Olá, pessoal. Gostaria de compartilhar um conto com vocês, que acompanham este blog semiabandonado. Pior ainda com a comemoração que resolvi fazer em Os Passarinhos, fazendo uma tira por dia.

Este texto era para eu enviar para o concurso Contos do Rio, mas quando li o regulamento, constatei que não podia participar porque havia publicado um livro. Para não ficar perdido em meu hd, aqui está:

Carinhoso ao fim do mundo

Por Estevão Ribeiro

– Você vai ficar quanto tempo por aqui? – Perguntei ao homem sentado em frente ao metrô da Carioca.

– Até o fim do mundo, se deixarem. – Responde, com um sorriso amarelado. Eu perguntei se ele ficaria ali tempo o bastante para eu ir ao banco, pagar umas contas. A intenção é dar o troco pra ele, pelo bom trabalho realizado ali.

Aquele senhor, que não dá para saber se é escuro assim mesmo de nascença ou se tem a pele castigada por esse sol cruel do Rio, deixando evidentes os descuidos consigo mesmo.  A cabeleira, que mais parecia um arbusto seco e retorcido de sua cabeça, necessita de uma paciência invejável para manter, ou um desapego total da sua imagem.

Mas não posso dizer que aquele homem, que infelizmente não perguntei o nome, era desleixado. Era só olhar o cuidado que ele tinha com o seu saxofone.

– Foi presente do Jô! Sabe aquele apresentador “forte”? – Ele quis dizer “gordo”, assim como as amigas da minha mãe faziam quando me viam. – Ele está fortinho, né?

Não. GORDO. Eu estava gordo. Eu ainda estou gordo. E o Jô? TAMBÉM é gordo.

Desculpe a confusão, é difícil formular pensamentos ao som de “As rosas não falam”, tocada de forma gutural no sax. O cara sabe fazer aquele instrumento gritar como a Elza Soares, estranhamente apaixonante. Gostaria de conseguir tirar da pequena gaita que levo na bolsa um décimo do que aquele homem tira de seu instrumento. Eu a acaricio duas ou três vezes, contendo o impulso de tirá-la da bolsa e tocar seja lá o quê ali.

Mas o tempo era curto para mim, que ia ao banco. As contas não esperariam tanto quanto ao senhor do sax na Carioca. Dei as costas e substitui o maravilhoso som daquele instrumento pelo do rádio de meu celular. Entre uma música e outra, a notícia de uma nuvem formando no céu, que já cobria boa parte do Estado, em forma circular, vindo da Europa. Cada novo informe parecia ter o cuidado de mostrar que se tratava de um fenômeno desconhecido, mas que os maiores cientistas do país estavam empenhados em descobrir a origem daquilo.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi: Por que nossos pesquisadores estão empenhados em descobrir se essa nuvem veio da Europa e eles certamente podem nos dizer o que é?

Como se o locutor da rádio tivesse ouvido meus pensamentos, ele me põe a par da situação:

– Milhares de pessoas tentam fazer contato com a Europa, a procura de notícias, mas todas as comunicações foram interrompidas.

Eu olho para a mulher no caixa batendo no monitor. Parece que o sistema não está funcionando. Os rostos de interrogação se repetem nos outros caixas e a minha mente conspiratória começa a funcionar. Dentro de um banco não me parece ser um bom lugar para estar no momento de pânico e eu estava começando a entrar em um.

Passei pela porta giratória com dificuldade e encontrei uma rua cheia de pessoas assustadas olhando para o céu, ao longe, a nuvem se aproximando. Meu rádio parou de funcionar antes que terminasse a declaração do prefeito do Rio sobre a nuvem que se aproxima. – Fiquem em ambientes cobertos e fechados. – Dizia o homem. – Não vamos deixar acontecer aqui o que aconteceu nas maiores cidades do mund…

– E o que aconteceu? – Pergunto ao rádio mudo. Tento ligar para minha família, mas já prevendo a falta de sinal.

Os carros parados com cidadãos irritados dentro deles mostra que, o que afetou meu celular os afetou também. A paisagem ainda soa familiar. Pessoas de amarradas ao volante.

Corro para a entrada do metrô da Carioca, vejo que o problema persiste por lá. Centenas de pessoas subindo as escadas, reclamando que tiveram que andar pelos túneis e trilhos para chegar à estação. Um trem com problemas? Ainda familiar.

Mas com toda aquela movimentação, o senhor do sax não estava lá. Fui seguindo a multidão em direção ao Largo da Carioca, em passos apressados, fugindo da nuvem que avançava lentamente, cobrindo tudo o que a minha vista alcança.

No meio da multidão, ouço o som do sax novamente. Ele tinha ido para um lugar mais aberto, mas ainda estava. Penso se devo ficar por aqui, onde ele resolveu reverenciar o desconhecido. Sem poder me despedir da família e percebendo da inviabilidade de caminhar por mais de vinte quilômetros até minha casa, acho que ficar por aqui será a melhor pedida.

Assim pensado, tiro minha gaita da bolsa. O senhor me olha.

– Sabe tocar isso?

– Pouca coisa. – Respondo.

– Tipo o quê?

– Carinhoso, de Pixinguinha.

– E de João de Barro.

Eu acenei com a cabeça enquanto molhava os lábios e encaixava a gaita na boca.

Ele me responde com uma bela introdução, fazendo um sinal com a sobrancelha para que eu comece a tocar.

E assim fiz enquanto a nuvem se aproximava.

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