Eu preciso reconhecer que eu me saboto o quanto puder.

Apesar da plena confiança de que eu vou vencer na vida, alguma coisa me diz que não mereço.

Sou meu melhor incentivador, mas também sou meu maior inimigo. É que eu já ouvi tanta coisa, vi tanta coisa, vivi tanta coisa…

Desde pequeno, ouço coisas como “Ela é bonita demais para você”, “Você é um moreno bonito”, “Não é o que estamos procurando”, “Sua hora vai chegar”, “Só podia ser preto…”

A diferença grande em todas as fases da minha vida me mostravam o quanto a cor da pele pesa. Quando criança, estudando em escolas públicas, meus amigos brancos moravam na baixada e eu, na ladeira. O mais pobre branco que eu conhecia tinha uma casa de alvenaria, enquanto eu morava numa casa de madeira.

Os grupos musicais não tinham negros. Em compensação, eram maioria nos grupos de samba. Mesmo nas brincadeiras com os amigos, eu não estava numa banda porque Polegar, Dominó e Paquitos não tinham negros.

Jairzinho foi o grande representante negro, afinal, era um “moreninho bonitinho”.

Minha mãe, tentava diminuir a cobrança de ser negro em um bairro de Vitória com ladeiras e ruas, dizia que eu não era preto. Era moreninho. Logo depois dizia que precisava tomar um banho porque estava “cheirando a nêgo”.

Nós perpetuávamos o racismo. Como evangélicos, ligávamos os negros às religiões afros. Não nos misturávamos, não celebrávamos Cosme e Damião, não íamos ver o Ano Novo na praia para não encontrarmos os seguidores de Iemanjá.

Quando me apaixonei por uma garota branca, a família me achou metido, até disse que ela era bonita demais para mim.

Mas esqueceram (ou não sabiam) que as primeiras paixões da minha vida, com 9, 13 anos, eram lindas negras de sorrisos grandes e gengivas escuras.

E lembro do preconceito que era visitar uma delas, coisa que fiz por toda a minha infância, o olhar reprovador do pai dela. Por me sentir quem eu era, um negro pobre sem pai, achava que o problema era a minha cor, não o fato de eu ser um menino despertando para a adolescência e que pai nenhum gostaria perto da filha. Não era nada pessoal, mas eu me sabotei.

Quando eu ia ver filmes na casa de um amigo meu, as irmãs dele tinham nojo de mim por eu por a mão na bacia de pipoca e, ao comê-la, meus dedos encostavam na boca. Diziam que eu babava a pipoca, como todos eles faziam. Mas eles eram uma família de brancos, né?

Me sabotei no Centro de Artes da escola FAFI. Queria ser ator, mas com a minha cor só via escravos sofridos em remakes de novela. Vi um negro comendo terra, querendo voltar para a África. Vi gente falando errado. Vi uma negra num sítio, vi negros transando com Lucélia Santos num ferro velho.

Quis cantar, e vi Emílio Santiago, Gilberto Gil, Jair Rodrigues, Aguinaldo Timóteo, todos velhos até mesmo para aquela época. E quantos negros surgiram? No pagode, dezenas, décadas depois esquecidos. Mas em bandas de rock? Se não são apenas os músicos de apoio, como o pianista do Paralamas, ou o baixista da Legião Urbana, hoje um mendigo nas ruas do rio. Sobra-me o Funk, que só fez sucesso porque tinha um branco na capa do disco.

Nunca me achei bonito. “Sou ruim, e o cabelo ajuda”, eu dizia. Nunca fui opção de namoro. Sempre fui o conselheiro, sempre me expus demais. Sempre me sabotando.

Queria ser um artista, silencioso. Minha arte falaria por mim. Meus desenhos, quem sabe? Nunca os achei bons o bastante. Talvez escrever? Quantos negros escrevem? Bem, teve o Machado de Assis, e… Bem… com certeza existem outros escritores negros por aí, mas quantos desses conquistam espaço no mercado?

Fui carregador de refrigerantes para ganhar 40 reais por dia. Se eu ficasse sem comer, conseguiria economizar o tíquete de 5 reais e assim, “engordar” minha receita. Todos negros, com engradados de cerveja cruzando a tarde, parando em bares, esfolando os ombros.

O preconceito é tão forte que, quando me apaixonei por uma garota da igreja onde eu reunia, um outro amigo meu, também negro, não achava que a menina devia se relacionar comigo. Nós morávamos no mesmo beco, ele conhecia a minha família, meus hábitos. Não havia objeção alguma “senão” a minha cor.

Quando trabalhei para a Escelsa, companhia elétrica do estado do Espírito Santo, fui acusado de roubar um cartela de tíquetes de um garoto que havia chegado de férias, apenas por estar na sala sozinho, aguardando a hora de ir embora. Nós ganhávamos meio salário mínimo (36 URVs na época), e nada menos que 200 URVs de tíquetes, que eu usava para as compras de casa, enquanto a minha mãe usava o pagamento dela para construir a casa (que o ano passado foi abandonada em péssimas condições, tomada por usuários de crack e vendida por uma ninharia).

