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ubaldo_ariano

Se existe uma forma de se tornar imortal é através da obra.

O reconhecimento pode ser algo buscado, conquistado ou às vezes, chega como um presente. Ser lembrado pelo que disse, pelo que escreveu, pelo que pintou, construiu, cantou, empreendeu, defendeu, lutou, quis, ou até pelo que optou não fazer.

Sempre houve uma ação, sempre coube o autor uma decisão. Só passa para a eternidade quem age.

Mas nem tudo vem com uma assinatura. Os pontos dados na testa de uma criança, o tijolo preso com o cimento, o asfalto posto nas ruas tem um autor. Aliás, vários autores. Esses duram o tempo de sua obra. A antes da velhice a pessoa talvez esqueça que a operou – talvez nunca saiba –, o tijolo é coberto pelo reboco, depois pela pintura e lá muitos anos depois não sabemos quem levantou aquela casa. Não falo o engenheiro, o arquiteto, falo daquele que usou sua habilidade para construir.

O asfalto já foi coberto e recoberto, e recoberto, por autores anônimos. O cimento da calçada não tem autor, tem apenas usurpadores, crianças que assinam como se fossem delas aquele pedaço de chão.

Não é fácil chegar à imortalidade. Também não sabemos se temos tantos interessados. E talvez quem tenha se tornado não queria. Apenas é.

Mas o importante é que eles existem. Tive dificuldades de entender, quando criança, que existiam pessoas com esse nome. Curiosamente, velhos de cabeça branca, que nos deixavam poucos anos depois de receberem o nome.

Como é isso? Dizem que a pessoa é imortal e depois dela morre?

Para mim parecia ritual de investigação de bruxas: Pega uma mulher, acorrenta ela e joga no lago. Se sobreviver, era bruxa. Se não…

Ser imortal me parece ser um pacto formal, onde dizem: “Você é importante demais para ser esquecido.”

Depois percebi que os imortais apontam a direção. Cada vez deixamos de contar com a direção física de um, nos apoiamos nas lembranças e obras, mas ainda assim, como pessoas que confiam apenas num mapa para chegar a algum lugar, por vezes ficamos sem norte. Mas com a ida de João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, podemos dizer que ficamos sem Nordeste.

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O curta-metragem “Saia do meu quarto”, dirigido por pelo escritor multimídia André Vianco e roteirizado por mim, é uma adaptação em um dos capítulos de Rua M, 58, meu próximo romance.

O livro conta a história de um casal que vai visitar uma casa em Domingos Martins, interior do estado do Espírito Santo, mas é dissuadido pelo proprietário de um bar a desistir, através de histórias trágicas que ocorreram no local.

É o primeiro tratamento, ainda sem revisão então… Desculpem qualquer erro! 😉

 

Capítulo 5

SAIA DO MEU QUARTO

– Ei, você – aponta Teodoro para um senhor sentado próximo ao balcão – não é você que conhece a história daquela família que se mudou para há dois anos?

O homem não se mexe. Parece não querer muita conversa. Continua tomando uma cerveja com um pesar de quem não queria estar ali.

– Ah, vamos lá, rapaz! Não vai doer se você contar o que sabe daquele casarão maldito!

– Deixa ele, cara, – Bernardo tenta quebrar o longo e constrangedor silêncio entre os pedidos de Teodoro – não deve ser nada interessante.

A insistência de Teodoro ou o pouco caso de Bernardo convence o rapaz:

– O que eu tenho a falar não é interessante, pois ninguém com o mínimo de compaixão pode achar que o desmantelamento de uma família é uma boa história.

Os olhares de Bernardo e Cíntia os provava do contrário. E então ele resolveu contar.

 

***

 

Há cerca de dois anos, uma família que vivia naquela casa foi desfeita de forma misteriosa. Uma família perfeita. Pai, mãe e uma filha. Os rostos felizes de Leonardo, sua mulher Melissa e a pequena Carol ainda estavam emoldurados, eternizados no porta-retrato em cima da mesa de trabalho de Melissa.

A mulher que contemplava a foto da família era uma cópia desfigurada pelo choro e pela perda. O contraste era aparente e a taça de vinho ao lado da garrafa quase vazia era necessária para superar e seguir em frente. O período de luto devia passar, ela ainda tinha ainda que uma rocha para quem ficou.

Mas Melissa parecia quer morrido para o mundo. Ignorava tudo e todos, telefonemas e e-mails de parentes e de colegas de trabalhos. Até para as pessoas mais próximas.

