– E você é o quê? – Me pergunta a secretária do jornal O Globo, antes de me deixar falar com jornalista Télio Navega.

Eu demoro a responder, até porque não sei o que falar, sem parecer pretensioso.

– Escritor… – Falo eu, não levando muita fé no que falei. Mas eu sou, não sou? Afinal, estou com um livro de minha autoria debaixo do braço, já escrevi um bocado de coisas, quadrinhos, cartilhas… Por que então a vergonha?

Talvez porque eu queria que, quando a secretária olhasse pra mim, abrisse um sorriso, lembrasse de mim de algum lugar, de uma entrevista na TV ou de uma foto de jornal. Seria mais fácil, com certeza, mas como eu estava acordado, minha solução foi ligar para o Navega para pedir autorização pra subir.

Chegando lá na redação, três vezes maior do que a que eu trabalhei em Vitória (falo aquele andar, fora os outros 3 e o prédio ao lado…), eu encontrei o Télio depois de andar uma quadra de redação, mas não sem antes ir ao banheiro (lembram do post do xixi?). Tivemos uma conversa rápida, tomamos um café, encontrei a galera da Arte, conversamos sobre a crise… Foi uma boa tarde!

Mas voltando ao pensamento de ser ou não ser, o que define um escritor?

Eu escrevo, tenho um livro na praça, outro em revisão e procurando tempo, entre minha nova paixão, a tirinha Os Pássaros, cartilhas para empresas… Ou seja: EU ESCREVO!

Algumas vezes recebo por isso. Outras vezes praticamente pago para trabalhar, gastando um tempo que não tenho em projetos pessoais. Gosto de pensar – na verdade PRECISO pensar – que isso é um investimento.

Rio de Janeiro não oferece oportunidades, mas é como estar em diversas festas. Você pode ser um bicão, se meter nos lugares e impor sua presença. Ou você pode ficar amigo de uns porteiros, conhecer os donos das festas. É preciso paciência, as pessoas não se lembrarão de seu rosto num segundo encontro. Outras pessoas farão questão de evitar um segundo encontro. Ainda existem outras que se lembrarão de você, mas e daí? Você está no Rio!

Estou até agora procurando os donos da festa.

Por enquanto, escrevo, desenho, converso, conheço pessoas na mesma situação que a minha, tateando na pista, tentando reconhecer rostos em boates, tentando se lembrar deles no dia seguinte.

Ser escritor ainda rende uma conversa recorrente:

– O que você faz?

– Sou escritor.

– Ah, se eu te contasse minha vida, você escreveria um livro! – A pessoa diz, arqueando os lábios para baixo, forçando um caudaloso e triste beiço, como se tivesse bebido todo o álcool do mundo – E ia fazer muito sucesso! – Conclui, sem modéstia.

Se for chargista ou cartunista, a coisa fica pior:

– Sou chargista! (Ou cartunista)

A partir daí, cada coisa que acontecer com este indivíduo perto de você, ele dirá:

– Isso dá uma charge, hein? Isso dá uma tirinha…

Se você é um ilustrador, aí ferrou tudo:

– Sou desenhista!

– Ah, que legal! Você me desenha?

É difícil para as pessoas entenderem que ambicionamos fazer as coisas que gostamos como ganha pão, mas alguém precisa pagar por isso!

Eu ainda não adquiri o bom senso de responder à pessoa que me pede para desenhá-la que isso custa no mínimo R$ 90,00, para começo de conversa, mas uma hora eu consigo.

O curioso é que nunca ninguém fala:

– É cirurgião? Faz uma cirurgia aí pra eu ver!

 

Bem, gostaria mesmo de saber o que uma pessoa me pediria se eu me encontrasse na seguinte conversa:

– O que você faz?

– Sou ator pornô!

– …

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