Ninguém considerou que eu poderia ser inocente. Apenas me mandaram eu devolver os tíquetes roubados. Me mandaram cumprir um dia de serviço e depois, sair do emprego. Então descobriram que o tíquete não veio porque o cara estava de férias. Me pediram desculpas e eu, ingênuo (15 anos na época), fiquei feliz por não ter perdido o emprego, coisa que aconteceu meses depois. Era um perigo um injustiçado ficar ali na empresa, sendo influenciado pelos outros a processar uma das maiores empresas do estado.

Quando passei no curso de Artes Visuais da UFES, na minha turma tinha 3 negros entre 25 alunos.

O outro aluno que conheci era do outro curso, de Artes Plásticas. Poucos negros na área de artes, e não era difícil de entender porque. Materiais caros, aulas que de manhã e de tarde, difícil trabalhar em tempo integral e estudar. Eu mesmo pulei fora por causa disso.

Por muito tempo vi negros empilhando caixas no supermercado, sonhando em ser ensacoladores. Quem sabe um dia ser caixa. Já vi gente sonhando em ser açougueiro, ganhava-se muito sendo um.

Quando decidi que queria escrever para viver, fui para gráficas, onde a coisa sempre era assim: Os vendedores, brancos. Os designers, brancos. Recepção? Brancas. Impressores, caras rústicos, broncos, mas que mexiam em máquinas de mais de meio milhão de reais eram… brancos. Serviços gerais, empacotadores, carregadores? Negros.

Onde eu chegava, era uma exceção. Na redação do jornal A Tribuna tínhamos sim alguns negros, peças importantes de lá, mas de novidade? Motoristas. Escrevendo, pondo as suas opiniões no jornal? Tínhamos 2 em uma redação com 40 pessoas. Eu mesmo era infografista e o outro negro ficava no tratamento de imagens.

A maioria esmagadora de negros ficavam no fim da fila, dobrando e encadernando os jornais, na madrugada, pondo em kombis para distribuição.

Na festa dos jornalistas, uma sala imensa onde poucos sorrisos negros brilhavam. Exceção reconhecível.

Na seleção para a oficina de roteiros da Globo, brancos, brancos e mais brancos. O cara mais negro que existia lá era eu, e em seguida André Vianco, que precisava ficar um pouco mais no sol para ser reconhecido de fato como moreno, entre 53 candidatos.

No Programa Globosat de Desenvolvimento de Roteiristas, eram 5 negros (3 homens e 2 mulheres) em um auditório com 250 roteiristas.

Este é o país em que eu fui criado e vivo. Eu trabalho na manutenção do meu sonho diariamente, mas cada dia mais eu vejo que tem gente contra, e não é contra mim, é contra todo um grupo.

Pessoas que deveriam ser cultas, pessoas presumidamente com conhecimento. Estudantes de Direito, de Medicina, pensadores, escritores… Dizem que nordestinos não prestam, xingam médicos cubanos de escravos, MEU DEUS ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO!

Eu tenho a impressão de que MERECI passar por tudo que passei só por ser NEGRO. Que não mereço me destacar, que não tenho direito de querer uma vida melhor, que devo morrer sem atendimento médico, que não posso ter acesso a educação de qualidade, que devo “voltar para a África”.

EU NUNCA ESTIVE NA ÁFRICA!

Eu não sei, eu não quero fazer parte deste país, eu não quero ser atendido por um médico rancoroso, que recebeu um carro do seu pai por passar na faculdade pública, que ROUBOU a vaga de alguém sem condições de fazer um cursinho. Eu não quero a minha vida nas mãos de pessoas que querem mais é que seus colegas estrangeiros cometam erros, que matem cidadãos. E A DROGA DO JURAMENTO QUE FIZERAM AO SE FORMAR?

{Atualização}

No vídeo acima, a médica loira, (pelo sotaque, nordestina), chama o funcionário negro de “cachorro” e “morto de fome”.  Eu não achei o vídeo de uma matéria feita depois, mas o funcionário chegou a alegar que ela disse que, se um dia dependesse dela para alguma emergência, ele morreria.

 

{Fim da atualização}

Eu estou doente, enjoado, indignado, eu estou podre. Eu morro por dentro cada vez que vejo uma figura de branco desejando a morte do povo em nome do dinheiro.

Sei que o Governo está pisando no calo de todos agora, mas vocês já lucraram muito, deram as cartas por muito tempo. Como é estar do outro lado agora?

Xenófobos, racistas… Eu tenho vergonha de morar no mesmo país que vocês.

medicos

(Foto: Divulgação – Jarbas Oliveira/Folhapress)

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