Começou assim, de forma simples:

– Farei uma torta capixaba para a sexta-feira santa!

A minha esposa olhou com naturalidade. Carioca da gema, eu em solo carioca…

– A mamãe sempre faz bacalhau com batatas.

– Ela pode até fazer, mas eu quero fazer uma torta capixaba também, ué!

– Tudo bem, só não coloca o tal de coentro! Vocês, capixabas, têm mania de colocar coentro em tudo!

– Tá. Mas vai ter que aceitar o sururu (mexilhão)!

– Então tem que ir no Mercado de Peixe. Não dá para confiar em mexilhão da rua.

– Ok.

Esperei ela e minha sogra no mercado. Chegamos lá e cometi o erro de principiante. Comprei o sururu e o camarão na primeira barraca. O que vi depois foi uma diferença de preços tremenda, nada que ferisse tanto o bolso, mas o orgulho, ah! O orgulho. Este sim estava ferido.

– Tem caranguejo desfiado – perguntei.

– Não, só siri.

O lance é que a torta capixaba, leva uma pá de coisas:

  • Cebola, alho, azeite doce, azeitona, limão, coentro, cebolinha verde, tomate a gosto;
  • ½kg de palmito natural previamente cozido;
  • 200gr de siri desfiado e cozido;
  • 200gr de caranguejo desfiado e cozido;
  • 200gr de camarão cozido;
  • 200gr de ostra cozida;
  • 200gr de sururu cozido;
  • 200gr de badejo desfiado e cozido;
  • 500gr de bacalhau desfiado e cozido.

– Eu acho ostra nojenta – disse a Ana.

– Então não vai entrar nem o coentro, nem a ostra, mas também não entra a azeitona…

– O quê?

– Isso mesmo! E nem o caranguejo, porque nessa #$%¨&* de lugar não tem!

– Duplica a quantidade de siri – minha sogra agindo.

– Ok… e a ostra?

– Podemos colocar lula – a Ana agindo em causa própria.

– Tá. Compremos o que der e vamos ver no que dá.

Saímos do mercado com duas sacolas grandes de frutos do mar. Tentamos pegar um táxi em vão e esperamos cerca de meia hora no Sol com os peixes. Não fui a pessoa mais amada do ônibus. Nem em casa, porque no dia seguinte a geladeira ficou fedida.

– E vamos para a cozinha!

Descascamos camarão, cozinhamos todos os frutos do mar, cortamos, desfiamos os peixes, bati seis ovos com claras em neve que deu a liga dos frutos do mar e a espuma característica da torta.

– E está pronto!

tortacapixaba

Olhem aí o resultado! Como também não pude usar cebola, a decoração ficou por conta do ovo cozido…

A família portuguesa, com certeza, olhou para o prato na panela de barro. Meus concunhados não comeram. Um porque é alérgico a camarão e o outro é cozinheiro… Minha cunhada apreciou meu esforço e, mesmo odiando camarão, pegou um pouquinho.

Miguel, meu enteado, fez a parte dele: comeu, elogiou, mas não quis mais um pedaço…

Meu sogro gostou. Minha esposa adorou. Minha sogra gostou.

Deu certo, né? Se bem que…

Meu sogro achou que fiz muita torta. Ora, era para uma família de dez e apenas quatro e meio comeram…

– Mas gostou mesmo? – perguntei a Sogra.

– Gostei. Acho que tinha muita coisa.

– Ah, bom… E você, Ana?

– Eu gostei, mas faltou algo… talvez coentro.

– COENTRO?

– É.

– Tá, vou confessar que a azeitona poderia ter feito a diferença…

– É verdade – disseram quase em coro.

– Acho que devemos fazer essa moqueca de novo, só que com menos coisa – minha sogra incentiva.

– É! Muito palmito e bacalhau – disse Ana.

– Palmito não, batatas! – estala os dedos a minha sogra.

– Bacalhau com batatas? – disse eu, ofendido.

– É, mas na panela da barro – disse ela, respeitosamente.

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