãos será uma benção, um indicativo de caminho.

Cada evento onde ele vir seus mestres, ele vai ver como oportunidades de encontrá-los.
Ele se sentirá representado, mesmo que seu texto nada tenha a ver com o que foi levado a Frankfurt.
Cada editora que investir em um conteúdo nacional, lhe dará esperanças.
Cada texto ruim que ler, será uma oportunidade de ver há oportunidade para todos.

O autor em construção vai, até exageradamente, rebaixar seu potencial em vista de um talento. Novo ou antigo.

Ele sabe absorver o conhecimento oferecido. Mais do que isso, ele precisa disso. Ele precisa encontrar uma peça que falta, que o motiva a continuar procurando, motivando uma fome de saber e até uma espécie de indignação.

No final, ambos são indignados com suas condições.

Mas um culpa o mundo e outro, a si mesmo.

Já me indignei com o mundo, achava que ninguém me dava uma oportunidade (em alguns campos, ainda rola um resquício desse sentimento). Mas como diria Fábio Yabu, “O ônus da ideia é de quem a tem”.

Não posso culpar o mundo por não investir em mim. É preciso que eu mostre a todos por que é bom investir em mim.

E ao ver o Habibi, trabalho de Craig Thompson, eu notei que ainda falta muito para que meu trabalho atinja uma qualidade. E seria mais fácil dizer que o material é confuso, que a história é cabeça… seria tão fácil se indignar, achar que um material como aquele não mereceria uma vitrine como a Cia das Letras, que a publicou no Brasil.

E por ser tão fácil fazê-lo, tive que por de lado e aceitar que o trabalho é digno de aplauso. Que é bonito, denso e uma história que tem muito a colaborar com a busca pela qualidade na criação de histórias em quadrinhos.

É tão difícil chegar a um nível de qualidade na escrita. É fácil se indignar com a conspiração mundial ilusória à espreita na porta de casa.

Com as armadilhas armadas, eu só preciso ter cuidando onde vou pisar.

 

Notícias

A Corrente a R$ 2,26. Coloquei um “e-book versão do autor” de A Corrente na Amazon, pelo preço de R$ 2,26. É a sua oportunidade de ler o livro!

Os Passarinhos no Publishnews. Volteia publicar Os Passarinhos – Vida de Escritor inédito no site da Publishnews. Todo a sexta uma tira nova. Começamos uma série que vocês vão gostar!