– Mãe – disse Carol, chegando sorrateiramente.

Melissa ignorou a filha, de rosto angelical abraçada a um grande urso. Mas a menina insistiu: – Mãe… O papai está lá no meu quarto de novo!

Carol não tinha mais que sete anos, filha única, única sobrinha, única neta… Mimada por todos os lados. Tinha seus desejos atendidos da primeira vez que pedia algo. Mas o estado da sua mãe naqueles dias não a deixava contente.

A menina apertava o urso, descontando toda a frustração de não ser atendida pela querida mãe. Talvez ela tivesse um pouco de medo também, já que o pai dela estava em seu quarto, seu refúgio, seu pequeno castelo cor de rosa. Carol levou o polegar na boca, mastigando o dedo, esperando alguma reação de sua mãe, que soluçava copiosamente.

Ao ver que o quadro não mudaria, Carol bateu o pé, jogando seu urso no chão.

– Mãe, manda o papai sair do meu quarto! Eu quero dormir e ele está lá! Eu quero que ele saia do meu quarto agora!

Melissa se recompôs enxugando os olhos, colocando a foto de pé de volta na mesa de trabalho.

– Desculpa, filhinha. Eu não devia estar chorando assim.

– Tudo bem! Agora dá pra pedir o papai para sair do meu quarto?

Ela ainda acariciou a imagem da família feliz mais uma vez, antes de levantar se escorando nas paredes.

Quando viu Melissa sair pela porta da sala que dá acesso ao corredor, Carol pediu mais um capricho:

– Mãe, faz um chocolate para mim?

Carol, essa menina sempre conseguiu tudo mesmo! Estava lá a Melissa indo para a cozinha fazer o chocolate!

Melissa misturou o chocolate no copo de vidro, fazendo um barulho hipnótico para Carol, que observava com atenção o que a mãe fazia.

Mas o som intermitente feito por Melissa disputou espaço na casa com um gemido gutural. Melissa olhou para o corredor que dava acesso a sala e quartos com espanto. Carol apontou para a mãe com olhos arregalados e preocupados.

– Eu falei que papai tava no meu quarto.

Melissa andou cautelosamente pelo corredor mal iluminado com o copo chocolate nas mãos, seguida por Carol, acompanhada pelo urso que ela arrastava pelo pé, como uma medrosa fila indiana. Os calcanhares descalços de Melissa faziam o contato com o piso do corredor um som seco. Se houvesse um vizinho embaixo da casa, ao invés de um escuro porão, fechado há anos, ele já teria reclamado com a imobiliária.

– Não se preocupa, mãe! É o papai que está no meu quarto. O problema é que ele está daquele jeito de novo e só você consegue tirar ele de lá.

Melissa olhou para trás, assustada. Ela procurou um interruptor, mas percebe que a luz está queimada. Ela já falou tanto para Leonardo trocar a lâmpada, mas nas atuais condições era impossível para ele.

Carol acompanhou a mãe de perto o bastante para vê-la se aproximar da porta do quarto, encostar a cabeça na porta, como se tomasse coragem para enfrentar quem ali se encontrava. Melissa tocou na maçaneta gelada, que transfere todo o seu frio para a espinha da mãe apavorada com a situação que terá que enfrentar. Uma vez a mão na maçaneta, ela respirou fundo e a torceu.

Melissa abriu vagarosamente a porta, temendo o que encontraria por lá. Na medida em que a porta abria um pouco de luminosidade vinda de fora do quarto que escapava para o corredor sem luz, contribuindo para um clima fantasmagórico.

O gemido era facilmente ouvido e reconhecido: Leonardo mesclado às sombras, provocadas pela cortina. Quarto apagado, luz distante do poste da rua, silêncio interrompido ora pelo fungar de um homem perdido ou de um cão latindo na rua.

– Leonardo?

A figura sentada na cama de Carol parecia chorar a décadas. Lágrimas, saliva e urina tomavam o chão. Ele não saia daquele quarto, cada vez mais consumido pela aura do local. Melissa olhava pálida a figura do marido naquele ambiente cheirando a morte.

Ela engoliu a seco e ensaiou um pouco de autoridade.

– Leonardo, saia daí.

– Eu não consigo deixar este lugar, Melissa.

Melissa se aproximou com cuidado. Ela se perguntava se aquela poça formada no chão era real. Mantendo uma distância segura do imprevisível Leonardo. Ela respirou fundo uma, duas vezes. Sua respiração virou quase um soluço descontrolado. Melissa precisava retomar o controle, precisava dizer as palavras certas.

