Eu tenho um cemitério na memória. Imagens que aparecem, me transportando para um lugar que não sei mais o nome, ou como chegar lá. Geralmente é acionado por um cheiro, uma música, uma expressão… me pega desarmado e me transporta, me joga no lugar por menos de um segundo e depois me pergunto: – Onde eu vivi isso?

Aos mais espiritualizados, vão dizer que um outro Estevão visitou esses lugares. Eles não estão errado. Era um Estevão de 14 anos, que entregava contas de energia para a empresa Escelsa.

A ideia foi interessante: pegar garotos entre 14 e 18 anos, treiná-los para entregar contas por meio período. Boa parte deles vieram de áreas carentes, como eu. O nome do programa era POEMA: Programa de Orientação Escelsa ao Menor Assistido. Sim, eu sei, nome péssimo. Mas voltemos ao cemitério.

Nos dois anos que fiquei no programa, entreguei contas por inúmeros bairros da Serra. Imagine que, mensalmente, fazíamos rotas de entregas de contas por bairros pobres, chiques, áreas rurais… É dessas paisagens que montei o cemitério.

Uma imagem recorrente é uma ladeira tomada pela erosão, com casas penduradas nas encostas, uma grande árvore próximo a ela. Estava nublado, era particularmente lindo e triste. Não me lembro em qual bairro.

E outras cenas seguem o roteiro. Aparecem, deixam dúvidas e somem. Um jogo de futebol entre velhos num campo sem grama. Um senhor vendendo sacolé de caipirinha. Não me lembro onde. O cão que deixou eu entrar na casa e depois ficou entre eu e o portão. Foi no bairro Barcelona ou Nova Carapina?

Um bairro industrial, onde quase ninguém estava em casa para receber as contas. Serra Dourada? Ouvir Daniela Mercury pela primeira vez, numa região praiana, entregando contas nos bares e nas casas de veraneio. Bicanga ou Carapebus?

Um caminho de terra e mato, ligando dois bairros, onde vez ou outra era possível encontrar um animal morto: Cão, vaca, cavalo, gato… Nova Carapina?

Encontrei uma amiga da escola, que havia mudado sem dar notícias. Foi em Feu Rosa? Ameaça dos moradores por não receberem as contas: no bairro Marajá ou Jardim Carapina?

As cenas acontecem, mas não se completam. Em compensação, algumas cenas são inesquecíveis: Afundar até o joelho no quintal aterrado em Jardim Carapina;

Seguir numa rua atééé o final da rua, ainda sem asfalto, do bairro Vila Nova de Colares. As ladeiras do bairro São Marcos. Demorar duas horas para entregar 200 contas num bairro chamado Divinópolis, ter que andar meia pela rodovia para chegar à um bairro chamado Belvedere, gastar 3 horas para entregar 50 casas, por causa da distância entre elas.

Jacaraípe e seus prédios. Andar com mais de 800 contas nas mãos, entregando 200 para casas e o resto em maços, aos condomínios. Era bem rápido.

Nova Almeida, região de veraneio, onde 70% das contas eram pagas em débito automático e os donos das casas apareciam só final de semana. Entregar era um desencargo de consciência.

As lembranças reduzem um pouco a intriga criada pela memória, que teima a me dar sensações que não identifico, talvez com algum propósito.

Bem, aqui temos um texto. Talvez uma missão cumprida.

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