ubaldo_ariano

Se existe uma forma de se tornar imortal é através da obra.

O reconhecimento pode ser algo buscado, conquistado ou às vezes, chega como um presente. Ser lembrado pelo que disse, pelo que escreveu, pelo que pintou, construiu, cantou, empreendeu, defendeu, lutou, quis, ou até pelo que optou não fazer.

Sempre houve uma ação, sempre coube o autor uma decisão. Só passa para a eternidade quem age.

Mas nem tudo vem com uma assinatura. Os pontos dados na testa de uma criança, o tijolo preso com o cimento, o asfalto posto nas ruas tem um autor. Aliás, vários autores. Esses duram o tempo de sua obra. A antes da velhice a pessoa talvez esqueça que a operou – talvez nunca saiba –, o tijolo é coberto pelo reboco, depois pela pintura e lá muitos anos depois não sabemos quem levantou aquela casa. Não falo o engenheiro, o arquiteto, falo daquele que usou sua habilidade para construir.

O asfalto já foi coberto e recoberto, e recoberto, por autores anônimos. O cimento da calçada não tem autor, tem apenas usurpadores, crianças que assinam como se fossem delas aquele pedaço de chão.

Não é fácil chegar à imortalidade. Também não sabemos se temos tantos interessados. E talvez quem tenha se tornado não queria. Apenas é.

Mas o importante é que eles existem. Tive dificuldades de entender, quando criança, que existiam pessoas com esse nome. Curiosamente, velhos de cabeça branca, que nos deixavam poucos anos depois de receberem o nome.

Como é isso? Dizem que a pessoa é imortal e depois dela morre?

Para mim parecia ritual de investigação de bruxas: Pega uma mulher, acorrenta ela e joga no lago. Se sobreviver, era bruxa. Se não…

Ser imortal me parece ser um pacto formal, onde dizem: “Você é importante demais para ser esquecido.”

Depois percebi que os imortais apontam a direção. Cada vez deixamos de contar com a direção física de um, nos apoiamos nas lembranças e obras, mas ainda assim, como pessoas que confiam apenas num mapa para chegar a algum lugar, por vezes ficamos sem norte. Mas com a ida de João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, podemos dizer que ficamos sem Nordeste.

Anúncios