– Mas é preciso, amor. Não tem nada aqui pra você, nem pra mim!

– Até parece que você não se importa! – disse Leonardo de olhos serrados, aumentando a quantidade de lágrimas escorrendo pelo rosto.

Carol não se atreveu a entrar no quarto, encostada na parede ao lado da porta, abraçada com o urso escutando a mãe falar. Melissa, alterada, falou alto, mostrando quem manda ali. Carol se contraiu, pegando as mãos do urso de pelúcia e colocando em seus ouvidos, na esperança de abafar a briga.

Dentro do quarto, Leonardo pareceu ter entendido Melissa. Ele olhou para um urso na cabeceira da cama de Carol, curiosamente parecido com o que a filhinha carregava. Leonardo parecia ignorar o que Melissa diz, se esforçando para conter as lágrimas.

– Não é justo você dizer isso. Eu estou apenas tentando seguir em frente e preciso que você faça o mesmo.

Leonardo olhou para a sua esposa e fez menção a tocar no urso. – Posso?

Melissa consentiu com a cabeça, quase chorando. Leonardo estendeu a mão para pegar o urso na cama. Suas mãos chegaram a ele com uma leveza e graça que parece atravessá-lo.

– Nãããão! Isso está errado! – gritou Carol, do corredor.

Leonardo e Melissa saíram do quarto, passando do lado da menina de olhos vermelhos, que abria as suas mãos em forma de garras, intencionada a acertar alguém.

Leonardo levou do quarto o urso, o abraçando fortemente, enquanto a menina os amaldiçoava com todo o ódio de uma garota mimada que não tinha mais os seus desejos atendidos.

– Eu ainda consigo ver ela abraçada com esse urso. – dizia Leonardo, tentando conter os soluços de seu choro.

– Ela adorava esse urso. Chamava ele de Gimbo, eu acho. Agora, toma seu chocolate.

Carol parou de gritar, ao ver que nunca seria ouvida, voltou para o seu quarto, o lugar onde passou os momentos felizes de sua vida.

Ao andar batendo os pés com raiva, ela fez algo rotineiro de quando ela era contrariada: bater a porta com força.

O som extremamente familiar despertou em Leonardo e Melissa a certeza de que não estavam sozinhos naquela casa.

 

– Nossa – se espanta Bernardo – e o que aconteceu com a menina?

O homem olha para o copo, como se não se importasse com a história que contara.

– Vagou pela casa tentando ter seus desejos atendidos. Talvez já tenha tomado coragem e seguiu em frente, mas a sua morte prematura pode dificultar muito a pessoa deixar os vivos… viverem. – Conclui o senhor, que ainda carrega a mesma obscuridade no olhar.

Sábado, dia dez de maio de 2014, teve um sabor diferente para mim.

Pela primeira vez, tive um texto meu publicado no jornal A Gazeta. Eu já havia trabalhado para o jornal, escrevendo histórias em quadrinhos para o segundo jornal da casa, o Notícia Agora, mas eram textos em balões e, por mais profundo que eu tentasse soar, não seria levado a sério.

Mas no sábado em questão, eu estava entre os “adultos”, meu texto não tinha figuras, não tinha fotos, nada que chamasse demasiadamente a atenção para o meu texto. Não usei os recursos visuais que dispus a vida inteira. Foram letras falando de minha vida e de como construí meus mundos.

A crônica que escrevi para o jornal Gazeta Online foi meio que uma “prestação de contas”.

Sete anos fora da minha cidade natal perseguindo um sonho e muitos de vocês já devem ter lido parte dessa história exaustivamente contada nos posts por aqui mesmo. Porém, em Vitória sou a pessoa que organizou 3 edições de uma feira de quadrinhos e publicou um bocado de quadrinhos no jornal Notícia Agora em 2000 e lançou um ou outro trabalho depois.

Esse texto foi uma forma de dizer “Ei, estamos por aí, ainda lutando, fazendo que muita gente achou que era perda de tempo”.

Pensando bem, eles não deixam de ter razão. Escrever, se dedicar às artes, num país onde as oportunidades são poucas, é perigoso, uma loteria, no máximo uma perda de tempo.

Mas é uma bela forma de perder tempo. Caso não esteja de saco cheio de ler sobre as minhas dificuldades, pode ler. Estava num jornal, sem desenho. Só letras.

