esquenta

Antes de começar um texto sobre racismo e as minhas posições eu preciso dizer por que o assunto me atinge.

Minha mãe desde cedo pregou que eu não sou negro, sou moreninho e por isso não devia levar em consideração qualquer piada ou restrição que existisse contra negros.

Mas na primeira besteira que fiz na rua (entortei uma cadeira do bar, aquelas de ferro, brincando com um amigo), eu ouvi do dono de uma padaria (branco, claro):

– Só podia ser preto.

Não adiantou eu ter pedido desculpas, ter desentortado a cadeira (bem, mais ou menos), o padeiro queria desabafar e soltou essa máxima que ainda hoje é possível ouvir essa barbaridade dessas sair da boca de alguns brasileiros.

Trauma registrado, vamos para o que interessa. Há uns dois anos ganhei ingressos para ver o Comédia Carioca e lá estava um comediante chamado Murilo Couto que, agora exercendo meu lado preconceituoso, se comportava no palco como um daqueles bullies que ficava no fundão da sala de aula, sacaneando outros moleques. Numa das suas piadas (poucas delas refletiam o stand up de verdade, que é analisar sua própria vida e costumes), ele falou que viu Péricles, na época no Exaltassamba, cantar sobre as noites de amor que viveu e a piada consistia em falar que ele só podia estar inventando, porque ele era gordo e feio…

Como eu falei, sou sensível ao assunto e na hora li nas entrelinhas um sussurro: preto!

Eu me senti duplamente ofendido, porque sou preto e gordo! Não, TRIPLAMENTE ofendido, porque sou preto, gordo e feio!!!

Por que cito o Murilo e o Péricles? Porque os dois estão bem empregados graças ao trabalho que desenvolvem: Um é roteirista e integrante da equipe do Agora É Tarde com Danilo Gentilli e o outro é integrante da equipe do Esquenta, da Regina Casé.

Mas o curioso é que, por mais que o programa do Danilo seja sobre piadas e muitas vezes os textos fazem piada sobre o comportamento do trabalhador, do gay, do negro, do político (por que não?) ou de uma celebridade, o programa é recebido com seus merecidos elogios, mas um programa como o Esquenta, que fala sobre a periferia, é tratado como algo ruim.

Um rapaz de um blog que não merece ser citado aqui diz que o Esquenta reforça estereótipos. Discordo, o programa não inventa a moda, só pega o que está acontecendo nas comunidades e levando para a TV.

O rapaz em questão é negro e diz que existem muitos negros poliglotas, apreciadores de música clássica, que gostam mais de livros do que de pessoas, e que nem sentem falta do feijão quando viajam.

Eu, com 34 anos nas costas e dois terços de minha vida morando em áreas pobres, preciso dizer que devo ter conhecido pouco menos de 10 negros que falam mais de duas línguas, talvez o mesmo tanto que leia mais de cinco livros por ano e sobre o feijão, é uma realidade econômica: o brasileiro está se alimentando mal, deixando de lado o arroz e feijão e caindo na massa ou fast food.

Isso não quer dizer que essas pessoas não querem aprender outras línguas, não se interessem pela leitura ou não gostem do bom e velho arroz e feijão. Para mim isso é apenas uma questão de oportunidade.

Assim como temos negros e negras que querem viver da dança e do futebol, temos brancos que, se pudessem, viveram disso também. Mas se você perguntar para as pessoas que dançam e cantam no auditório do Esquenta, eu tenho certeza que vai encontrar pessoas que querem ser médicos, taxistas, enfermeiros, empresários, lutadores, biólogos, professores universitários, ter uma loja de doces, uma padaria e, claro, ser cantor, apresentador ou dançarino.

Mas uma coisa todos eles sabem que são.

São negros e negras que finalmente estão se vendo na TV. Se não gostam do que vêem, façam melhor ou simplesmente desligue a TV.

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