10 05 2014 Pensar A Gazeta

 

Ps. Feliz dia das Mães.

Pessoal de Vitória, estarei por aí, para a Feira Literária Capixaba. Mais informações aqui!

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Hoje é o aniversário da mulher que me importou para o Rio de Janeiro. Num empreendimento ousado, ela me disse que a necessidade de convivência diária inviabilizaria a distância.

2013-12-13 17.45.22Ou você vem para cá ou terminamos. Então eu vim morar com Ana Cristina Rodrigues.

Desde então foi um desafio atrás do outro. Procurar trabalho, encaixar na vida a dois um garoto de seis

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anos. Encarar os preços exorbitantes do Rio, as pequenas distâncias feitas em horas por causa de trânsito, escrever, desenhar, provar que é possível viver de um projeto de vida. Tudo com ela ao lado, às vezes também na dianteira, muitas vezes também na retaguarda.

A Ana se cobra muito porque acredita que o que ela fez não foi o bastante.

Ela simplesmente ajudou muitos escritores, participou de grupos de discussão, leu originais de amigos, deixou de ganhar e de produzir seu próprio conteúdo para difundir o conteúdo alheio.

Tanto que virou presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, a primeira mulher a estar na frente de uma associação (e talvez um gênero literário) predominantemente masculino.

Antes do povo médio saber quem era George R. R. Martin e de posarem de grandes conhecedores de Úrsula Le Guin, Ana indicava e discutia sobre os autores.

ana_martinAntes de livros de fantasia atingirem o sucesso (ou pelo menos editoras) por aqui, ela os indicava para leitura.

Ana não quer provar que sabe mais. Numa discussão recente ela poderia ter dito que é Mestre em História Medieval pela UFF, mas basta saber que ela tem paixão pelo tema para não reduzir o que sabe a um título.

Ana produz muito e, se você não conhece seus mais de 30 contos publicados, é porque esse material está condenado a pequenas impressões sem ousadia, e talvez nunca chegue as tuas mãos.

anacronicasMuitos podem pensar na Ana Cristina como a pessoa que escreve comentários sarcásticos – porém verdadeiros – sobre os bastidores da literatura brasileira, ou das suas predileções por programas e filmes. Lhes convido a conhecer a Ana escritora, a Ana rara de se ver, porque entre uma tradução, o trabalho e a paixão de ser mãe e esposa, funcionária federal de uma instituição da biblioteca nacional e editora, esta Ana reprimida e relegada a segundo plano é a Ana que merece estar em todas as livrarias e é a Ana com quem troco idéias de histórias, de quem ouço e conheço os melhores mundos.

Parabéns para a minha esposa, escritora, historiadora, mãe e apaixonante Ana Cristina Rodrigues.

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Minha primeira experiência numa bienal foi em São Paulo, quando encarei 14 horas de ônibus na viagem mais longa que havia feito na minha vida até aquele momento. Eu tinha 25 anos e ainda morava em Vitória, no Espírito Santo.

O primeiro desafio foi vencer o enjôo. A labirintite não me deixava ir de Vitória à Serra, municípios vizinhos, imagine sair do Espírito Santo, cruzar o Rio e chegar em São Paulo. Foi um horror.

E o que eu estava fazendo indo a uma feira tão longe de casa? Fui levar os primeiros cinco capítulos de A Corrente, impressos como um zine. Fiz 50 cópias e distribuí para todas as editoras que eu via como promissoras: E era louco ver todas aquelas pessoas juntas num imenso pavilhão. Livros, livros e mais livros. E um cara totalmente perdido por lá. Mas adorei. No primeiro dia, eu paguei para entrar. R$ 8,00 uma entrada inteira por bancar o esperto. Uma fila havia sido aberta para quem tinha R$ 8,00 trocados. Fui lá e paguei, me sentindo o máximo.

Naquela época eu havia publicado o Tristão, meu personagem em quadrinhos em duas edições: pela Escala e um minigibi independente e encontrei no estande da Devir uns conhecidos de internet, todos com crachás. Senti uma inveja, porque eu os reconheci, mas não fui reconhecido.

Aí percebi como um pedaço de papel em volta do pescoço com o seu nome pode fazer diferença. No dia seguinte, fui no balcão e apresentei minha revistinha do Tristão (unica que tinha!) e ganhei minha credencial como autor. A própria menina da recepção me tratou diferente: – Ah, você faz quadrinhos? Que legal!

E desfilei com aquele pedaço de papel pendurado. E naquele universo de milhares de amantes da literatura, fui reconhecido por uma. Roberto Guedes, que estava no estande da Comix. Ah, e pelo próprio dono da Comix, o Jorge. Missão cumprida, credencial!

Então, desde 2004 a minha diversão estava sendo ir à Bienal de São Paulo e desfilar com meus quadrinhos (acabava lançando algo a cada 2 anos mesmo) e fazendo contatos, e cada vez mais pessoas me conheciam e reconheciam.

E em 2007, fui pela primeira vez à Bienal do Rio. Nessa viagem conheci a Ana e o resto é história: Hoje moro no Rio e tento sempre ir às duas Bienais: Rio e São Paulo.

Mas na de 2011, algo aconteceu. Quando fui lá, tentar a minha credencial, me disseram que não dariam mais credenciais aos autores (talvez pelo número crescente deles nos eventos), e receberíamos um pequeno ticket que daríamos na bilheteria e entraríamos de graça.

E aí começou o diálogo mais egocêntrico da minha vida:

– Oi.

– Oi, em que eu posso ajudar?

– É que eu sou autor e queria uma credencial.

– Não estamos dando mais credencial, é um ticket e você entrega lá na bilheteria.

– Mas aí eu não terei uma identificação?

– Não, mas vai entrar de graça.

– Mas não venho aqui para entrar de graça, menina. Eu gostaria de ter uma credencial.

– Não damos credenciais, senhor.

– Mas você não está entendendo: um dos poucos prazeres que tenho nesta época do ano é desfilar por esses corredores cheios de livros com uma credencial de autor. Isso me faz feliz, me mostra que também faço parte deste evento.

– Mas não damos credenciais, senhor.

– Mas você não entendeu. Eu não sou Mauricio de Sousa, eu não sou ZIraldo e muito menos a Thalita Rebouças. Ninguém ali irá me reconhecer porque meus trabalhos ainda não alcançaram a visibilidade que bote esta carinha linda em um jornal, na TV ou um cartaz de editora. Portanto, minha única alegria é quando encontro um fã perdido em meio a essa galera imensa e ele olha para a minha credencial e me diz: “Você é o autor de A Corrente, você é o autor de Os Passarinhos, você é o autor do Tristão”.

– Mas eu não posso fazer nada, meu senhor.

– Você pode sim, porque um dos poucos prazeres que eu tenho nesta época do ano…

E cada vez que a garota falava que não podia fazer nada, eu dizia:

– Você não está entendendo, um dos poucos prazeres…

Aí, ela me passou para uma outra pessoa, que me perguntou o problema.

– Um dos poucos prazeres…

E me passaram para a gerência da Fagga Eventos:

– Um dos poucos prazeres…

Então, me disseram:

– Ok, já entendi! Podemos te dar uma credencial de profissional do livro.

Desfilei com a minha credencial no primeiro dia de evento, com a palavra “Autor” debaixo do meu nome.

Quando alguns autores, que não conseguiram o mesmo, me perguntaram o que fiz para conseguir a credencial, eu disse:

– Um dos poucos prazeres que eu tenho…

Corro contra o tempo para fazer deste post meu presente de aniversário. No dia 02 de abril de 1979, exatamente aos 15 minutos do novo dia, eu nasci.

Segundo Dona Jane, minha mãe, ela segurou para que o filho não nascesse no Dia da Mentira. Mas como minha mãe teve as contrações e entrou em trabalho de parto no dia 1º, devo então ter nascido um pouco mentiroso.

Acho que não é de todo ruim, até porque o escritor é um contador de causos que,  na maior parte das vezes, não aconteceram. Mentir, mentir, eu não consigo muito. Também reconheço bem uma mentira.

No “face a face” era difícil me pegar no primeiro de abril. Oras, meu aniversário era no dia seguinte! Como esqueceria uma data dessas?

As pessoas que não tem costume de mentir muito geralmente o fazem com o queixo proeminente, uma boca mole, que não deixa a língua agir solta, formando os fonemas com se deveria. Mesmo quando caímos na conversa, acabamos por não compreender bem por causa da dicção comprometida pela vergonha. A gente acaba perguntando:

– Oi?

Ou melhor:

– Sério?

E a pessoa não consegue repetir sem rir. Ou fica com vergonha do que falou.

– Não, tô brincando.

Hoje, no “face book”, é mais difícil. Não dá para saber quem está mentindo. Cada hora, uma difamação aparece, um ponto de vista, um texto escrito por um anônimo creditado a um famoso é compartilhado a cara fez que apertamos F5 para atualizar a nossa tela.

Ah, não usamos F5. Não mais. Enquanto você lê algo, seus programas já avisam que você tem mais oito ou dez atualizações. Quero fazer algo que valha o seu tempo disposto aqui.

São quase 4 anos sem posts regulares neste blog e muita coisa mudou. Muita coisa mudou para mim também. Se o blog era para falar sobre as coisas que vivia como um capixaba aprendendo sobre o Rio, quero agora falar sobre as coisas que aprendi nesse tempo “fora”.

É claro que falaremos do hoje, até quando falamos do passado o pensamos com a cabeça de agora.

Apesar do tom sério desse texto, o nome do blog não mudou. Aqui, é para falar sobre as coisas que chateiam, mas que também nos fazem rir.

Principalmente se não for com você, né?

Vamos tentar novamente? Eu rio Muito, semanalmente no ar. Se tiver algo excepcional no meio do caminho (leia-se da semana), eu escrevo aqui também.

Um abraço para todos.

Estevão Ribeiro

Versão 3.4

Olá. Falei um tempo atrás no meu Facebook que voltaria a escrever textos para este blog, abandonado por causa da demanda das tiras Os Passarinhos. Nesses dois anos de sumiço do blog, muita coisa aconteceu, então o “Eu Rio Muito” será interessante do ponto de vista que, posso fazer comparações entre começo da minha estadia aqui e agora. São três anos e meio de Rio de Janeiro e o eu ainda não falo com “xis” igual. Ainda não perdi as minhas características “capixabísticas” e você, amigo leitor que se perdeu de mim nesse tempo todo saberá o que este rapaz fez para sobreviver aqui.

Mas por que reestrear o blog hoje? Bem, porque eu tinha um texto guardado que gostaria de postá-lo. Mas antes quero avisar: Este texto foi escrito antes de eu vir para o Rio e mostra minha admiração pelo lugar. Amo o Espírito Santo e isso não vai mudar, portanto, não “virei casaca”.

É que, como vou reclamar do Rio o ano todo, é de bom tom pegar leve em seu aniversário!
Parabéns Rio!

 

Meus filhos

Estevão Ribeiro

 

O que quero para meus filhos?

Quero que eles sejam a cara da mãe

Se nascerem com a cara do pai

Que ao menos tenham saúde

Que aprendam rapidamente que seu pai tem sono pesado

E, se precisarem de algo, qualquer coisa

Terão que gritar muito alto

Quero que desbravem o universo além berço

E ganhe a casa engatinhando, andando

Tudo ao seu tempo

Quero que eles corram pelo quintal

Brinquem numa rua sem saída

Me apresente um joelho ralado ao menos uma vez por semana

Quero que meus filhos tenham alegria de viver

E que respeitem os limites

Que aprendam desde cedo a respeitar as diferenças

A serem cidadãos

Não jogarem lixo no chão

Que não briguem, apenas defendam seu ponto de vista

Que eles saibam ceder

Que a minha menina, seja doce

Tenha carinho e saiba de todas as coisas na hora certa

Que traga o sorriso e o jeito maroto da mãe

A cada passo

Que as pessoas imaginem o trabalho que ela dará ao crescer

Tal qual a mãe

Que sejam expressivos, não guardem mágoas

Que tenham um cão ou dois, gatos

Conheçam pássaros, nunca tente prendê-los

Que eles aprendam que se pode ser feliz sem exageros

Que a educação é importante

E a curtição não seja sinônimo de irresponsabilidade

Que eles me ouçam, mesmo quando parecer que não tenho tanta razão

Ou nenhuma

Aprendam a ser tolerante

Quando o universo deles não for só preto e branco

Que dê um voto de confiança

Mas que também saiba que os homens são falhos

E podem ser maus

Quero que eles não percam a esperança no país, nem nos pais

Que tenham bossa no sangue

E uma alegria de viver e de contemplar o Sol de forma única

Quero que eles tenham ginga e não se acanhem numa roda de samba

E quero uma certa malícia no olhar de cada um

Quero que deixem suas marcas por onde passarem

As melhores possíveis

Aquelas que dobram até a inveja

Eu os quero lindos, respirando fundo a cada passo, confiantes

Eu quero que meus filhos sejam em qualquer lugar que escolherem para viver,

Que sejam  CARIOCAS de coração.

 

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